
MT-164.
O sol de Ponta Porã arde alto, derramando calor sobre o asfalto e sobre o capô quente da viatura da Polícia Militar dirigida pelo capitão William. A luz vibra contra o vidro, e o ar dentro do carro parece denso, eletrizado. William dirige em silêncio, o olhar duro fixo na estrada. Madm e Amada sentam atrás, com Menslike ao lado do capitão e Nokram próximo, todos em silêncio respeitoso. O motor ronca grave, e a poeira que sobe atrás das rodas parece um véu suspenso, dividindo dois mundos.
William ajusta o retrovisor, encarando-os com desconfiança.
— Me conte mais sobre vocês. Como conheceram o Sr. Muller?
Madm hesita por um breve segundo, olhando para Amada antes de responder, calmo e sincero:
— Se eu te falar a verdade, o senhor vai me achar louco.
William não desvia os olhos da estrada.
— Diz aí. — Ele solta, com ironia contida e um toque de provocação.
Madm mantém o olhar firme, respeitoso — mas irrefutável.
— O senhor me permite pegar algo em minha mochila?
William endurece o semblante. Um pensamento rápido cruza sua mente — quase visível no modo como sua mão se aproxima da arma no coldre:
“Que vacilo o meu… nem revisei a mochila dele.”
Ele sinaliza com o queixo e um gesto firme da mão livre.
— Mostre!
Madm abre a mochila devagar, com cautela reverente. Seus dedos encontram o Cristal do Conhecimento. O objeto esférico é segurado por eleparece respirar luz própria, discreta, mas viva. Ele o segura com delicadeza, como quem segura destino e responsabilidade.
— Nós não conhecemos perfeitamente o Sr. Muller. Não somos daqui — somos de outra realidade. Fomos enviados pelo Mashiach para mudarmos a história deste povo.
A frase desliza pelo ar como aço. William arregala os olhos — e ri, seca e brevemente, tentando dominar o incômodo que passa pelos músculos do rosto.
— Eu quero te ajudar, mas se você continuar sendo sarcástico e irônico comigo, certamente eu vou ser o primeiro a querer ferrar com sua situação ao passar o seu caso para o delegado.
Madm não altera o tom, nem reage com orgulho. Apenas ergue o cristal, oferecendo-o com serenidade.
— Pegue. Faça qualquer pergunta ao cristal, tocando nele. Qualquer coisa sobre mim ou sobre o mundo.
William franze os olhos, cético. Mas a mão dele não hesita totalmente — ela pesa, entre medo e necessidade de controle. Ele ergue o braço e gesticula para a viatura atrás desacelerar. O comboio para. Poeira sobe, lenta, rodopiando no calor.
Na segunda viatura, Bebeto se inquieta, com o rosto colado ao vidro.
— O que ocorreu?
Anderson, ao volante, mantém a calma profissional:
— Fiquem tranquilos, o Capitão solicitou que parássemos. Nada grave.
Swan, com postura militar séria, pergunta:
— Quer que eu desça?
— Vamos aguardar a orientação do Capitão. — Anderson responde, firme, com olhos firmes, observando o que ocorre à frente.
William pega o cristal. Ele sente o frio do objeto, como se estivesse segurando gelo polido. Há um brilho leve, quase imperceptível. Ele fala baixo, mas com ameaça clara:
— Se você estiver de brincadeira, eu não medirei esforços para te ferrar. E tenha certeza de que nada que Thomaz Muller fizer vai aliviar para você.
Madm continua com a mesma paz inabalável.
— Faça apenas o que sugeri.
Nokram completa com voz firme e presença espiritual que pesa mais do que o sol:
— Confie em nós, capitão.
William respira. Seus ombros endurecem. O dedo se fecha mais forte no cristal.
Ele pergunta:
— Quem é este casal que aqui está?
A visão vem como uma onda.
O rosto dele trava. O queixo aperta. Pupilas dilatam. Ele pisca com força — várias vezes.
Na mente dele, o mundo se rasga:
Madm e Amada, idosos, respirando com esforço, fugindo na noite. Autoridades em túnicas escuras. Passos. Vozes. Desespero. Um clarão no céu. Corpos brilhantes. Glória que não pertence à Terra. Julgamento. Terra abrindo, água rugindo. Cantos celestiais. E então — rejuvenescimento. Luz viva. Eternidade tocando a carne.
William larga o cristal como se queimasse.
Ele cai aos pés de Nokram, que geme:
— Ai!
William leva as mãos aos olhos. Vermelhos. Lacrimejando. Cego por um instante que parece eterno.
— Ninguém foge! — Ele grita, com voz que treme entre medo e autoridade — Todos parados, senão eu atiro!
Madm, calmo como água de fonte, inclina-se um pouco. Ele toca os olhos de William com o polegar e o dedo médio. Um gesto simples. Mas a tensão nos ombros do capitão se dissolve. A respiração muda. Ele enxerga.
William engole seco, os olhos ainda marejados, voz baixa, quase infantil:
— O que vocês fizeram?
Madm, sem pressa, pergunta apenas:
— O que viu?
William responde com a alma ainda tremendo:
— Vi vocês fugindo das autoridades… mas vocês eram idosos.
Madm, suave:
— Só isso?
William respira como quem tenta voltar ao próprio corpo.
— Também vi vocês diante de seres iluminados… rejuvenescidos… em outro lugar. Outro… planeta, sei lá. E eu… eu acho que fiquei cego por alguns segundos.
Amada, com serenidade que corta a realidade como ouro puro:
— O que o senhor viu foi a experiência que vivenciamos com o Mashiach, quando o mensageiro deste nos enviou para cá.
Nokram acrescenta, massageando o pé onde o cristal caiu:
— Quando vemos seres celestiais em sua forma cheia de luz, podemos morrer ou perder a visão. Nosso corpo não está apto a ver a glória do Altíssimo, mesmo quando esta toca seres menores como nós.
William tenta recuperar controle:
— Como posso saber se isso é verdade?
Madm pega o cristal de volta. Apenas segura e diz:
— Peça para perguntar qualquer coisa. Algo que só o senhor saiba.
William pensa e exige:
— Pergunte ao cristal os nomes dos meus filhos.
Madm pergunta. Nada.
Ele tenta de novo. Nada.
William sorri cínico — até perceber que o riso é defesa, não certeza.
Amada observa, então diz, certeira:
— Provavelmente é porque ele não tem filhos. O senhor deve perguntar algo que só o senhor saiba, e que ninguém mais saberia responder.
William encara Amada. O respeito nasce junto com o medo.
— Inteligente, a sua esposa.
Ele respira fundo e tenta outra:
— Como eu conheci minha esposa?
Madm segura o cristal. A resposta vem. Ele descreve.
E o rosto de William se abre em choque puro.
— Que diabo de mágicos são vocês?
Amada não treme:
— Não somos mágicos. Estamos dizendo a verdade.
Menslike, inclinado, com voz sem temor:
— Se o senhor não acreditar, nos leve à delegacia e inventaremos várias mentiras. Ao senhor e ao Sr. Thomaz Muller, falamos a verdade. Mas parece que a verdade incomoda.
William aperta os olhos. Respira fundo. Luta com algo dentro dele.
— Eu vou pedir para você encher este amuleto de perguntas. Me diga até os números da loteria.
Madm, com um leve sorriso:
— Tudo que o senhor exigir.
O ar fica pesado. Alguma coisa mudou no mundo, ainda que o motor esteja desligado e o sol continue queimando igual.
Mín. 15° Máx. 22°