
Residência de William.
Após a saída de William, todos começam a almoçar, exceto Amada, que permanece com a postura alerta, temendo o rumo dos acontecimentos no ar.
O som dos talheres é tímido, quase respeitoso. Há uma tensão tranquila no ambiente, como se o ar, ainda quente, carregasse expectativa.
Let não aguenta a curiosidade que a corrói.
— Então, vocês realmente podem evitar a morte?
Madm responde firme, sem hesitar:
— Foi o que Deus nos disse que poderíamos fazer.
Let inclina o rosto, arqueando as sobrancelhas, testando cada palavra.
— Vocês ou você?
Menslike se inclina um pouco à frente, peito expandido, orgulho sincero vibrando:
— Nós somos um time! O que um de nós fizer, todos fazemos juntos!
Mas Nokram fala com a calma profunda de quem contempla o eterno:
— Nós acompanhamos nosso pai, Deus creditou a ele nos liderar e, por isso, ele recebeu todo o poder.
Let o encara de novo, franzindo o cenho, confusa com a dinâmica.
— Seu pai, você é mesmo o pai deles? Pois parece ter a mesma idade!
Nokram sorri com serenidade:
— Fomos rejuvenescidos pelo poder de Deus!
Menslike se anima, quase brilhando de entusiasmo juvenil:
— Viu! O poder de Deus atua em todos nós!
Amada segura a mão de Madm, com olhos de quem crê e celebra:
— Sim! Pois estamos sempre juntos. Deus escolheu dar grande poder ao meu esposo, mas este poder pertence a Deus e favorecerá todos nós!
Let dá um sorrisinho de canto, quase admirando sem admitir:
— Você é uma mulher de sorte!
Amada retribui com um sorriso doce e seguro, mas há firmeza nas palavras, na postura, no recato que equilibra tudo.
Ângela, percebendo o clima, intervém com bondade nervosa:
— William está demorando muito, não?
— Ele acabou de sair! — Let rebate, mexendo o pulso com um gesto impaciente.
O pano que cobre seu pulso chama a atenção de Madm, que observa com calma de profeta e compaixão humana.
— O que foi no seu braço? — Pergunta ele, voz suave, quase um cuidado natural.
Let pausa por meio segundo — o olhar endurece, o peito prende o ar — antes de responder:
— Eu tenho o pulso aberto.
Ela segura o pano instintivamente.
Madm estende a mão e toca o braço dela com reverência, e Let sente um arrepio subir do pulso até o ombro, como se um fio gelado e quente ao mesmo tempo corresse pela pele.
— Retire o pano de seu braço.
Ela recua sutilmente, ombros tensos.
— Eu não posso. Dói!
Amada se inclina levemente, olhos marejados de certeza:
— Você não crê que meu esposo possa te curar?
Let trava. O mundo fica abafado por um segundo.
“Se a mordida do Miguel aparecer, eu terei que dizer que isso foi resultado do toque desse cara… e se o poder dele não puder curar uma mordida sobrenatural? Vou precisar mentir?”
Ela fecha os olhos e relembra do que levou à tal ferida. Um ser com aparência de homem, com poucas vestes, respira próximo a seu pescoço, leva seu cabelo e morde sua nuca.
Let volta a si, mas relembra do mesmo ser, gentilmente se alimentando de seu sangue, curvando-se diante dela, mordendo seu pulso.
Ângela a traz de volta:
— Verdade, cunhada, se ele não te curar, saberemos que ele não tem poder.
Amada vira lentamente o rosto, olhar fixo, protetor:
— Está duvidando de meu marido?
— Não. — Ângela corrige-se, nervosa. — É que, se ele mostrar que curou minha cunhada, certamente ele confirmará que tem poder.
Let respira fundo — o ar entra trêmulo — e decide.
Ela desfaz o pano. Ele cai sobre o colo, leve como um segredo.
O pulso aparece — perfeito. Sem marca. Sem dor. Sem memória física do horror. Ela arregala os olhos. O ar engasga na garganta. A cadeira quase range quando ela se ergue ligeiramente, chocada — viva.
Madm pergunta, sereno como quem já sabe:
— Sente alguma dor?
— Não. O senhor me curou! — Let diz, quase num salto, a voz quebrando entre espanto e alívio.
Nokram, com firmeza de rocha:
— Deus te curou!
Let leva a mão ao peito, tentando segurar o coração que dispara:
— Eu creio no senhor! Eu creio no seu Deus! A dor sumiu!
Ângela observa a cunhada com olhos que começam a brilhar com esperança.
Uma lágrima quase nasce — mas ela só aperta o pano nas mãos e sorri pequeno, frágil e grato. Lá fora, o vento muda de direção suavemente.
Mín. 14° Máx. 21°