
Gotham — Iceberg Lounge.
Enquanto Madm fala na casa de William, em Ponta Porã, em Gotham a noite se aprofunda, pesada e úmida. Carmine Falcone dirige pelas ruas estreitas até estacionar seu Cadillac preto diante do Iceberg Lounge, uma boate gótica envolta por luzes verdes pulsantes que tremulam sobre a calçada como um aviso silencioso.
O prédio divide o quarteirão com o Iceberg Dinner, o restaurante onde estivera momentos antes.
As duas casas funcionam como duas faces de um mesmo império, conectadas pelos fundos:
O Dinner voltado para a rua principal, discreto e “respeitável”;
O Lounge voltado para a rua paralela, onde a verdadeira elite de Gotham se reúne.
Ambos pertencem ao mesmo dono e servem como pontos estratégicos da máfia, cada um com sua função.
Falcone desce do Cadillac com a postura de quem sabe que aquela quadra respira sob sua autoridade.
Fecha a porta do carro com calma, ajeita o terno impecável e avança com passos firmes — os passos de um homem que, aparentemente, não teme ninguém.
Ao entrar no saguão, a música grave do Lounge vibra como um coração sombrio.
Um homem baixo e corpulento o recebe — nariz adunco, monóculo no olho direito e uma bengala ornamentada apoiada com o cuidado de quem parece carregar uma antiga lesão na perna.
— Estão todos esperando o senhor, Dom Falcone. — Diz ele com um leve curvar de cabeça.
Falcone aperta a mão do homem com firmeza, o olhar tão pesado quanto calculado.
— Perdão pelo atraso, Cobblepot. Tive um contratempo com um jovem, mas nada que não esteja resolvido.
Cobblepot esboça um sorriso astuto.
— Jovens sempre acreditam que podem mexer no que não entendem.
Falcone não demonstra irritação.
Seu tom é grave, mas não hostil — uma mistura de frieza e algo que, visto de muito perto, poderia lembrar a sombra distante de preocupação.
— Cresceu cercado de tragédias, Oswald. Está perdido. E gente perdida costuma fazer besteira.
A frase soa como desprezo, mas há uma fissura silenciosa nela — um cuidado que Falcone mascara com palavras duras.
Ele não expõe afeto.
Ele o disfarça para proteger quem não pode ser visto como seu ponto de fraqueza.
Cobblepot ergue uma sobrancelha, atento, mas nada comenta.
Falcone ajeita o paletó, firme, recolhendo para si qualquer emoção que não deva escapar.
Cobblepot faz um gesto discreto para que ele o acompanhe.
Eles entram no salão principal, onde a música envolve tudo em ondas densas.
O Lounge está cheio — figurões da política, empresários, policiais discretos, criminosos de várias famílias.
Conversas sussurradas, olhares calculados, tensões invisíveis.
Falcone observa cada rosto, cada gesto, cada movimento — a precisão de um general que conhece seu campo de batalha.
Ele não bebe.
Ele não ri.
Ele apenas observa.
O homem ao seu lado se inclina e diz em voz baixa:
— A cidade está inquieta esta noite, Dom Falcone.
Falcone não responde.
Apenas segue adiante, avançando pelo coração da Iceberg Lounge, enquanto a noite de Gotham — viva, sombria e imprevisível — começa silenciosamente a mudar de forma.
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