Quinta, 11 de Junho de 2026

6.3. O questionamento de Carlisle

Escolhidos e Enviados 20

10/05/2026 às 07h40 Atualizada em 17/05/2026 às 09h32
Por: Luan Dutra Fonte: Por Markon Machado
Compartilhe:
6.3. O questionamento de Carlisle

Dourados, 1963, fina da manhã de quinta-feira, 3º Dia dos Escolhidos e Enviados na nova realidade – 3/1 no calendário da Bíblia.

 

 

Enquanto Gotham vivencia a morte do assassino de Thomas e Martha Wayne, em Dourados, a tranquilidade aparente da Clínica Cullen é cortada pelo zumbido constante dos equipamentos. O ambiente é limpo, quase asséptico — paredes brancas, cheiro de éter, instrumentos reluzindo sob a luz fria das lâmpadas cirúrgicas.

Carlisle Cullen, o médico de pele alva e semblante sereno, analisa os resultados dos exames de Ângela sobre a mesa. O som metálico do relógio de parede marca o tempo com precisão clínica.

Ele se inclina, observando atentamente cada detalhe das lâminas sob o microscópio. Os resultados o deixam em silêncio — e o silêncio, nele, é mais eloquente do que qualquer espanto.

— Não acredito… — murmura, por fim, com voz baixa e controlada. — Miguel Harker está realmente apaixonado pela jovem Letícia William. Curou sua cunhada e não deixou nenhum traço de DNA vampiro no sangue dela.

Ele se recosta na cadeira giratória, o olhar perdido por um instante no vidro do laboratório, onde o sol reflete uma luz dourada sobre o metal dos instrumentos.

— Será que os Volturi têm razão? E esse sentimento pode ser um problema para nós, vampiros? — Pensa em voz alta, sem emoção visível, apenas lógica e cálculo.

Em seguida, faz uma breve anotação em seu caderno de couro, de caligrafia precisa:

“Paciente humana, completamente estável. Sinais vitais normais. Nenhum resquício genético anômalo.”

Ele fecha o relatório, o tom sereno de quem formula uma hipótese científica:

— Até aqui, não tenho nada para acusá-lo.

Do lado de fora, o vento move as cortinas brancas. Naquele lugar de luz fria e controle absoluto, apenas a dúvida permanece, discreta, mas viva, como um sopro que não se deixa medir.

 

Residência de William em Ponta Porã, duas horas depois.

 

O sol do meio-dia aquece a cidade de Ponta Porã–MT. Na cozinha da casa de William, Letícia, com um avental amarrado à cintura e cabelos presos em um rabo de cavalo, mexe uma panela de feijão no fogão, o vapor sobe em espirais quentes.

Madm, Amada, Menslike, Nokram, Luk, Healer e Bebeto estão reunidos ao redor da mesa, observando com atenção. O silêncio é quebrado pelo som de talheres sendo alinhados, enquanto Let insiste:

— Vamos comer! O almoço está pronto, e não faz sentido esperar William e Ângela. Eles podem demorar em Dourados.

Nokram, cruzando os braços com firmeza, rebate com a voz cheia de convicção:

— Não comeremos até que William e Ângela retornem. É uma questão de respeito e união. Não vou ceder nisso.

Madm, sentado à cabeceira, ouve Nokram com um aceno silencioso, seus olhos refletem ponderação. Let suspira, mexendo o feijão com mais força, e insiste:

— Mas eles podem demorar horas! O Dr. Cullen é meticuloso, e os exames podem atrasar. Pelo menos comam um pão enquanto aguardamos.

Luk, com voz que esboça sua seriedade, intervém:

— Let, seu coração é bondoso, mas Nokram tem razão. Vamos esperar juntos.

Vencida pela unanimidade, Let apaga o fogo e se assenta, limpando as mãos no avental.

— Ok, vamos esperar! — Diz ela, com um leve sorriso de rendição.

Menslike, aproveitando a proximidade, senta-se ao lado dela e pergunta, curioso:

— Será que não tem nenhum médico em Ponta Porã? Por que o William tem que ir a Dourados?

Let, ajustando-se na cadeira, responde:

— Na verdade, o médico que sempre nos atendeu foi o Dr. Miguel Marcondes, mas ele assumiu uma vaga na Câmara Federal como deputado e quase não tem como atender. Além disso, o Dr. Cullen é especialista em doenças raras e muito famoso por isso. A Ângela está com leucemia…

Nokram a corrige, erguendo um dedo:

— Está, não! Estava! Deus a curou!

Let concorda, com um aceno respeitoso:

— Amém! Assim esperamos!

Amada, inclinando-se para frente, indaga:

— Você ainda tem dúvidas?

— Sim, mas tenho esperança de que vai dar tudo certo! Minha cunhadinha merece! — Responde Let, fazendo uma careta fofa que acelera o coração de Menslike.

Madm, notando a tensão, muda de assunto com suavidade:
— Então, Ponta Porã tem um deputado federal atualmente?

— Dois, na verdade! — Responde Let, animada.

— Dois? — Indaga Madm, surpreso.

— Sim, o Dr. Marcondes e o Dr. Rachid. — explica ela.

— Que máximo! — Comemora Madm, com os olhos brilhando de interesse.

Let aproveita a deixa e continua:

— Mas meu irmão é eleitor do Dr. Marcondes, que é do PTB. O Dr. Rachid foi prefeito instituído pelo ex-presidente Vargas durante o território de Ponta Porã, quando eu nasci, mas depois disso, ele já foi para a UDN e hoje está no PSD.

Madm, intrigado, pergunta:

— E William não gosta dele por essas trocas de partido?

Let limpa a garganta e explica:

— Na verdade, ele acha que o PSD é um partido governista de direita. Na visão dele, a UDN é o remanescente do Integralismo e o PTB é um partido de esquerda, que valoriza os direitos do trabalhador. Logo, meu irmão é minoria na polícia hoje, mas ele acha que o Dr. Rachid é um conservador de direita, muçulmano que finge ser cristão por conveniência e um conservador que deixou a UDN por conveniência, para ser eleito no PSD.

— Entendi. — Comenta Madm, pensativo. — E quanto ao Thomaz Muller, por que William não gosta dele?

Let hesita, ajustando o tom:

— Então, como acho que vocês já perceberam, meu irmão é fã do Vargas. Ele entende que Vargas, na década de 30, livrou o Brasil do comunismo e, na década de 40, colocou o Brasil no bloco que combateu o fascismo. Ele veio para cá na década de 40, quando Ponta Porã se tornou um território federal. O Muller veio para essa região junto com seu pai, Heinz Muller, e dizem que o Sr. Heinz era nazista e participou da guerra, vindo para cá depois da guerra.

— Caramba? Muller é nazista, então? — Indaga Healer, com os olhos arregalados.

— Não disse isso, mas meu irmão pensa que ele não foge muito disso e tem um fato curioso. Muller foi um dos responsáveis pela saída do Dr. Rachid da UDN, pois ele queria que Rachid fosse mais extremista em seus posicionamentos. Rachid foi pro PSD desta forma.

A conversa é interrompida pelo ronco distante de uma caminhonete, indicando o retorno de William. Todos se levantam, ansiosos, e correm para a porta. William entra apressadamente, com o rosto iluminado por emoção, e se prostra diante de Madm, com a voz cheia de gratidão.

— Não sei quem é você! Não sei o que se está fazendo aqui e o que quer, mas aqui você tem um escravo, alguém que estaria sozinho em breve, mas você, ó, grandioso forasteiro, devolveu-me a alegria de ver, com alívio, a minha companheira! — Ele tira o bilhete da loteria federal do bolso e conclui: — E agora, estamos ricos!

Madm, surpreso, pega o braço de William e o levanta, dizendo:

— Não faça isso, sou apenas um homem como você!

— Que homem pode curar doenças que levam à morte? Que homem faz isso por quem eu amo? Que homem pode prever qual bilhete premiado está disponível na lotérica e nos fazer ricos? Este homem, eu reverenciarei por toda minha vida! — Insiste William, com os olhos brilhando.

— Um homem enviado por Deus! — Diz Amada, sorrindo.

Madm sorri, mas indaga ansioso:

— Como foi no médico?

Ângela entra no recinto, seu rosto banhado por lágrimas de emoção, e anuncia:

— Estou verdadeiramente curada! O Dr. Cullen não conseguiu explicar o que ocorreu, mas minha coluna vertebral se recuperou de forma estranha e injustificável!

O rosto de Let se ilumina com alegria, enquanto Madm afirma, com a voz cheia de propósito:

— Foi para isso que fui enviado para este lugar e esta realidade!

— Por favor, fique conosco. Não sei quais são seus planos, mas permita-nos te acompanhar onde quer que você for. — Pede William, com um tom suplicante.

— Será uma honra! — responde Madm, bastante sorridente.

— Vou convidar os vizinhos e os companheiros de corporação mais próximos para celebrarmos hoje com um churrasco. Hoje é dia de festa! — Diz William, vibrando de felicidade.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Lenium - Criar site de notícias