
Edirne, Império Otomano.
Enquanto os filhos do Dragão discutem o futuro da Valáquia, um homem que acreditam estar morto atravessa lentamente os corredores de uma residência fortificada sob domínio otomano.
Vlad II Dracul está vivo.
Seu rosto carrega o cansaço das últimas semanas, a barba cresceu e a capa escura que veste ainda apresenta marcas da fuga que o obrigou a abandonar Târgoviște. Depois de escapar da ofensiva que derrubou seu governo, procurou o único poder com o qual ainda mantinha um acordo e apresentou-se aos otomanos esperando encontrar proteção.
Ele não sabe que seus filhos já retornaram à Valáquia, muito menos sabe aquilo que fizeram.
Dois guardas conduzem-no até uma sala onde Murad II o aguarda acompanhado de conselheiros e oficiais. O sultão observa a entrada do antigo voivoda sem demonstrar qualquer satisfação e Vlad II percebe imediatamente que alguma coisa aconteceu.
Ele inclina a cabeça.
— Meu sultão.
Murad não corresponde ao cumprimento.
— Como tem coragem de se apresentar diante de mim depois da traição de seus filhos?
Vlad II ergue os olhos, confuso.
— Meus filhos?
A surpresa é tão evidente que alguns homens ao redor trocam olhares. Murad permanece em silêncio, estudando-o, até um conselheiro aproximar-se e falar discretamente:
— Ele não sabe, senhor.
Vlad II olha de um homem para outro.
— O que aconteceu com Mircea, Vlad e Radu?
Ninguém responde imediatamente.
Seu coração acelera.
— Meus filhos estão vivos?
Murad inclina-se para a frente.
— Estavam vivos quando transformaram minhas próprias tropas contra mim.
Vlad II empalidece.
— O quê?
— Seu filho Vlad organizou uma rebelião dentro do meu exército. Homens que receberam treinamento, alimento e oportunidade sob minha autoridade voltaram suas armas contra meus soldados assim que entraram na Valáquia.
Vlad II permanece imóvel. Uma parte dele sente alívio simplesmente por ouvir que os filhos sobreviveram; outra tenta compreender como os três passaram de reféns do sultão a comandantes de uma revolta.
— E Mircea?
— Escolheu o irmão.
— Radu?
Murad não responde imediatamente.
— Retornou com eles.
Vlad II fecha os olhos por um instante. Os três estão vivos. Depois de cinco anos de incerteza, essa única verdade quase é suficiente para fazê-lo esquecer onde está.
Murad percebe.
— Não sorria.
Vlad II controla a expressão.
— Perdoe-me.
— Entregou seus filhos como garantia de sua lealdade. Eu os mantive vivos durante cinco anos e eles me pagaram com traição.
Vlad II ergue novamente os olhos.
— Meu senhor, quando entreguei meus filhos, cumpri aquilo que me foi exigido. Durante esses cinco anos também cumpri meus acordos. Foi justamente por minha relação com o Império que meus inimigos me acusaram de traição e tomaram meu trono. Se meus filhos fizeram aquilo que diz, fizeram sem meu conhecimento.
Um dos conselheiros confirma em voz baixa:
— Ele veio até nós antes de receber qualquer notícia sobre a rebelião.
Murad permanece alguns segundos em silêncio. Sabe que Vlad II diz a verdade, mas isso não torna a situação menos delicada.
— Seu filho apontou uma espada contra meu poder — declara finalmente. — E agora espera que eu acredite que o pai não possui responsabilidade alguma?
Vlad II respira fundo.
— Espero que reconheça minha própria lealdade.
Murad levanta-se. Os guardas imediatamente ficam atentos.
— Sua lealdade?
O sultão aproxima-se lentamente.
— Enquanto você pede que eu reconheça sua lealdade, seus filhos ocupam novamente Târgoviște sobre os corpos dos homens que me serviam.
Vlad II arregala os olhos.
— Târgoviște?
Murad percebe que revelou mais do que pretendia.
O pai dá um passo involuntário à frente.
— Eles recuperaram Târgoviște?
Os guardas imediatamente seguram seus braços.
— Chega! — ordena Murad.
Vlad II tenta olhar novamente para o sultão.
— Mircea está no trono?
Murad não responde.
— Vlad está vivo? Radu está com eles?
— Prendam-no.
O Dragão fica imóvel.
— Meu senhor...
— Para todos os efeitos, Vlad II Dracul morreu quando perdeu Târgoviște. — Declara o sultão
A frase provoca um silêncio pesado.
Vlad II encara Murad.
— O que pretende fazer comigo?
— Mantê-lo vivo.
— Por quê?
Murad aproxima-se até ficar diante dele.
— Porque homens mortos não possuem utilidade.
Vlad II compreende imediatamente. Ele não é hóspede. É um refém do sultão, que reitera:
— Ninguém saberá que ele está aqui. Nem húngaros, nem valáquios e, principalmente, nenhum de seus filhos. Alimentem-no, tratem suas feridas e não permitam que saia.
Vlad II é conduzido para fora. Antes que as portas se fechem, ainda consegue olhar para o sultão.
— Eles são meus filhos.
Murad sustenta seu olhar.
— Exatamente por isso continuará vivo.
A cela destinada ao antigo voivoda é mais confortável do que aquela onde seus filhos passaram os primeiros meses de cativeiro, mas continua sendo uma prisão. Há uma cama, uma pequena mesa, água e uma janela estreita por onde entra pouca luz. Vlad II senta-se lentamente e, pela primeira vez desde que chegou a Edirne, permite que as emoções atravessem a postura de governante que manteve diante do sultão.
Mircea, Vlad e Radu estão vivos. Ele fecha os olhos e tenta imaginá-los. A última imagem que possui é a de três meninos sendo levados para longe. Mircea já carregava a postura de herdeiro; Vlad ainda possuía o temperamento impetuoso de uma criança que sonhava entrar para a Ordem do Dragão; Radu era o mais jovem, ainda protegido pelos irmãos.
Cinco anos se passaram.
Que homens retornaram?
Vlad II leva as mãos ao rosto e murmura uma oração. Gostaria de sentir apenas gratidão, mas as palavras de Murad o perseguem. Vlad liderou uma rebelião. Mircea escolheu permanecer com ele. Os três voltaram a Târgoviște.
O pai não sabe se deve sentir esperança ou medo. Talvez ambos.
De volta à sala onde recebeu Vlad II, Murad permanece diante de um mapa da Valáquia enquanto seus conselheiros discutem as notícias mais recentes. A morte de Ladislau interrompeu temporariamente o avanço húngaro, mas a situação é mais complexa do que uma simples vitória dos filhos do Dragão.
— Precisamos atacá-los antes que Hunyadi faça uma proposta — argumenta um dos oficiais. — Se os filhos de Vlad II se aliarem aos húngaros, teremos uma nova barreira em nossa fronteira.
Outro conselheiro balança a cabeça.
— Eles acabaram de matar o homem colocado no poder com apoio húngaro. João Hunyadi não terá motivos para confiar neles.
Murad permanece em silêncio, olhando o mapa.
Mín. 21° Máx. 33°