
Delegacia de Polícia de Ponta Porã.
O relógio na parede marca o tempo com um tique seco e constante, fazendo o silêncio parecer ainda mais pesado. O ar tem cheiro de café requentado e tinta velha, misturado ao suor discreto de quem vive tensão diária. Ventiladores rangem no teto, mas pouco ajudam contra o calor abafado.
Luk e Healer dividem o mesmo banco de madeira, os dedos inquietos; unhas sendo devoradas como se isso pudesse diminuir a angústia. Bebeto balança as pernas, tentando parecer forte, mas a mão pequena treme apoiada no joelho.
— Não é melhor fugirmos? Vai saber para onde levaram o tio, Amada e meus primos? — Pergunta, Bebeto, com a voz quase quebrando a coragem que tenta sustentar.
Luk respira fundo, forçando serenidade, o peito subindo devagar, como quem luta contra o medo para dar exemplo.
— Não! Não estamos sendo perseguidos, vamos confiar em Deus e aguardar o Madm.
Healer coça a juba black power, engole seco, seus olhos alternam entre a porta de vidro fosco e os dois policiais mais à frente.
— E se agredirem eles? — Murmura, com o rosto tenso.
— Deus os protegerá. Vamos aguardar! — Insiste, Luk, tentando manter firmeza, embora a voz denuncie o esforço.
Do outro lado do balcão, Anderson e Swan conversam com o delegado Morales. Eles falam baixo, mas o eco da sala carrega cada palavra.
— Pois é, delegado Morales, foi algo estranho. Primeiro, o capitão William pediu para os trazermos para cá, mas depois decidiu levá-los para sua casa, afirmando que sua irmã conhecia os meliantes. — Afirma Swan, cruzando os braços, expondo sua expressão confusa, porém respeitosa.
Anderson concorda, com sua postura ereta como se prestasse continência à própria consciência:
— Independente disto, todos nós confiamos na lisura e honestidade do Capitão William!
Morales, homem de bigode grosso, uma barriga avantajada e olhar cansado de tantas histórias estranhas, tamborila o lápis na mesa. Ele suspira, pesado, como quem carrega o peso da cidade nos ombros.
— Verdade! Ninguém questiona a honestidade dele. Vamos aguardá-lo. — Conclui o delegado.
O silêncio toma conta do ambiente. Não há gritos, não há algemas batendo, nem violência. Só o tipo de espera que amplia a ansiedade no coração de cada presente.
Healer fecha os olhos, em oração suave sem palavras.
Luk força um sorriso que não chega ao olhar.
Bebeto abraça os joelhos, tentando caber em si mesmo.
E assim, naquele pequeno prédio quente, o mundo respira suspenso — como se o tempo segurasse o ar junto com eles, à espera de uma resposta do Alto.
Mín. 14° Máx. 21°