
Fazenda de Thomaz Muller.
Nesse ínterim, na fazenda Muller, o ar vibra quente e silencioso, interrompido apenas pelo som distante de gado e o canto abafado de cigarras. O mundo parece em pausa, como se soubesse que algo está prestes a se mover.
Na varanda ampla, Kilba varre o chão de madeira com calma. Seus movimentos são leves, quase meditativos, como se a poeira fosse uma oração silenciosa. Há serenidade em seu rosto — aquela paz de quem, mesmo sem entender o sagrado, consegue senti-lo.
A porta se abre com força. Aparício entra, com sua expressão carregada, passos firmes e tensos, como se trouxesse um segredo quente demais nas mãos. Ele nem olha para os lados, vai direto em direção ao escritório.
— O Sr. Muller está? — Pergunta, sem cerimônia.
Kilba para, mão firme no cabo da vassoura.
— Está sim, Aparício. Lá dentro.
Aparício segue e bate duas vezes antes de entrar. A porta range. Thomaz está sentado à escrivaninha, a luz filtrada pela janela ilumina o rosto marcado pelo tempo e pela autoridade. Ele ergue os olhos, sério, estudando o capataz com curiosidade fria.
— E então? — Pergunta com voz controlada, como quem já espera um relatório delicado.
— Estão levando-os eles pra cidade… — Aparício diz, pesaroso, mas com tensão mal disfarçada.
— Hum. — Thomaz tamborila os dedos na mesa, pensativo, os olhos estreitam-se.
Aparício hesita por alguns segundos e então fala:
— O Capitão William, como o senhor previu, mandou levá-los para a delegacia. Thomaz sorri de leve, um sorriso calculado, meio sombra, meio satisfação.
— Fez bem. Agora veremos quem eles são de verdade.
O silêncio que segue é pesado. Não existe vento. Nem cigarra. Nem gado.
Kilba adentro o escritório, e Thomaz afirma com o tom carregado de irritação:
— Ouvi falar que você estava dando moral para aqueles caras!
Kilba, com os olhos brilhando de convicção, rebate:
— Aqueles moços são anjos, o senhor não viu como seus rostos brilhavam?
Thomaz, batendo a mesa, retruca:
— São mágicos, fizeram algum truque. Você acha que alguém que sirva a Deus fala contra a Igreja como eles falaram?
Kilba se cala, o silêncio pesa no ar. Thomaz se levanta, aproximando-se dela com passos lentos. Ele toca seu ombro, deslizando a mão até o braço, e a puxa suavemente para si. Seus lábios encontram os dela em um beijo, carregado de uma mistura de autoridade e desejo. O beijo é interrompido pelo barulho da camionete de Aparício, retornando à fazenda, com o motor ecoando como um trovão, deixando o local.
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