
O clima muda. Algo na atmosfera da sala se recolhe — como se uma sombra de tensão deslizando pela madeira e pelo ar quente avisasse que o momento lúdico terminou.
Lá fora, passos pesam no assoalho da varanda.
Sussurros. Respirações contidas.
Aparício se inclina para fora da porta, passando a mão no bigode, preocupado — a postura de alguém que vê um temporal se aproximando e não sabe se corre ou encara:
— Acho que eles são golpistas… o brilho sumiu. — Sua voz sai baixa, tensa, mas o suficiente para ecoar no ambiente emocional.
A figura de Thomaz Muller surge no batente da porta. O silêncio cai como uma lâmina.
Ele entra com os ombros largos firmes, a autoridade natural de quem manda naquele pedaço de terra desde antes de muitos ali nascerem.
Ele observa o grupo com olhos semicerrados — o olhar de um homem acostumado a medir homens, bois e perigos na mesma régua.
Faustão encara Madm com firmeza renovada. A sala inteira prende a respiração. O debate teológico que antes era mesa… agora vira fronteira.
A voz do pastor surge primeiro, quase como quem busca reforço:
— Jesus é Deus! Ele ressuscitou no domingo, isso muda tudo.
Madm respira fundo, não para responder com raiva, mas para domar o peso da verdade dentro de si. A postura dele permanece tranquila. A paz não é passividade — é autoridade calma.
Ele responde com serenidade que corta como lâmina limpa:
— O Mashiach ressuscita, sim. Mas o Altíssimo não muda. Sua lei é eterna.
O ar parece vibrar diante da resposta.
Thomaz estreita os olhos e questiona.
— Então vocês também não creem que Jesus é o Deus Filho?
Madm, com calma, responde:
— Só existe um Deus. Yeshua, o Mashiach, é o ungido para ser rei, o filho de Deus, não um deus filho.
Thomaz Muller, interrompendo com indignação, grita:
— Isso é uma heresia! A Santa e Madre Igreja nos ensina desde sempre que Deus é uma trindade — Pai, Filho e Espírito Santo. Como ousam comentar blasfêmias com meus funcionários?
Os colaboradores da fazenda se calam, levantando-se para retornar aos afazeres, exceto Kilba, que permanece com olhos fixos no grupo, em especial, em Menslike. Amada olha para Madm, que não se cala:
— Felizmente, pudemos ver o Mashiach de perto. Não somos nós, aptos para falar sobre o Deus Criador e o Mashiach que para cá nos enviou?
Thomaz se dirige a eles com voz firme:
— Talvez, mas vivemos uma fé católica, e vocês são estranhos. Criticar nossa Igreja em minha propriedade é uma ofensa para mim.
— Não quis criticar sua igreja, apenas pontuei as discrepâncias entre os ensinos da Igreja Católica e a verdade das escrituras. — Rebate Madm, mantendo a compostura.
Thomaz, irritado, pergunta:
— Escutem aqui: vocês foram bem recebidos?
— Fomos! — responde Madm.
— Falta algo a vocês? — insiste o fazendeiro.
— Não! — diz Madm, firme.
— Então, custa respeitar minha propriedade e atender meu pedido? — Indaga Thomaz, os olhos duros.
Percebendo a tensão, Amada antecipa com diplomacia:
— Queremos agradecer à hospitalidade e pedir, se algum dos seus colaboradores pode nos levar para a cidade.
Thomaz cruza os braços. O lenço ainda está no bolso, resquício do milagre que quase o cegou no dia anterior.
— E agora querem ir pra cidade?
Madm:
— Sim. Precisamos entender esta realidade.
Thomaz o interrompe, direto:
— E o povo da cidade vai olhar pra vocês… e acreditar? Vão achar que são profetas? Ou charlatões?
Healer, ponderado, entra com voz baixa mas firme:
— Temos que nos apresentar de forma correta. Faz parte da missão.
Menslike ajeita a roupa simples, e se levanta encarando um ponto no horizonte — já antecipando o mundo e suas estruturas humanas.
Nokram também se levanta, como quem sabe que confronto espiritual sempre chega cedo demais para quem serve ao Altíssimo.
Luk apenas observa Thomaz diretamente, sem medo, ombros firmes — guardião silencioso.
Então, Thomaz se dirige a eles, e diz, apontando o dedo para Madm, como quem o sentencia a uma condenação.
— Vou mandar um dos meus homens levar vocês à cidade. Vocês vão ficar numa das minhas casas até se ajeitarem. Enquanto estiverem sob meu teto… ninguém encostará um dedo em vocês.
.Amada sorri com gratidão.
Madm inclina a cabeça, respeitoso, mas sem submissão:
Thomaz vira as costas e sai. A porta range.
O silêncio é preenchido pelo bater de um garfo contra um prato, o canto de um passarinho, o sopro brando de vento entrando pela janela.
O grupo troca olhares.
Não de medo — mas de entendimento:
A missão começou de verdade.
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