A igreja está silenciosa, exceto pelo som abafado de soluços e o eco distante de uma música suave tocada no órgão. As velas tremeluzem, projetando sombras dançantes nas paredes de pedra. Jonathan Harker está deitado em seu caixão, envolto em flores brancas, seu rosto sereno como se estivesse apenas dormindo. Mina, vestida de preto, sobe ao púlpito com passos lentos, segurando um lenço branco que ela torce entre os dedos. Sua voz, embora trêmula, ecoa pela nave vazia:
_ Jonathan foi um bom pai, um bom amigo… _ Ela faz uma pausa, engolindo em seco. _ Ele não era perfeito, mas era um homem de princípios. Alguém que lutava pelo que acreditava ser justo, mesmo quando o mundo ao seu redor parecia desmoronar. Ele tinha um coração enorme, capaz de perdoar, de amar… de ser carinhoso de uma forma que poucos conseguem.
Ela olha para o caixão, seus olhos brilhando com lágrimas não derramadas.
_ Ele me ensinou que o amor não é sobre perfeição, mas sobre escolhas. E Jonathan escolheu ser bom, mesmo quando era difícil. _ Mina respira fundo, tentando conter a emoção. _ Eu o amarei para sempre.
Ao descer do púlpito, Mina sente o peso do olhar de todos sobre ela. Ela caminha até o bebedouro da igreja, buscando um momento de solidão, mas é interrompida por uma voz rouca e familiar:
_ Se eu não a conhecesse, diria que aquelas palavras vieram do fundo do seu coração. Quase acreditaria que Jonathan reconquistou seu amor após tantos anos.
Mina congela. A voz é inconfundível. Ela se vira lentamente e lá está ele: Avraham Van Helsing, agora um homem idoso, curvado pelo tempo, mas com os mesmos olhos penetrantes que ela lembra tão bem. Ele usa um sobretudo escuro, e suas mãos tremem levemente ao segurar uma bengala.
_ Como você tem coragem de aparecer aqui? _ Sussurra Mina, sua voz carregada de raiva e dor. _ Depois de tudo o que fez…
Van Helsing inclina a cabeça, um sorriso amargo se formando em seus lábios.
_ Eu esperava um pouco mais de cortesia, Mina. Afinal, não fui eu quem a abandonou.
_ Você me enganou! _ Ela responde com sua voz baixa, mas cortante. _ Enganou Jonathan, manipulou todos nós. E agora vem aqui, para o velório do homem que você ajudou a destruir?
Van Helsing suspira, seus olhos se fixando no caixão ao fundo.
_ Eu não vim para tripudiar, Mina. Vim cumprir uma promessa que fiz há muito tempo. Uma promessa que fiz a você.
_ Uma promessa? _ Ela ri, um som seco e sem humor. _ Você me prometeu trazer Drácula de volta. Me prometeu que eu poderia tê-lo novamente. E o que eu ganhei? Cinco anos de mentiras, de traição… enquanto você brincava com meu coração.
Ele olha para ela e, por um momento, parece que a máscara de frieza que ele sempre usa se quebra. Há algo em seus olhos — arrependimento? Tristeza?
_ Eu não menti sobre tudo, Mina. _ Sua voz está suave, quase um sussurro. _ Eu sabia como trazê-lo de volta. Mas você desistiu. Você escolheu Jonathan, escolheu a vida que tinha, e eu… eu respeitei sua decisão.
Mina aperta os punhos, suas unhas cravando-se nas palmas das mãos.
_ Você não respeitou nada. Você roubou meu diário, distorceu minha história, fez de mim uma personagem em um livro de ficção. Tudo para proteger sua própria reputação.
Van Helsing abaixa os olhos, como se a acusação o atingisse como um golpe físico.
_ Eu fiz o que tinha que fazer. Se a verdade tivesse vindo à tona, você teria sido destruída. Jonathan também. Eu os protegi, mesmo que você não veja isso.
_ Protegeu a si mesmo _ responde ela com sua voz cheia de desprezo. _ Você é um covarde, Van Helsing. Sempre foi.
Ele não responde imediatamente. Em vez disso, tira um envelope do bolso e o estende para ela. Mina hesita, mas acaba pegando-o, sentindo o papel áspero sob seus dedos.
_ O que é isso? _ pergunta ela, desconfiada.
_ Tudo o que você precisa saber. _ Ele responde com sua voz grave. _ Como se tornar uma vampira. Como ressuscitar Drácula. É minha última prova de amor por você.
Mina olha para o envelope, depois para ele, seus olhos estreitando-se.
_ Por que eu deveria acreditar em você agora? Depois de tudo, o que fez?
Van Helsing dá um passo para trás, sua expressão sombria.
_ Jonathan, Seward, Arthur, Morris… todos estão mortos. Se Drácula voltar, ele virá atrás de mim. E eu o matarei de novo, se for necessário. Mas você… você merece uma chance de ser feliz, Mina. Mesmo que isso signifique viver sem mim.
Antes que ela possa responder, uma voz jovem interrompe o momento:
_ Está tudo bem, mãe?
Mina se vira e vê Miguel, seu filho, aproximando-se com uma expressão preocupada. Ele é a imagem de Jonathan em sua juventude, com os mesmos olhos azuis e cabelos escuros. Ela força um sorriso e coloca o envelope no bolso de seu casaco.
_ Tudo bem, Miguel. Este é Sir Avraham Van Helsing, um velho amigo do seu pai.
Miguel olha para Van Helsing com curiosidade, mas também com uma ponta de desconfiança.
_ Sir? _ Pergunta ele, levantando uma sobrancelha.
_ Sim. _ Responde Van Helsing, estendendo a mão. _ Intitulado pelo próprio Jorge V., e você deve ser Vlad Miguel Harker.
_ Apenas Miguel, por favor _ responde o jovem, apertando a mão de Van Helsing com firmeza. _ Meu pai sempre preferiu Miguel. Significa “Quem é Igual a Deus?”. Ele dizia que ninguém é semelhante ao Altíssimo.
Van Helsing sorri, um gesto raro e quase desconfortável.
_ Seu pai era um homem sábio. Ele deixou um grande legado em você.
Miguel acena com a cabeça, mas seu olhar ainda está fixo em Van Helsing, como se tentasse decifrar algo. Mina aproveita o momento para se afastar, puxando o filho pelo braço.
_ Vamos, Miguel. Precisamos voltar para os outros.
Enquanto caminham, Mina sente o peso do envelope em seu bolso, como se ele queimasse através do tecido. Ela olha para trás uma última vez e vê Van Helsing parado no mesmo lugar, observando-a com uma expressão que ela não consegue decifrar. Talvez seja tristeza. Talvez seja arrependimento. Ou talvez seja apenas mais uma de suas mentiras.