Quinta, 11 de Junho de 2026

1.4. Abrigados

Arco - EScolhidos e Enviados 4

13/04/2026 às 17h16 Atualizada em 13/04/2026 às 17h30
Por: Luan Dutra Fonte: Por Markon Machado
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1.4. Abrigados

O sol de Ponta Porã começa a se inclinar no horizonte, tingindo o céu com tons de laranja e púrpura. A brisa quente acaricia a varanda da sede da fazenda, trazendo o sussurro de erva-mate e terra seca, enquanto o zumbido das cigarras anuncia a chegada do entardecer.

Após algumas horas de espera, com os rostos ainda cobertos por véus e talits que filtram a luz celestial, Madm, Amada, o pequeno Bebeto, Luk, Healer, Menslike e Nokram sentam-se em cadeiras rústicas. Seus corações batem em compasso ansioso — uma mistura de gratidão, reverência e medo do desconhecido.

À frente deles, Aparício, Duck e Faustão observam com curiosidade desconfiada. O suor brilha nas têmporas dos homens, refletindo o fogo que arde na fornalha da cozinha próxima. Entre eles, uma bela jovem albina se move com graça contida, equilibrando uma bandeja de alumínio. Seus gestos são suaves e seguros — quase coreografados. O tereré que serve exala um frescor de erva e gelo, contrastando com o calor espesso do fim da tarde.

Madm, tomado por um sentimento de reverência e saudade do divino, começa a narrar o que viveram. Sua voz é pausada, cheia de emoção, como quem ainda ouve ecos do céu em cada palavra.
Amada, ao seu lado, complementa com delicadeza. Sua voz é branda, quase maternal, descrevendo a renovação dos corpos e a serenidade que os envolveu. Bebeto, de olhos arregalados, fala dos cânticos que ainda soam dentro dele — lembranças puras de um som que o mundo não conhece.

Luk, Nokram e Menslike revezam lembranças das perseguições e milagres, enquanto Healer fala com firmeza sobre a esperança que os sustenta. O grupo parece respirar em uníssono, unidos por um mesmo propósito.

O silêncio que se segue é denso. Apenas o vento balança as folhas do ipê e o som metálico de um inseto toca o ar. Aparício franze o cenho — o ceticismo pintado em sua expressão. Duck, curioso, inclina-se para frente, e Faustão, o pastor, observa boquiaberto, a Bíblia ainda enfiada no bolso da calça.

Por fim, é ele quem rompe o silêncio, a voz embargada de esperança:
— Então, vocês podem curar qualquer um de nós de qualquer doença?

Madm sorri, o olhar sereno refletindo o último brilho do sol.
— Esta é a promessa de Deus — diz, com convicção mansa. — E cremos que Ele nos honrará.

Duck coça o queixo, hesitante, e aponta para a jovem albina.
— Então… vocês podem curar Kilba?

A moça, até então silenciosa, ergue o olhar, os olhos de um azul quase translúcido queimando em irritação.
— Curar do quê? Eu não sou doente!

A tensão na varanda se dissolve em um breve riso.
Menslike, encantado pela coragem dela, comenta com voz branda:
— Verdade. Não tem do que se curar.

— O albinismo é uma mutação genética — explica, Madm, com calma. — Não sei se é algo que precise de cura.

Kilba cruza os braços, o rosto iluminado pelo pôr do sol:
— É, não preciso de cura.

O riso se espalha entre todos, leve, humano. O som do tereré sendo sorvido mistura-se ao crepitar distante do fogo na cozinha, e por um momento o ar parece menos pesado.

De repente, o ronco grave de uma caminhonete corta o silêncio. A poeira sobe na estrada, e o sol poente se reflete no para-brisa como uma lâmina de luz.
Aparício se levanta bruscamente.
— É o chefe!

O grupo se recolhe, mantendo seus rostos cobertos com os véus.
Amada segura a mão de Madm com firmeza — gesto de coragem e consolo.

A caminhonete Chevrolet Brasil azul estaciona em frente à varanda. A porta se abre com um rangido metálico e, em meio à poeira, surge Thomaz Muller — alto, de ombros largos, o rosto sulcado pelo sol e pelos anos de mando. Tira o chapéu, limpa o suor com o lenço e lança um olhar calculado para o grupo.

Aparício, agitado, vai ao seu encontro.
— Desculpe incomodá-lo, chefe, mas aconteceu algo muito estranho.

— O que foi? — pergunta Thomaz, com voz rouca, arranhada por cigarro e autoridade.

Aparício explica apressado:
— Vimos um clarão no meio do matagal. Quando chegamos lá, encontramos esse pessoal — cinco homens, uma mulher e uma criança. Dizem que são anjos de Deus.

Thomaz estreita os olhos, estudando o grupo.
— Anjos? — A palavra sai com ironia e fascínio misturados.

Nokram, firme, responde:
— Não.

Menslike, sorrindo de leve para Kilba, acrescenta:
— Mas somos enviados de Deus.

Thomaz dá um passo à frente, curioso.
— Enviados? E por que estão com os rostos cobertos? Tirem isso, quero ver quem fala comigo.

Madm hesita. Todos na varanda seguram a respiração.
— Melhor não, senhor — adverte com calma. — Isso pode ferir vossos olhos.

Thomaz ri, desafiando o impossível.
— Se são anjos, não me farão mal, correto?

Menslike, movido pela ousadia e talvez pelo desejo de impressionar Kilba, tira o véu. Por um instante, o ar parece vibrar. A luz que escapa de seu rosto é intensa demais — e Thomaz recua, gritando, cobrindo os olhos com o lenço.

Amada ergue-se, aflita.
— Coloque novamente, rápido!

Menslike obedece. O brilho cede. O silêncio volta a dominar o ar. Thomaz respira fundo, ainda com o rosto vermelho, e diz entre dentes:
— Venham comigo… quero entender o que são.

Eles o seguem até o escritório — uma sala de madeira escura, com cheiro de couro e tabaco. Cabeças de caça pendem nas paredes como troféus de um império privado. O som de um relógio antigo marca o tempo.

Thomaz se senta, tamborilando os dedos na mesa.
— Quem são vocês?

Madm segura as mãos de Amada, olhando-a com ternura.
— Somos de outra realidade. Fomos enviados por Deus para auxiliar esta.

Thomaz solta um riso incrédulo.
— De outra realidade? — pergunta, coçando a barba.

Madm mantém o tom sereno.
— Se o senhor entende que anjos são mensageiros do Altíssimo, então sim. Mas somos humanos como o senhor.

O fazendeiro se inclina, curioso.
— E o que vieram fazer aqui?

Madm inspira fundo, a voz carregada de fervor:
— Existem incontáveis realidades paralelas, coexistindo neste mesmo universo. Em uma delas, o Mashiach efetuou seu julgamento primário e nos escolheu para vir a esta, com uma missão: trazer sua mensagem e proclamar o que vimos.

Thomaz apoia os cotovelos na mesa, pensativo.
— E vieram até mim?

Amada sorri, como quem revela um segredo.
— O Altíssimo o escolheu para nos receber. Há um propósito nisso.

Thomaz sorri, um lampejo de orgulho iluminando seu rosto endurecido.
— E como pretendem salvar nosso mundo, se nem podemos olhar para vocês?

Madm sorri de volta, com humildade.
— Não viemos salvar o mundo. Isso o Mashiach já fez — e fará novamente. Viemos apenas compartilhar o conhecimento e orientar segundo a lei de Deus.

Thomaz balança a cabeça, confuso, mas curioso.
— E como posso ajudar?

Madm hesita, então responde com franqueza:
— Chegamos sem nada. Nossas roupas são as mesmas da viagem. Ainda brilhamos — não sabemos por quanto tempo. Não temos documentos, nem lugar, nem data.

Thomaz solta um riso curto.
— Quer dizer que o rosto de vocês não vai brilhar pra sempre?

Amada, divertida, devolve:
— Não sabemos.

Nokram, reflexivo, explica:

— Assim como Mosheh, após ver a glória de Deus, não manteve o brilho eternamente, creio que o mesmo ocorrerá conosco.

Healer completa, sorrindo:
— Ou talvez dure alguns dias!

O fazendeiro recosta-se na cadeira.
— E se forem apenas ilusionistas? — provoca, meio sério, meio brincando.

Luk, sereno, encara-o.
— Não temos como provar. O senhor terá que crer — ou duvidar.

O silêncio se prolonga até Thomaz se levantar, batendo de leve na mesa.
— Pois bem! Fiquem conosco. Falem-me mais sobre esse Deus e… me abençoem.

Os enviados trocam olhares de alívio. Madm aperta a mão de Amada; Luk respira fundo; Menslike baixa os olhos, pensativo.
Lá fora, o vento muda de direção. O sol se esconde.
E, enquanto a noite cai sobre a fazenda Muller, a nova realidade começa — silenciosa, misteriosa e viva.

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