
Casa de William em Ponta Porã.
Algum tempo depois, a viatura da polícia militar guiada por William se aproxima de uma bela casa e estaciona em frente à mesma. O som do motor cessa, mas o calor e a poeira da estrada parecem entrar junto deles. Madm, Amada, Menslike e Nokram descem com William.
A porta da casa se abre e uma mulher sai correndo, com um pano amarrado na cabeça — o lenço cobre não apenas o couro cabeludo frágil, mas uma dignidade segurada com força. Ela abraça o capitão, quase se pendurando nele, e diz:
— Amor! Veio mais cedo, hoje?
— Sim, e trouxe convidados. — Responde William.
Amada percebe imediatamente a simplicidade das roupas, a pele suave e pálida, e a cabeça quase sem cabelos protegida pelo lenço. É como ver uma flor cuidada com amor tentando resistir ao vento do deserto. Ela não segura a pergunta:
— Essa é sua esposa?
Os olhos de William lacrimejam, a voz embarga — só por um momento — e ele responde, com a dor que só quem ama profundamente consegue carregar:
— Sim! Como eu disse, ela tem leucemia, estamos lutando contra esta doença, mas creio que a Ângela vencerá essa doença em breve.
Ele beija a testa dela com devoção.
— Você vencerá, não é mesmo, amor?
Madm se comove com o olhar apaixonado do capitão — aquele tipo raro de amor que não precisa de prova — e sorri de leve:
— Certamente vencerá, capitão.
William prossegue, meio confissão, meio desabafo de homem que carrega o mundo:
— O tratamento adequado não pode ser pago com o salário de policial.
Madm respira fundo, como se já soubesse o peso dessa dor.
— Existem coisas que o dinheiro não pode comprar, porém a misericórdia de Deus, hoje, chegou à sua casa. A partir de hoje, seus sofrimentos diminuirão.
— Como você está se sentindo hoje, meu amor? — Pergunta William.
— Estou com as dores de sempre, mas estou bem. — Responde a mulher de bandana, com a voz doce e cansada.
Madm se aproxima com respeito. Coloca as mãos nos ombros dela. Ela estranha, os músculos endurecem e o olhar dela lança uma dúvida agressiva — até ver o sinal positivo de William. Ela respira. Relaxa.
— Pode ir ao médico consultar-se, nenhum mal te atinge agora! — Diz Madm.
Por um momento, nada acontece.
Então, algo simples — quase indetectável:
Ângela inspira devagar… e o peito dela desce sem dor. A mão que segurava o lenço relaxa. Seus olhos piscam, confusos. A testa enruga. Ela leva discretamente a mão ao abdômen, ao peito, à região das costas — procurando a dor que sumiu.
— Como está se sentindo? — Pergunta Amada.
Ângela fala, ainda surpresa com o próprio corpo obedecendo:
— Então… aparentemente, minhas dores sumiram.
— Você está curada! — Diz Amada, sorrindo como quem já sabia.
Uma jovem morena clara sai da casa. Vê o grupo reunido e pergunta:
— Está tudo bem?
Menslike a vê — e o tempo muda para ele. O coração acelera, quase como um aviso. Ele não entende, só sente — como se o destino soprasse antes de se revelar.
William apresenta:
— Madm, Amada, Nokram, Menslike, esta é minha irmã, Letícia.
A jovem sorri com a segurança simples de quem nasceu com tons femininos apaixonantes.
— Prazer, Let.
Amada e Madm acenam. Menslike, sem nem pensar, inclina-se e beija a mão dela. O gesto é antigo, fora do tempo — e todos sentem o impacto silencioso no ar. Let pisca, surpresa e ruborizada. Há desconforto, sim — mas também curiosidade e graça.
Ângela quebra o momento:
— Perdão, eu não me apresentei ainda, meu nome é Ângela.
— Seu esposo disse tudo sobre você, Ângela. — Comenta Amada, e conclui: — E sobre você também, Let.
Let olha para o irmão:
— Meu irmão? Quem são vocês?
— São enviados de Deus que vieram nos abençoar, Let. — Responde William.
— Meu esposo curou sua cunhada. — diz Amada, feliz.
Let encara Madm, ainda racional:
— Você a curou?
Madm apenas diz:
— Seu irmão irá hoje à tarde ao médico fazer uns exames para obtermos respostas precisas.
A família os convida para entrar. O ambiente é simples, humilde, cheio de amor. Ângela serve pães, leite e chá para o grupo, enquanto Let ajuda a preparar o almoço.
O grupo come com reverência e fome.
Eles contam sua missão.
— Fomos ricos, pobres, vimos o mundo acabar, o Mashiach nos salvar e, por fim, para cá nos enviar. — Diz Madm.
Let ri:
— Até rimou.
— Meu esposo é um poeta! — Diz, Amada, beijando o rosto dele.
— Meu pai é minha inspiração! — Diz Menslike.
William observa. Apreensivo. Mudado. Metade convertido, metade inquieto.
Let pergunta:
— Quais são seus poderes?
Nokram responde firme:
— Não temos poderes. Todo poder pertence ao Altíssimo.
Madm explica com calma eterna:
— Quando nos enviou, Peniel, o mensageiro de Deus, disse que eu poderia curar as pessoas e atenuar ou eliminar os efeitos diretos do pecado…
Amada completa:
— … Morte, envelhecimento, doenças…
Let arregala os olhos.
— Abrir a boca de animais? — Pergunta ela, quase rindo.
Amada confirma, serena.
William fala, vulnerável:
— Hoje eu fiquei cego por alguns segundos… e fui curado.
Let fica muda.
— O almoço está pronto. — Diz ela.
Amada olha para William:
— Não podemos comer sem meus cunhados e meu sobrinho.
William se lembra dos outros.
MT-164, momentos antes.
— Vou levá-los à minha casa — diz William — levem o menino e os outros dois à delegacia até minha chegada.
Agora:
William se levanta.
— Podem almoçar, vou buscar os meninos.
Ele sai.
E o ar, que estava pesado, agora parece esperar o desfecho inevitável que se aproxima.
Mín. 14° Máx. 21°