
Fazenda de Thomaz Muller.
O sol já desce, tingindo a fazenda com tons dourados e longas sombras que se estendem pelos campos. O calor do dia ainda repousa no ar, embora uma brisa tímida tente amenizar o peso do clima. A varanda cheira a madeira quente, suor antigo e poder de fazendeiro.
Thomaz Muller está recostado em sua cadeira de couro, olhar duro, como se o horizonte estivesse lhe devendo respostas. Aparício permanece de pé ao seu lado, postura rígida e reverência misturada com devoção cega.
— O William certamente vai descobrir quem são aqueles caras! Felizmente, um dia ele pode ser útil. — Diz Thomaz, sem desviar os olhos do campo, voz grave, cheia de autoridade que acredita ser destino.
Aparício, orgulhoso de estar ao lado do patrão, responde com convicção quase religiosa:
— O senhor fez bem em não confiar neles! Certamente são impostores!
Kilba entra silenciosa, equilibrando uma bandeja com copos suados de tereré. O som do gelo se mexendo quebra o ar estático. Ela serve sem ousar olhar diretamente para Thomaz, mas quando termina, dá meia-volta devagar, e sua cabeça balança, contrariada.
Faustão, sentado mais atrás, observa a cena com serenidade pastoral, mãos cruzadas sobre o joelho. Ele nota o gesto, ergue a cabeça e pergunta com suavidade:
— O que foi, linda?
Kilba respira fundo. Seus olhos parecem segurar um brilho de esperança e temor misturados. Ela segura a vassoura como se fosse um bastão e coragem ao mesmo tempo.
— Eu acho que o Sr. Muller acabou de rejeitar verdadeiros anjos de Deus, os espantando desta casa! — Diz ela, sem medo, voz sincera e ferida.
As palavras ficam suspensas no ar, como se até os insetos parassem de cantar. A brisa engasga na varanda.
Faustão coça a cabeça devagar, inquieto, e guarda silêncio. Não por covardia, mas por temor. Algo dentro dele sabe que o mundo mudou… e que talvez Deus tenha passado pela fazenda, e eles não reconheceram.
Uma nuvem escura passa diante do sol.
O ar esfria levemente.
E, por um instante, todos sentem — mesmo que não admitam — que a casa Muller ficou mais vazia.
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