
8. A reunião sombria
Ponta Porã, 1963 – Festa de William.
A noite segue festiva em Ponta Porã. O aroma de churrasco paira no ar, misturado ao som de risadas e conversas. Madm, de pé diante da multidão, segue seu discurso sobre as Escrituras Sagradas:
— Então, se no começo a humanidade pecou, quando duvidou de Deus e acreditou na Serpente… Yeshayahu — profeta que tem seu nome latinizado para Isaías — relata que, com Yeshua, todas as nossas dores e erros foram transferidos para Ele. Portanto, William, Ângela, amigos… hoje esta casa vivenciou um pouquinho do reino de Deus, um pouquinho do reino do Amanhã, um pouquinho da promessa expressa em Yeshayahu 53. A morte e a dor se extinguem quando tomamos posse dessa promessa; e, quando isso acontece, começamos a vivenciar milagres em nossas vidas.
No meio do povo, um homem de pele morena, cabelo curto e grisalho, vestido com um terno simples, grita:
— Glória a Deus!
Menslike, ao lado, sorri discretamente, e Let sussurra:
— Este é o Pastor Paulo. Pentecostal. Sempre dizia que minha irmã seria curada.
Paulo caminha até Madm, emocionado. A mão no peito, a voz firme:
— Irmão, seu sermão nos comove. — Ele olha rapidamente para William. — O irmão William é testemunha: Deus me revelou que Ângela seria curada! — A emoção cresce no timbre. — E hoje vimos o milagre acontecer diante de nós!
Ele se aproxima mais e conclui, com solenidade:
— Não apenas pela cura… mas porque Deus confirmou o que me mostrou antes mesmo de acontecer — como fazia com os profetas.
A atitude de Paulo gera murmúrios. Entre os presentes, um homem de meia-idade, com camisa branca engomada, rosário no pescoço e expressão severa, comenta:
— Esses evangélicos… nem respeitam o ritual dos seus irmãos.
Ao lado dele, João — de óculos redondos e postura calma — responde:
— Hey, irmão Pedro… eu sou batista. O Pastor Paulo é pentecostal. Cada tradição tem seu jeito.
Pedro franze o cenho:
— Você é meu amigo, João, mas não meu irmão. Meus irmãos são os da minha família. Não reconheço como irmãos religiosos dissidentes que negam a Santíssima e Imaculada Igreja Católica Apostólica Romana.
Enquanto isso, Carlisle e Esme Cullen se afastam discretamente. George Anderson aproxima-se, olhar desconfiado:
— Eu não sei qual é o jogo de vocês — diz em voz baixa. — Quando esses religiosos entraram na fazenda de Thomaz Muller, eu vi. E sei que o próprio Muller ligou para o sargento Refúgio pedindo para William interceptá-los na estrada. Algo nessa história fede… e não é só a carne.
Esme segura o olhar dele, analítica. George continua:
— Ângela foi curada, William foi abençoado, e vocês apareceram com esses homens. Se fizerem mal a ele, vão se ver comigo.
Esme responde com um sorriso frio, inclinando-se ligeiramente na direção dele:
— Nós não sabemos quem são esses homens. Carlisle não tem parte nisso. Mas você… — ela aproxima o rosto — tem cheiro de animal. Daqueles que deveriam estar na mata, não no meio de gente.
George estreita os olhos, controlando-se:
— Sou policial. E o que sou ou deixo de ser… não devo explicações a mortos-vivos que deveriam estar a sete palmos do chão.
Esme começa a responder, mas Carlisle toca seu braço — um gesto silencioso, firme.
— Discutir com ele não levará a nada. Precisamos descobrir quem realmente são esses religiosos… e qual o envolvimento de Miguel Harker e Drácula nisso tudo.
Poucos metros dali, Anderson percebe Charlie Swan olhando uma foto antiga em sua carteira — ele, mais jovem, abraçado a uma mulher bonita e uma garotinha.
George resmunga:
— Fecha isso. Elas estão nos Estados Unidos. Jamais voltarão para este fim de mundo.
Swan suspira:
— Se Deus curou uma mulher com leucemia… e presenteou o marido dela com o prêmio da loteria federal… por que Ele não poderia trazer minha família de volta?
Anderson rebate com dureza:
— Milagres não existem. Ela respondeu ao tratamento do Dr. Cullen. A ciência é limitada para provar o óbvio: milagres não existem.
O clima volta-se outra vez para Madm, quando William sobe sobre um pequeno degrau e pede silêncio com o gesto seguro de um capitão experiente.
— Quero agradecer ao Pastor Paulo… por suas palavras. — Ele respira, encara a multidão. — E agradeço também ao senhor Tony Madm, cujo conhecimento trouxe esperança para esta casa. Hoje vivemos algo do reino do céu.
William abre um sorriso sincero:
— Agora… convido todos a celebrar comigo. Vamos comer, conversar e alegrar nossos corações.
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