Quinta, 11 de Junho de 2026

4.4. A ira de Muller

Arco - Escolhidos e Enviados 18

28/04/2026 às 15h34 Atualizada em 17/05/2026 às 09h27
Por: Luan Dutra Fonte: Por Markon Machado
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4.4. A ira de Muller

Fazenda de Thomaz Muller.

 

O crepúsculo mergulha a fazenda em sombras compridas. A luz laranja do fim do dia atravessa as venezianas do escritório, riscando a mesa de madeira pesada com faixas de brilho e escuridão, como barras de uma cela que prende um homem dentro do próprio orgulho.

Thomaz Muller permanece sentado em sua cadeira de couro grosso. Ele não repousa — ele vigia. O corpo está parado, mas sua mente ferve. A mão tamborila no braço da poltrona como galo pronto para briga. O cheiro do cigarro apagado ainda flutua no ar, impregnado nas paredes e na pele.

A porta se abre devagar. Duck entra. Seus passos são firmes, mas há uma hesitação quase imperceptível no momento em que encara o patrão — como quem anda sobre gelo fino.

Duck limpa a garganta antes de falar, tentando manter a compostura.

— Senhor, parece que o William conhecia aquele pessoal. Ele os levou para sua casa. Segundo o delegado Morales, eles eram amigos da sua irmã na Inglaterra.

O olhar de Thomaz endurece, as veias das têmporas saltam levemente. Ele se levanta num movimento brusco, arrastando a cadeira no chão como um rugido.

Kilba passa pela porta naquele instante, carregando um pano e uma bandeja. Assim que Thomaz a vê, sua fúria encontra alvo.

Ele dispara, com voz dura como estalo de chicote:

— E aí? Ainda acha que aqueles farsantes eram anjos de Deus? Será que Deus os enviou para a Inglaterra em associação com William, antes de os enviar a nós?

A frase ecoa no corredor.- Kilba para. As mãos apertam o pano com força.O peito sobe e desce devagar, controlando a emoção.Ela não ousa erguer os olhos. O silêncio dela não é medo — é reverência ferida, é esperança prensada pelo domínio de um homem que se acha dono da verdade. Seu olhar cai para o chão. A respiração prende. Mas um lampejo passa em seus olhos — como se lá dentro, algo dissesse: o senhor está equivocado, Sr. Muller.

Duck observa a cena em silêncio, o maxilar travado. Entre lealdade e dúvida, seus olhos oscilam. Ele não diz nada — e isso diz muito.

Pela janela, um boi muge ao longe. Um vento seco bate na parede da casa, e folhas estalam lá fora.

Não há gritos depois disso.
Somente a raiva de Thomaz respirando fundo, a dúvida silenciosa de Kilba, a tensão crescente no ar — tão densa que parece prenunciar tempestade.

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