
A sala de refeições pulsa com vida. A mesa longa está repleta: pão caseiro, frutas frescas, leite quente, café forte, queijo branco. A luz da manhã atravessa a janela de madeira, enquanto o cheiro de fogão a lenha abraça o ambiente.
Bebeto balança as pernas no banco alto, mordendo um pedaço de mamão com entusiasmo. Seu olhar corre por tudo — cada detalhe é novidade, cada gesto humano é matéria de descoberta.
Ao redor dele, o grupo conversa com simplicidade, porém com reverência ao instante.
Nokram se inclina um pouco sobre a mesa, as mãos unidas, voz pausada e segura:
— Assim, Deus estabelece a shabat, uma parada no sétimo dia, pois para sua criação neste dia.
Ele fala como quem ensina algo eterno, não uma opinião — e isso se sente no ar.
Madm e Amada chegam à mesa, cumprimentando a todos com um “bom dia” sereno. As pessoas respondem meio tímidas, meio fascinadas. O brilho nos rostos desapareceu, mas o mistério não.
Faustão, já com sua Bíblia em mãos, afirma com convicção, levantando levemente o queixo:
— Mas isso é no Velho Testamento. No Novo, Jesus trabalha no sábado, ou shabat como vocês dizem, e confronta os religiosos.
Há firmeza na voz, mas também certa insegurança que transparece quando ele muda o peso de uma perna para outra.
Nokram responde sem erguer o tom, apenas inclinando ligeiramente a cabeça, como quem conduz pacientemente:
— Verdade. Yeshua cura na shabat. Mas não para quebrar a lei. Ele mostra que a shabat é para um dia de se fazer o bem. A Torá — Lei de Deus — é eterna. O Mashiach não a anula, ele a cumpre perfeitamente.
Faustão franze a testa e segura a Bíblia com mais força, como quem protege uma convicção:
— Mas a Igreja ensina que o domingo é o dia do Senhor. O Novo Shabat.
Healer, preciso, direto, sem hesitar:
— A Igreja Católica muda isso. Mas a Escritura não muda. A shabat é o sétimo dia. Sempre foi.
Sua fala não tem agressividade, apenas exatidão.
Kilba, cortando um pedaço de pão, observa com olhos curiosos, fascinados:
— E vocês… vocês vivem isso mesmo?
Os olhos de Menslike brilham. Ele sorri com sutileza e interesse — e talvez com um charme natural.
— Vivemos. A Bíblia nos ensina a guardar a shabat como sinal de lealdade ao Eterno.
Aparício, encostado no batente da porta com os braços cruzados, resmunga, zombeteiro:
— Religião é tudo igual. Conversa para controlar gente.
Faustão reage imediatamente, inflando o peito, como um soldado da fé:
— Não é controle. É a verdade! Jesus ressuscita no domingo, por isso celebramos no domingo!
Nokram, com voz firme e postura tranquila, rebate:
— Yeshua ressuscita, sim. Mas isso não muda o mandamento do Pai. A shabat é separada antes mesmo do pecado. É aliança eterna.
Governanta, enxugando as mãos no avental, entra na conversa curiosamente:
— Mas o sétimo dia não é o domingo?
Luk, calmo como sempre, olhando para ela com respeito:
— Não, senhora. O sétimo dia é o sábado. Domingo é o primeiro dia da semana. Ser fiel a isso vai além de religião — é obedecer ao Criador.
Healer completa com precisão cirúrgica:
— A Bíblia deixa claro: a noite e a manhã formam o dia. A shabat começa no pôr do sol de sexta e termina no pôr do sol do sábado.
Kilba franze o cenho, surpresa sincera:
— Eu sempre achei que o dia começava quando o sol nasce…
Duck, mastigando devagar, bate levemente o garfo no prato:
— Independente do que digam, o dia começa quando o sol nasce!
Há risos leves. Não de zombaria — mas de espanto pela diversidade de crenças.
Kilba, curiosa, agora com um sanduíche de presunto na mão, pergunta:
— Vocês também não comem carne de porco, né?
Nokram, direto:
— Não. Alguns animais não são considerados alimento.
Menslike, com olhar suave para ela:
— E podemos te ensinar, se você quiser.
Healer ergue a sobrancelha, firme:
— Com calma, meu sobrinho. Primeiro, ela precisa desejar compreender a vontade do Eterno — não agradar a nós.
Faustão protesta de novo — a paixão por sua religião tensiona o peito.
— Mas Jesus nos libertou de todo jugo da lei!
Luk respira fundo, voz serena:
— Liberdade não é licença pra desobedecer. A Torá é perfeita. Ele cumpre — Ele não revoga.
Bebeto, sorrindo, erguendo o pão:
— Shabat é legal!
A mesa explode em riso — mesmo os desconfortáveis relaxam por um instante.
O mundo é novo, mas o humor ainda é verdade.
A conversa flui e Kilba retorna a um assunto pautado antes de Madm chegar.
— Então, para vocês, hoje é o segundo dia do ano?
Nokram reitera:
— Sim. Nas escrituras, mais precisamente no livro conhecido como Êxodo, o Criador estabeleceu um calendário. Os meses começam com a lua nova, e cada início é tempo de celebrarmos ao verdadeiro Deus.
Madm, entrando na conversa, indaga:
— Que dia é hoje?
Duck responde:
— Quarta-feira, 27 de março de 1963.
Nokram traduz:
— Ou seja, pelo calendário da Bíblia, 2º dia do primeiro mês do ano.
A governanta, confusa, indaga:
— E vocês queriam saber que dia da semana era ontem para localizar o sétimo dia?
— Isso! — confirma Nokram, sorrindo.
Enquanto o café da manhã prossegue, e todos dialogam sobre diversos assuntos, confrontando seus conceitos religiosos e culturais.
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