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Dream Life in Paris

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17. Yom Shabat, um dia separado para Deus 

17.1. O pecado. 

Residência de William, Ponta Porã — 30 de março de 1963. 

Manhã de shabat, 5º dia após a chegada dos Escolhidos e Enviados. 

O quintal de William está tomado por vozes, enquanto Menslike coordena o som no piano. O som do piano acompanha palmas e as vozes, em sua maioria de mulheres e crianças, cantando juntas, formando um coro único e coeso. 

A melodia é direta, quase insistente, repetida como quem martela uma verdade antiga: 

“Satanás ficou furioso, 

Quando falei em nome de Yeshua. 

Ele não suporta ouvir a verdade, 

É mentiroso e finge ter poder.” 

As vozes não são perfeitamente afinadas, mas são honestas. Há convicção. Alguns fecham os olhos, outros mantêm o olhar fixo no nada, como se enfrentassem algo invisível. 

Menslike toca corretamente, mas sua mente está distante. 

O som das vozes se dissolve para ele. 

Em seu íntimo, a lembrança do que vislumbrou através do cristal do conhecimento no dia anterior retorna com força. O peso frio em suas mãos. A sensação de atravessar camadas da realidade. As imagens que não pediram permissão para existir tomam conta de seu subconsciente. 

Seu rosto permanece sereno, mas por dentro, o pensamento se agita. 

“Por quê, senhor? 

Por quê, Deus Eterno? 

Por que o senhor permitiu — e ainda permite — que os planos do inimigo prosperem? 

Por que os shedim, os maus, os que desprezam o Seu nome, obtiveram êxito? 

Por que o Senhor permitiu que os demônios triunfassem no Jardim do Éden?” 

O acorde final ecoa mais tempo do que o esperado. 

E, como se a pergunta abrisse uma fenda no tempo, a realidade se dobra. 

Gan Éden. 

14º dia do 1º mês, 8º ano da criação. 

A luz no Gan Éden é suave, mas não ingênua. Ela toca as folhas largas das árvores, reflete na água cristalina dos rios e dança no ar como se cada partícula soubesse seu lugar. Tudo respira ordem. Tudo existe em equilíbrio. 

A Árvore do Conhecimento do bem e do mal ergue-se no centro do jardim com imponência silenciosa. Seu tronco é firme, e seus frutos têm uma coloração profunda — não chamativa, mas intrigante, como algo que não implora por atenção, mas a captura. 

Nachash pousa sobre ela lentamente. 

Suas escamas refletem a luz como metal vivo. Há nobreza em seus movimentos, mas também tensão. Ele pousa sobre a árvore, estende a mão e colhe um dos frutos. Não o arranca com violência; segura-o como quem pesa uma ideia. 

Ele observa o fruto em silêncio, lembrando-se das palavras de Dragon Lord — da promessa velada, da acusação disfarçada de lógica. 

Nachash franze levemente o cenho e murmura para si mesmo: 

— Um pequeno e inútil fruto… com um aspecto moral de tamanha relevância que se tornou tão importante. 

À distância, Chawa percebe a cena. 

A irritação sobe rápido. Ela se aproxima com passos firmes, os olhos atentos, a voz carregada de reprovação. 

— Nachash, o que faz aí? — Diz, sem esconder o incômodo. — Esta árvore é proibida para toda criatura do Gan Éden. 

Nachash não se vira de imediato. Mantém o fruto na mão, girando-o lentamente entre os dedos. Apenas então, com aparente inocência, responde: 

— Como assim? — Pergunta, erguendo o olhar. — Deus não disse que poderíamos comer de toda árvore do jardim? 

Chawa hesita por um instante. A resposta vem, mas não sem reflexão. 

— Podemos comer do fruto das árvores do jardim. — Diz ela. — Mas sobre o fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: “Não comam dele, nem toquem nele; do contrário, vocês morrerão.” 

Nachash levanta o fruto à altura dos olhos, coça a lateral da cabeça com a mão livre e sorri de forma quase casual. 

— Eita… então eu morri? — Afirma, com falsa surpresa. — Porque eu toco o fruto neste momento. Ele está em minhas mãos, e nada ocorreu. 

O silêncio se instala. 

Chawa observa atentamente. Nada acontece. Nenhuma mudança. Nenhum sinal de morte. Nenhum juízo visível. 

O pensamento se impõe à sua mente, involuntário: 

Como assim? 

Ele toca o fruto… e nada de mal lhe ocorre. 

Nachash percebe a fissura. Não hesita. As palavras de Dragon Lord encontram voz. 

— Vocês certamente não morrerão. — Diz ele, agora com firmeza calculada. — Pois Deus sabe que, no mesmo dia em que comerem dele, seus olhos se abrirão, e vocês serão como os deuses, conhecendo o bem e o mal. 

Chawa engole em seco. 

Como o conhecimento pode ser mal? — Pensa. 

Ele toca o fruto, e nada ocorre… 

Seus olhos percorrem a árvore. Ela percebe que o fruto é bom para alimento. Belo. Agradável aos olhos. A árvore inteira parece convidativa, quase legítima. 

Ela estende a mão. 

Toca o fruto. 

Nada acontece. 

O silêncio do jardim permanece intacto. 

Chawa leva o fruto aos lábios e começa a comê-lo. 

Nachash observa a cena. Um sorriso lento e satisfeito se forma em seu rosto. 

Em seu íntimo, o pensamento se eleva como proclamação: 

“Eis que a mulher pecou! 

Certamente eu serei o senhor da Terra.” 

O jardim permanece belo. 

Mas algo — invisível e irreversível — acaba de se mover. 

17.2. A caminho da Valáquia.  

Império Otomano, 1447.   

Cerca de cinquenta e cinco séculos após a queda no Éden, numa manhã de 1447, o ar está carregado com o cheiro pungente de pólvora e o clangor metálico de armaduras. Os irmãos, agora parte de um pelotão de ex-prisioneiros convertidos, reúnem-se em uma praça ampla cercada por muralhas de pedra, bandeiras otomanas tremulam ao vento como estandartes de guerra. O líder do pelotão, um homem de turbante escarlate e cicatrizes cruzando o rosto, sobe a um estrado de madeira e ergue a voz, inflamada por fervor religioso:  

— Alá vos deu uma importante chance, aprender o Alcorão, aprender a verdade. Vocês tiveram, nestes cinco anos, tempo para treinar, e agora devem devolver a Alá seu gesto de misericórdia e benevolência. Na batalha contra o rei da Valáquia, enfrentaremos um povo idólatra, que adora seres criados e imagens de escultura, o que Deus proíbe. Na verdade, quando fazem isso, praticam a doutrina de demônios.   

Os soldados, uma mistura de convertidos e otomanos nativos, erguem suas espadas, o metal reluz sob o sol, e gritam em uníssono:  

— Alá, vive!  

Vlad, de pé entre os guerreiros, sente um nó apertar seu estômago. A menção à Valáquia, sua terra natal, desperta memórias vívidas do castelo de seu pai, das florestas escuras da Transilvânia e das missas solenes na capela. Ele aperta o cabo da espada e pensa. “Combater meu próprio povo? Meu pai?” Pensa, com o coração dividido entre a lealdade à cruz e a necessidade de sobreviver entre os otomanos.   

Ele lança um olhar para Mircea, cuja expressão impassível esconde algo mais profundo, e para Radu, cujos lábios murmuram uma prece islâmica com devoção. A distância entre os irmãos, outrora inseparáveis, cresce como um abismo intransponível.   

O comandante do exército, um gigante de armadura dourada, assume o comando, sua voz ressoa como um trovão:  

— Hoje vos é permitida a liberdade! Se vencerem, tornar-se-ão à vossa terra como vencedores, como guerreiros, e terei, por direito e dever, reinar e ensinar os idólatras que hoje habitam na Valáquia a se converterem e se tornarem fiéis.  

Ele aponta para Mircea, o primogênito, e proclama:  

— Quero chamar aqui Mircea, ele vos dirigirá uma palavra!  

Mircea avança, sua armadura tilinta a cada passo, seu rosto marcado por uma determinação feroz. Ele sobe ao estrado, seus olhos varrem a multidão.  

Ele ergue a voz como o rugido de um leão e diz:  

— Irmãos! Nós fomos escolhidos por vocês, que tiveram a bênção de receber a verdade do Profeta. Fomos esclarecidos durante estes cinco anos. Agora eu, Mircea, filho de Vlad II, o Dragão, guerreiro forte, porém sem esclarecimento, em nome de Alá, vou convosco, meus irmãos, para combater o bom combate e a idolatria, para fazer Jihad, a guerra sagrada. Todos sabem que, por direito, eu, Mircea, sou o sucessor natural de Vlad II, o Dragão, e lutarei convosco. Dominaremos eles e ensinaremos a eles as escrituras. Aqueles que se renderem e se converterem, receberão a misericórdia; aqueles que insistirem na prática do erro, serão condenados ao inferno. A nós, servos de Deus, conhecedores das escrituras que foram reveladas ao Profeta, caberá o julgamento. Vamos à Jihad, a Guerra por Deus!  

Os soldados explodem em um grito ensurdecedor, suas vozes ecoam pelas muralhas:  

— Vamos!   

Vlad, paralisado, sente o chão tremer sob seus pés. As palavras de Mircea cortam como uma lâmina. “Como ele pode falar assim de nosso pai? Do Dragão, que nos ensinou a honrar a cruz?” pensa, seu sangue pulsa em suas têmporas. Lembra-se das noites na Valáquia, quando Vlad II, com sua capa negra e o símbolo do Dragão no peito, narrava batalhas contra os otomanos, sempre com a Bíblia em uma mão e a espada na outra.  

A ideia de erguer a cimitarra contra sua própria terra é um veneno que corrói sua alma. Ele observa Radu, gritando com entusiasmo, e percebe que o irmão mais jovem se entregou completamente à nova religião. Mircea, com sua ambição declarada, parece movido por algo mais sombrio — poder ou uma lealdade forjada pelos otomanos.  

Vlad, porém, mantém sua fidelidade à Igreja Católica acesa em segredo, enfraquecida por anos de dúvida. “Se Alá é misericordioso, por que me força a trair meu sangue?” Questiona-se, enquanto o grito da Jihad ressoa, ameaçando engolir sua identidade.   

O pelotão se prepara para marchar, o céu fecha-se em nuvens escuras. Vlad ajusta a armadura, o metal frio contra sua pele, e murmura uma última oração à Virgem Maria, guardada nos recantos de sua mente. Ele não sabe se é traidor, guerreiro ou apenas um menino perdido, mas uma certeza o consome: a Jihad que se aproxima será uma guerra por sua própria alma.  

17.3. A caminho do castelo de Brasov. 

Transilvânia, janeiro de 1891 – Caminho do Castelo de Brasov.  

Quatrocentos e quarenta e quatro anos após Vlad Teppes trilhar o caminho do retorno a Transilvânia, Frank Renfield trilha o caminho rumo ao castelo de Brasov, na mesma região.   

A carruagem que o transporta range como ossos velhos sob o peso da neve. O vento dos Cárpatos uiva entre pinheiros negros, carregando flocos que cortam o rosto como lâminas de vidro. A trilha sinuosa é uma cicatriz branca na encosta, ladeada por penhascos de gelo e abismos onde lobos uivam, espalhando mais terror ao ambiente medonho. O castelo de Drácula, lá no alto, é apenas uma silhueta de torres quebradas contra o céu de chumbo.  

Dentro da carruagem, Renfield medita apreensivo. De repente, a carruagem para abruptamente. As rodas afundam na neve até os eixos. O cocheiro de rosto pálido como cera vira-se no banco:  

— Estamos a meio quilômetro do castelo. Como eu disse, a carruagem não avança mais nesta época. E eu… eu quero poupar minha vida. Avançar além é transcender o abismo, deixar o purgatório rumo ao inferno.  

Renfield guarda o diário sem uma palavra. Pega a mala de couro gasta, o chapéu encharcado, e joga moedas ao homem.  

O cocheiro hesita, com a voz tremendo:  

— Eu espero a neve parar. Ficarei aqui algumas horas. Se desistir, ainda pode voltar.  

Renfield caminha, suas botas afundam na neve até os tornozelos. Sem olhar para trás, ele se concentra:  

— Todo este esforço será válido se a bruxa Kimberly estiver correta e o homem que pode me curar habitar neste castelo.  

O vento engole suas palavras. A carruagem some na névoa. Só resta o silêncio e o som de algo se movendo entre as árvores.  

Sob um pinheiro centenário, Morgana observa. Cabelos ruivos como pano escarlate, pele de alabastro, olhos vermelhos brilhando na escuridão. Ela destrava os dentes — presas longas, perfeitas — e solta uma risada silenciosa. A neve cai mais forte. Renfield no entanto, segue, ofegante, tossindo sangue na luva. O castelo cresce à frente: portões de ferro enferrujados, gárgulas congeladas e uma única janela acesa no alto.  

17.4. O gênio da lâmpada. 

Entrada da Caverna de Varuksha, Índia — 1943. 

Quase meio século após Renfield buscar sua cura no castelo de Braşov, Dhalsim para diante da abertura da caverna em jornada não muito distinta. 

A entrada da caverna não é grandiosa. Não há colunas, nem inscrições visíveis à primeira vista. Ainda assim, algo nela oprime o ar, como se a montanha tivesse aprendido a respirar de forma errada. As rochas ao redor são escuras, lisas demais para serem apenas obra do tempo. A umidade escorre pelas paredes como suor antigo. O silêncio não é ausência de som — é contenção. 

Ele se senta à entrada, cruza as pernas com a coluna ereta. Fecha os olhos. 

Respira. 

O medo está ali. Não como pânico, mas como lucidez. Dhalsim sabe que há portas que, uma vez cruzadas, não permitem retorno ao mesmo homem que chegou até elas. 

“Os árabes o chamam de Jinn”, recorda. 
“Criaturas de fogo sem fumaça.” 
“Não são anjos, não são deuses, nem homens.” 
“São servos renegados constrangidos a obedecer-nos.” Medita, ele. 

Através de Sally, ele já ouviu histórias suficientes para saber que Jinn não concedem desejos por bondade. Eles negociam. Observam falhas. Torcem palavras. Um pedido mal formulado não traz punição direta — traz ruína, às vezes lenta, às vezes abrupta. 

Dhalsim abre os olhos e encara a escuridão. 

Ele franze o cenho. 

— Não… — murmura. — Não é isso. 

Para os muçulmanos, os Jinn são reais. Para os hindus, os deuses também o são. Mas Dhalsim sabe que toda cultura nomeia forças antigas conforme sua própria linguagem. O que uns chamam de demônio, outros chamam de deva, os ocidentais chamam de anjos e as culturas antigas, deuses. Não há distinção entre eles. O que uns veneram como divindade, outros denunciam como espírito enganador. 

“Talvez sejamos todos cegos diante das mesmas potências”, pensa. 
Talvez a diferença esteja apenas em quem se curva… e por quê.” 

Ele se levanta. 

O interior da caverna o recebe com um ar mais pesado. Cada passo ecoa com atraso, como se o som fosse engolido antes de voltar. As paredes se fecham em certos trechos, obrigando-o a avançar de lado. Em outros, o espaço se abre repentinamente, formando salões naturais que lembram câmaras de julgamento. 

O chão é irregular. Há marcas antigas — não de ferramentas, mas de calor. Rochas vitrificadas. Como se fogo tivesse tocado a pedra e ido embora. 

Dhalsim sente o suor escorrer pela testa. 

“O jinn é astuto”, lembra-se. 
“Não reage à força. 
Reage à intenção.” 

Dhalsim sabe que cada palavra que ele formular precisará ser precisa. Sem orgulho. Sem brechas. Um desejo que carregue vaidade será punido. Um desejo que carregue egoísmo será distorcido. 

— Eu não vim para ser servido — sussurra para si mesmo. — Vim para servir… mesmo que isso me custe tudo. 

O túnel termina. 

No centro de uma câmara circular, iluminada apenas por uma abertura estreita no teto, repousa a lâmpada de metal dourado envelhecido. O metal é escuro, quase negro, mas preserva um dourado ainda pulsa como lava aprisionada sob a superfície. As inscrições não são entalhadas — parecem queimadas de dentro para fora. 

Dhalsim se ajoelha. 

Por um instante, hesita e repete em seus pensamentos o que já citou mentalmente anteriormente. Como um mantra, ele se concentra em meditar e recitar em seus pensamentos: 

“Uma palavra errada… 
Um desejo impuro… 
E eu me tornarei aquilo que abomino. 

Uma palavra dita fora de contexto e eu perderei aquilo que mais amo”. 

Ele estende a mão. 

Toca a lâmpada. 

O calor não queima. Ele invade. 

Dhalsim a segura com ambas as mãos e, com movimento lento e deliberado, a esfrega. 

O ar se contrai. 

Uma chama de fogo explode para fora da lâmpada como uma respiração contida por séculos. Chamas se erguem, tomam forma, se organizam. Não há fumaça. Não há caos. 

Diante dele surge uma figura humanoide, alta, composta de fogo puro, com contornos definidos, olhos incandescentes e expressão serena demais para ser confiável. 

A entidade se inclina levemente. 

A voz ecoa, profunda e clara, como se falasse dentro da própria mente de Dhalsim. 

— O senhor me libertou. 
— Eis-me aqui para servi-lo. 
— Realizarei três pedidos ao meu senhor. 

O fogo se aquieta. 

Dhalsim permanece imóvel. 

O verdadeiro teste… começa agora. 

17.5. O alimento e a fidelidade

Casa de William, sábado, 30 de março de 1963, 5º dia do 1º mês no calendário da Bíblia. 

Duas décadas após Dhalsim chegar a caverna de Vrukahs, a manhã se desenrola na residência de William com uma brisa suave que acaricia as cortinas de linho, o aroma de ervas frescas e pão caseiro pairam no ar. O sol, ainda baixo no horizonte, lança raios dourados sobre o quintal, onde cadeiras de madeira foram dispostas em círculo. 

Luk, com sua figura afro robusta e expressão serena, levanta-se diante do pequeno grupo reunido, composto majoritariamente por mulheres e alguns jovens, incluindo Bunnym, Sasha e Joaquina. Ele ajusta o tom de voz, começando os estudos do Yom Shabat com um tema que ressoa profundamente: a alimentação como símbolo de fidelidade a Deus. 

— Amigos, hoje vamos refletir sobre como nossa alimentação reflete nossa relação com o Criador. — Diz Luk, com voz firme e acolhedora. — Quando Deus criou a vida na Terra, como lemos em Bereshit, no primeiro capítulo, ele não pretendia que a morte fizesse parte de sua obra perfeita. Em Gênesis 1:29-30, ele deu a todos, homens e animais, as ervas e os frutos como sustento. A alimentação vegetariana, baseada em vegetais, não implica necessariamente a morte, nem mesmo das plantas, pois elas se renovam continuamente, oferecendo seus frutos como dádiva divina. 

Ele pausa, sorrindo levemente enquanto olha para Nokram, que agora ocupa o piano, anteriormente ocupado por Menslike e diz. 

— Meu irmão Nokram e eu somos vegetarianos. Comemos derivados de leite, como queijos e iogurtes, que nos sustentam sem exigir a morte de um animal. Evitamos carne porque sabemos que ela só chega à nossa mesa ao preço da perda de uma vida, algo que, no plano original de Deus, não era necessário. 

William, sentado ao lado de Madm, inclina-se e sussurra, com voz preocupada: 

— Então é errado o que fizemos? Pois celebramos a cura de Ângela com um churrasco, e você também comeu conosco. 

— Calma, ele vai explicar! — Tranquiliza, Madm, com um aceno discreto. 

Luk continua, sua voz ganha profundidade. 

— Mas o homem, ao pecar, rompeu essa harmonia. Em Gênesis 3, após a desobediência, Deus escolheu que outro ser morresse em lugar do homem. Ele próprio sacrificou um cordeiro, cobrindo Adam e Chawah com suas vestes, um ato de misericórdia que aponta para o sacrifício final do Messias. Isso mostra que, mesmo na queda, Deus proveu uma redenção. 

Amada, ao lado de Ângela, observa a plateia e comenta em voz baixa: 

— Você reparou que quase todo nosso público hoje é composto por mulheres? Há pouquíssimos homens, e os que estão aqui são jovens como Bunnym. 

Ângela justifica, com um sorriso suave: 

— É sábado de manhã, normalmente os homens trabalham. As mulheres que estão aqui, provavelmente, são sustentadas por seus maridos. 

Luk retoma a palavra, o tom agora mais didático. 

— Após o dilúvio, em Gênesis 9, Yhwh permitiu o alimento cárneo, mas com restrições. Ele classificou certos animais como desprezíveis, e estes foram designados como kosher, uma palavra hebraica que significa ‘permitido’. Não se trata de ‘puros’ ou ‘limpos’ no sentido moral, mas de uma designação divina. Vamos ler juntos essa instrução em Vayikra, o livro que chamamos de Levítico. 

William pega uma Bíblia Católica versão Ave Maria e, a pedido de Luk, lê em voz alta os versículos de Levítico 11 (tradução baseada na Vulgata): 

“1. O Senhor falou a Moisés e a Aarão, dizendo-lhes: 2. Falai aos filhos de Israel e dizei-lhes: Estes são os animais que podereis comer de entre todos os animais que estão sobre a terra: 3. Todo animal que tem unhas fendidas e que rumina, esse podereis comer. […] 7. Também o porco, porque tem unhas fendidas, mas não rumina, é impuro para vós; não comereis da sua carne nem tocareis o seu cadáver. […] 9. Tudo o que tem nadadeiras e escamas nos mares e nos rios, isso podereis comer. […] 13. Dentre as aves, estas são abomináveis e não comestíveis: a águia, o grifo, o falcão, […] 20. Todo inseto que voa e anda sobre quatro pés será abominável para vós. […] 29. Dentre os animais que se arrastam sobre a terra, estes são impuros para vós: a doninha, o rato, […]” 

Luk explica, gesticulando com entusiasmo: 

— Vejam, para os quadrúpedes, Deus permite apenas aqueles com unhas fendidas e que ruminam, como vacas e ovelhas. Nos mares, só os com nadadeiras e escamas, como peixes. Aves como águias ou falcões estão proibidas, assim como insetos e répteis. Essas regras não são arbitrárias; são um convite a viver em harmonia com a criação de Yhwh. 

Quando William lê Levítico 11:7, proibindo o porco, Vanda comenta, com um risinho: 

— O pai não vai gostar mesmo de saber disso. Imagina saber que Deus não quer que comamos o leitãozinho gostoso que ele faz com pururuca todo domingo? 

— Se o pai souber que a gente veio aqui, ele vai ficar muito irado. — Adverte Guerra, franzindo a testa. 

Luk prossegue, com voz calma: 

— E não se trata apenas do porco na sua forma comum. Derivados industrializados, como salsicha, gelatina, linguiças, presunto, salame e mortadela, também devem ser evitados, pois contêm partes impuras. 

Guerra ouve e dispara, cruzando os braços: 

— Eu jamais vou ficar sem meu pão com mortadela tão gostoso de todas as manhãs. 

— E a linguiça maravilhosa que o papai faz? — Lamenta Vanda, com um suspiro. Fortaleza ironiza, rindo: 

— Vocês não estão levando a sério o que esse menino gordo tá falando, estão? 

Guerra sorri e rebate, apontando com o nariz para Nokram: 

— O menino gordo não, mas o que ele fala é diferente do que pensa o menino lindo do piano? 

— Eu achei mais bonito o carinha que está sentado ao lado da vadia, irmã do William. — Diz Fortaleza, direcionando o rosto para Menslike, que ouve ao lado de Let. 

Vanda sorri, abaixa a cabeça e provoca: 

— Quem realmente parece interessado em você é o naniquinho ali, Fortaleza. — Diz ela, piscando para Bebeto. 

Bebeto percebe a piscadinha de Vanda e pensa: “Acho que ela gostou de mim, mas a irmã dela é mais linda. E agora, o que eu faço?” 

Luk continua, ignorando os comentários paralelos, enquanto Sasha, Bunnym e Joaquina prestam atenção. Guerra, porém, olha para Madm ao lado de William e sussurra: 

— Beleza é importante, mas, segundo o papai, o homem que comanda é aquele ao lado do Capitão William. Se a gente for gostar de alguém, tem que ser dele. 

Fortaleza a repreende, com expressão fechada: 

— Credo, minha irmã, ele é casado! 

Guerra, sem se abalar, rebate: 

— O tal Menslike, que você achou bonito, aparentemente também está acompanhado, e com a irmã do William. 

Fortaleza insiste, irritada: 

— Mas até onde sabemos, eles não são casados, nem namorados.   

17.6. O plano de Muller . 

Fazenda de Thomaz Muller.  

Enquanto na casa de William, Luk tenta mostrar a importância de se mostrarem fiéis a Deus, inclusive com o que se alimentam, na fazenda de Thomaz Muller, o sol escaldante reflete nas vastas plantações de milho que cercam a propriedade.   

A caminhonete estaciona diante da varanda de madeira, rangendo sob a tensão que conduz o fazendeiro. Ele desce, o chapéu de feltro cobre parcialmente o rosto marcado pelo tempo e ordena com voz grave:   

— Chame Kilba em meu escritório, quero falar com ela.  

Alguns minutos depois, Kilba entra no escritório, um cômodo aconchegante com paredes de tijolos e uma mesa de mármore cheia de papéis. Ela se curva humildemente diante do poderoso fazendeiro, dizendo:   

— Me chamou, senhor Muller.  

— Sim, por favor, sente-se, minha linda. — Pede ele, com um tom que mistura autoridade e carinho.  

Kilba se senta, com as mãos trêmulas sobre o colo. Thomaz acende um charuto cubano, o cheiro acre invade o ar enquanto sopra a fumaça em anéis lentos, o brilho do fogo reflete em seus olhos calculistas.  

— Desculpa por sair ontem sem falar contigo, precisava conversar com minha esposa antes. — Justifica ele, recostando-se na cadeira.  

Kilba se surpreende e indaga, com voz hesitante:   

— O senhor contou para ela?  

Thomaz sorri, dando outra tragada no charuto.   

— Não. Claro que não, mas sim, de certa maneira, sim.  

— Como assim? — Pergunta, Kilba, confusa.  

Thomaz exala a fumaça, rindo baixo.   

— Eu contei para ela que você ‘embuchou’, e falei que é melhor você trabalhar com ela, lá em casa. O Duck não tem problemas com isso.  

Kilba ouve o nome de Duck e indaga, alarmada:   

— Como assim? O que o Duck tem a ver com minha vida?  

Thomaz solta uma gargalhada rouca e sentencia:   

— Lógico, ele é o pai do seu filho. — Então, sorri mais ironicamente e explica: — Eu falei com ele. Para minha esposa, ele dirá que é o pai!  

17.7. Promessas e decisões. 

Casa de William.  

O sol se aproxima do meio-dia, tingindo o céu de um branco intenso que banha a residência de William, apenas alguns kms da fazenda de Muller. O canto dos pássaros se mistura ao sussurro das folhas, enquanto uma brisa morna carrega o perfume de flores silvestres do quintal.  

Luk termina sua mensagem, e alguns levantam-se, aplaudindo com entusiasmo. Em seguida, Healer sobe ao centro, sua voz grave cantando “Hinei Ma Tov”.  

Após a música, Nokram dirige a oração com sua voz jovem carregada de fervor. Guerra ouve em silêncio e pensa: “Em toda minha vida, vou à igreja do Pastor Paulo e nunca fui tocada por uma oração como essa desse jovem.”  

Após o encerramento, William convida todos para o almoço, corrigindo-se com um sorriso:   

— Venham todos para o kiddush, preparado com amor por Amada, Ângela, Healer e Luk! — Diz ele, com alegria. — Amada liderou a cozinha com um ensopado de legumes e pão fresco, Ângela preparou os queijos caseiros, Healer e Luk prepararam deliciosas pizzas.  

Após a reunião, Pedro, o jovem católico que acompanhou as duas reuniões anteriores, sussurra para seu amigo José:   

— Viu, Zé, como eles são? Ignoram a Igreja, defendem que não podemos comer comida, esquecem que Jesus purificou tudo, defendem a guarda do dia dos judeus e não do domingo.  

— Sim, você tem razão, precisamos relatar tudo isso ao Padre Lucius. — Comenta José, assentindo.  

Let respira fundo e Menslike indaga, com um sorriso:   

— E aí? Será que compensou perder a aula hoje?  

Let sorri, batendo nas costas do amigo:   

— Eu não ia dar aula, já te expliquei, mas ia avisar meu aluno, pois falhei nisso ontem.  

Bunnym, o jovem curado na noite anterior, procura Madm e diz:   

— Sr. Madm, eu preciso almoçar em casa com meus pais e meus irmãos, mas a partir de hoje, como meu bigode é grosso e meu cavanhaque é definido, tenha certeza de que eu nunca mais vou me alimentar de animais impuros. Tudo que aprender aqui com vocês, eu vou praticar. Além disso, hoje à noite eu virei e vou trazer meus irmãos, Asfalto e Gabi, nem que tenha que amarra-los e ainda meu amigo, Marquinho.  

Madm o abraça e diz:   

— Que alegria, meu amigo, é muito bom ouvir isso.  

Enquanto isso, Healer conversa com Sasha e Joaquina.   

— Você canta muito bem! — Exalta Sasha.  

— Sim, tanto seu grave quanto seu agudo são muito bons. — Acrescenta Joaquina.  

Healer sorri com um pouco de timidez, agradece e convida:   

— Venham ao pôr do sol se reunir conosco.  

— Vamos pensar, o dia passa muito rápido. — Comenta, Sasha.  

Mas Joaquina enfatiza:   

— A gente pode chegar atrasada, mas vem.  

Em outra roda de conversa, Felicity, se emociona, abraça Blue Mary e Ângela e diz:  

— Deus salvou a vida do nosso irmão, essa noite, eu prometo que não vou comer nada que seja imundo, para agradecê-lo!  

Nesse clima de decisões e promessas, encerra-se a primeira reunião mantinal de shabat na casa de William. Madm e seus amigos ensinam coisas que parecem novas para muitos em Ponta Porã e cada um reage à sua maneira mediante o novo ensino.  

17.8. Nos fundos da Iceberg Lounge. 

Gotham City, início da tarde. 

Longe da radiante reunião da casa de William, num lugar onde o sol não brilha, mais precisamente, nos fundos da Iceberg Lounge, o dia se dissolve em sombras permanentes.  

Os prédios altos bloqueiam a luz, e o beco permanece úmido, como se nunca tivesse secado desde a última chuva. O chão é uma mistura de óleo antigo, restos de comida e água parada. O ar cheira a lixo apodrecido, fumaça de escapamento e algo metálico, difícil de identificar. 

É o tipo de lugar onde conversas não deixam registros — apenas consequências. 

Encostado próximo a uma porta de serviço enferrujada, Max Eckhardt, o policial que atendeu e desprezou a denúncia de Selina ajeita o colarinho do uniforme. Ele não está de serviço oficialmente. Não deveria estar ali. Seus olhos se movem o tempo todo, atentos a ruídos que talvez só existam em sua cabeça: passos no asfalto distante, o bater de uma porta, o riso abafado vindo do clube. 

Sob a luz fraca de um lampião preso à parede, Carl Grissom observa o beco como quem observa um território que lhe pertence. Seu terno é impecável demais para aquele lugar. O contraste é proposital. Ele não pertence ao beco — o beco pertence a ele. 

Eckhardt pigarreia antes de falar. Sua voz sai baixa, quase respeitosa, mas há algo inquieto em seu tom. 

— Chefe, ouvi rumores sobre o possível sumiço de uma das prostitutas, uma amante de Falcone. Uma tal de Annika. — Diz Eckhardt, com voz baixa. 

Grissom não responde de imediato. Primeiro, tira calmamente um charuto do bolso interno do paletó. Corta a ponta com precisão, como se aquele gesto fosse mais importante do que a informação que acabara de ouvir. Acende o charuto com um isqueiro dourado, protegendo a chama do vento com a mão. 

Só então ele ri. 

Não é uma gargalhada. É um riso curto, seco, desinteressado. 

— Besteira, Max. A moça deve estar equivocada, a prostituta deve estar curtindo em algum lugar. Dispenso isso. — Diz ele, acenando para Eckhardt sair. 

A palavra dispenso cai no ar como uma ordem que não admite réplica. 

Eckhardt hesita por um segundo. Seus olhos percorrem o beco mais uma vez. Ele parece querer dizer algo mais — talvez mencionar que contra sua vontade, o boletim foi oficialmente registrado, talvez falar do medo no rosto de Selina, talvez apenas aliviar a própria consciência. Mas não diz nada. 

Ele apenas assente com a cabeça e começa a se afastar. 

Cada passo parece mais pesado do que o anterior. 

Quando Eckhardt já está a alguns metros de distância, uma figura emerge lentamente da sombra mais profunda do beco, como se sempre tivesse estado ali. 

Arthur Fleck, conhecido como Jack Napier, surge com um sorriso torto estampado no rosto pálido. Seus olhos brilham de um jeito inquietante, refletindo a chama do charuto de Grissom. Ele não se aproxima demais. Mantém uma distância calculada — íntima demais para ser segura, distante demais para ser confronto. 

Sua voz soa quase como uma piada sussurrada. 

— Será que ele sabe que o senhor passou a noite com Annika? 

O sorriso de Grissom desaparece instantaneamente. 

O charuto permanece aceso, mas ele não o leva à boca. Seus olhos se fixam em Arthur. O silêncio que se forma é mais pesado do que qualquer resposta imediata. 

Quando fala, sua voz é baixa, controlada, sem elevação alguma — e justamente por isso, perigosa. 

— Claro que não, e nem você sabe disso, Jack. — Responde Grissom, com um tom ameaçador. 

Arthur inclina levemente a cabeça, como quem aceita uma regra não escrita. O sorriso retorna, mas agora é mais contido, quase obediente. Ele dá um passo para trás, dissolvendo-se novamente na sombra do beco. 

Grissom permanece ali por alguns segundos a mais, soltando a fumaça do charuto lentamente, observando-a se perder no ar sujo de Gotham. 

17.9. A família Haddad

Ponta Porã, residência das três irmãs. 

Enquanto em Gotham, o Iceberg Lounge se torna um ambiente que oculta fofoca e conspirações, na casa dos Haddad, em Ponta Porã, as irmãs Guerra, Fortaleza e Vanda avaliam seus primeiros contatos com os escolhidos e enviados. 

A casa dos Haddad é pequena, baixa, construída com paredes grossas de adobe que seguram o calor do dia como se o tempo tivesse parado ali dentro. O telhado de telhas antigas range com o vento quente da tarde, e o chão de cimento batido guarda marcas de passos antigos, rachaduras finas e manchas que o pano úmido nunca conseguiu apagar completamente. 

Poucos móveis ocupam o espaço: uma mesa de madeira gasta, cadeiras desiguais, um armário simples encostado na parede. Sobre ele, uma Bíblia surrada, um rádio desligado. O cheiro de café velho misturado ao de gordura reaproveitada denuncia a rotina apertada, repetitiva, sem sobras. 

A mãe das meninas está de pé, próxima à mesa, os braços cruzados com firmeza. O olhar é duro, cansado, carregado de medo — não por elas, mas pelo que o pai poderá fazer ao saber de seu contato com os homens rejeitados por Thomaz Muller como farsantes. 

— Se o pai de vocês souber que foram à casa do William, vão levar uma surra. — Diz, seca. — E eu vou achar bom, porque merecem. 

Guerra permanece ereta, encostada na parede. O rosto firme, mas os olhos atentos. Ela não enfrenta a mãe com rebeldia, e sim com cálculo. 

— Mãe, o próprio Pastor Paulo foi lá na quinta. — Responde, controlada. 

Fortaleza está sentada de lado na cadeira, inquieta, balançando uma perna. Antes que a mãe replique, ela se apressa: 

— E ontem, o Pastor Faustão nem apareceu no culto. Todo mundo comentou que ele foi visto lá também. 

A mãe aperta os lábios, respira fundo. Dá dois passos pela sala estreita, como quem organiza pensamentos antes de atacar. 

— Ontem, no culto, o Pastor Paulo explicou muito bem. — Diz, voltando-se para elas. — Ele foi lá porque achou que era um culto de ação de graças pela cura da Ângela, pela qual ele mesmo orou. Não para exaltação de pessoas que desprezam o ensino de Jesus. 

Vanda, sentada no chão, encostada na parede, abraça os joelhos. O tom dela não é de confronto, mas de observação curiosa. 

— É… eles são estranhos mesmo, mãe. — Diz, pensativa. — Querem que a gente não coma comida gostosa, não trabalhe no sábado… mas parece que pode trabalhar no domingo. Vai entender. 

Fortaleza revira os olhos, levanta-se de uma vez. O calor, a conversa e a tensão parecem incomodá-la mais do que o sermão. 

— Ai, pelo amor de Deus… — Diz, gesticulando. — Até parece que vocês vão trocar de religião por causa deles. 

Ela cruza os braços e solta, quase rindo, como quem confessa algo óbvio demais para ser levado a sério: 

— A gente foi lá porque tem cinco rapazes solteiros que parecem bonitos e ainda por cima abençoados por Deus. E quer saber? A gente é que vai fazê-los mudar de religião! 

Vanda ergue o rosto, o sorriso leve, provocador. 

— Hum… então o Bebeto tá fazendo sucesso, hein? 

Fortaleza inclina a cabeça, avaliando. 

— Bebeto? Sei não. Acho que foi o Nokram. — Diz, com um meio sorriso, provocando Guerra que até então observava em silêncio, intervém com precisão: 

— Pelo menos eu olhei para os solteiros. Não para os casados. 

Fortaleza ri, rápida no contra-ataque: 

— O Menslike não é casado. 

Guerra se vira para ela, o tom mais firme, menos paciente. 

— Você viu como ele se comporta, é praticamente o namorado da irmã do William. 

A mãe bate a mão na mesa. O som seco ecoa na sala pequena. 

— Que vergonha! — Exclama. — Tantos meninos na igreja, na cidade… e vocês olhando para esses seres estranhos, ainda por cima comprometidos! 

Ela respira fundo, então fixa os olhos em Vanda. 

— E você? Estava de olho em alguém? 

Vanda não baixa a cabeça. Pelo contrário, sorri com uma sinceridade quase desarmante. 

— Sim. No Bebeto. — Confessa. — Mas ele só tinha olhos pra Fortaleza. 

Fortaleza fecha sua expressão e olha para Guerra, pensando: “Menslike casado?! Quero ver só a mamãe souber que ela estava de olho no Madm.” 

Guerra, por sua vez, fecha os olhos e relembra do som entoado por Nokram. 

O silêncio  segue cheio de pensamentos não ditos. O calor continua preso às paredes, a tarde avança, e aquela casa simples guarda mais inquietação do que consegue conter. 

Ali, nada mudou oficialmente. 

Mas algo já saiu do lugar. 

17.10. Carmen de La Ronda. 

Enquanto as três irmãs Haddad ainda repercutem, cada uma à sua maneira, as sensações provocadas pelos primeiros contatos com os escolhidos e enviados, a poucas quadras dali a cidade segue seu ritmo aparentemente comum. 

O investigador Max Kohls estaciona seu carro diante de uma casa mediana, típica de um bairro residencial do interior. A construção é simples, mas sólida. As paredes de alvenaria clara carregam marcas do tempo; o pequeno jardim frontal exibe uma grama irregular, contida por uma mureta baixa de concreto. Na varanda estreita, duas cadeiras de ferro pintadas de branco descascam sob o sol. Uma janela com cortinas floridas permanece entreaberta, sugerindo presença, mas não acolhimento. 

Kohls desce do carro com movimentos contidos. Ajusta o paletó, sente o peso familiar da arma sob o braço e caminha lentamente em direção ao portão. Seu olhar percorre o entorno com método, atento a cada detalhe. Nada parece fora do lugar — e isso, para ele, já significa algo. 

Sentada na varanda da casa ao lado, Felicity, a irmã de Blue Mary e Dourado, balança um leque colorido diante do rosto rosado. O calor a deixa corada, mas sua animação é natural, quase transbordante. Seus cabelos loiros refletem a luz da tarde, e seus olhos curiosos acompanham o homem que se aproxima da casa vizinha. 

Ela se inclina para o lado e comenta, empolgada, com a irmã logo atrás: 

— Olha aquele gato que está se aproximando da casa da Carmen. Mais um? — Indaga ela, abrindo um sorriso travesso. 

Blue Mary, apoiada discretamente no batente da porta, observa com atenção. Seu olhar é analítico, contido. Ela balança a cabeça negativamente antes de responder: 

— É o investigador Kohls, o novo investigador de polícia da cidade, ele é charmoso, mas é durão, solteiro. 

Blue Mary ainda o descreve quando Felicity balança a mão no ar e a interrompe: 

— Chega! Já sei o suficiente! É solteiro, e Carmen que me perdoe, esse eu preciso roubar dela! 

Sem esperar resposta, Felicity se levanta de um salto. Alisa o vestido, respira fundo e caminha apressada em direção a Kohls. Seus passos são rápidos, nervosos, quase descompassados. Quando se aproxima, fala antes mesmo de organizar os pensamentos: 

— Policial Kohls, que bom vê-lo. 

O investigador para. Seu corpo permanece rígido, mas o olhar se move lentamente até ela. Ele respira, a observa com cuidado e pergunta, em tom seco: 

— Você me conhece? 

— Sim! Quer dizer, não! Mas todos falam do senhor, o novo investigador de polícia! 

Kohls inclina levemente a cabeça. O perfil da jovem chama sua atenção: bela, insinuante, falante demais. Pela lógica, ele imagina tratar-se da mulher que procura e pergunta, direto: 

— Carmen? 

Felicity balança o corpo e sorri. 

— Não! — Responde ela e, de forma atrapalhada, sussurra: — Mas eu deixo o senhor me chamar de Carmen se desejar! 

Kohls não reage de imediato. Apenas a observa em silêncio, os olhos estreitos, avaliando gestos, postura, tom. 

— Como assim? — Pergunta, enfim. 

Felicity trava por um instante. A mente dispara: 
“Ele não deve conhecer a Carmen, será que ela se aprontou algo? Ou será que eles estão flertando? Eu preciso acabar com esse romance agora.” 

Ela se aproxima mais do policial, estica a mão em sua direção, mas hesita antes de tocá-lo. Os pensamentos seguem acelerados: 
“Preciso dizer de forma inocente, sem que ele perceba, que eu sou uma moça de bem e que Carmen é comprometida e problemática.” 

Então, fala tudo de uma vez: 
— Sou Felicity Karamell, irmã do policial Dourado — ela olha para trás e aponta para sua irmã — e da Blue Mary, a gente mora na casa ao lado, mas a Carmen mora aqui sozinha. Ela é uma moça solteira, mora sozinha, mas quase nem para aqui, vive na casa do namorado! O Stanley Ipikiss — ele trabalha no banco que foi assaltado ontem. Meu irmão estava lá, ele arriscou sua vida… 

A fala segue confusa, atropelada, carregada de emoção. Cada palavra empurra a próxima sem controle. 

No entanto, quando Kohls ouve o nome Stanley Ipikiss, seus sentidos se fecham para o restante. O som da rua se apaga. Funcionário do banco. Namorado. Casa vazia. Chave. As peças se encaixam com rapidez matemática. 

Ele a interrompe com firmeza: 

— Obrigado, Srta. Karamell, eu vou até a casa do Sr. Ipikiss conversar com a Srta. Carmen… 

Ele sequer percebe que não conhece o nome completo dela. 

— Carmen de La Ronda, mas como eu te disse, ela nem é daqui, acho que é cigana… 

Kohls ouve, mas já se vira de costas. Caminha em direção ao carro, deixando Felicity falando sozinha, ainda gesticulando, ainda explicando. 

Blue Mary observa a cena à distância. Suspira, balança a cabeça negativamente e murmura: 

— Eh, minha irmã! Tão linda, mas pouco inteligente, se você soubesse que os homens odeiam garotas oferecidas, esperaria ele vir até nós. 

Há algumas quadras dali, Stanley Ipikiss dirige seu carro azul pelas ruas tranquilas da cidade. O veículo é discreto, bem cuidado, sólido. Carmen está ao seu lado. 

Ela é baixa, de traços suaves, postura contida. Seus gestos são delicados, quase tímidos. O vestido simples, bem passado, reforça uma aparência de virtude e recato. Seus olhos acompanham a estrada em silêncio atento. 

Stanley comenta sobre o assalto ocorrido na noite passada: 

— Então foi isso, o banco foi assaltado, como se não bastasse os problemas sociais que nosso país vive, agora os assaltantes começaram a agir no interior. 

Carmen passa a mão na cabeça. Seu rosto se fecha, o medo transparece. 

— Eu nem gosto de ouvir essas histórias, é muita violência, eu odeio isso. Como se não bastasse os problemas políticos, vim para Ponta Porã em busca de paz, mas parece que a cidade ainda é muito grande e violenta como de onde eu vim. 

Ipikiss se mostra preocupado. Diminui a velocidade, pega a mão dela e a beija com cuidado, quase como quem promete proteção. 

— Fique tranquila, vai ficar tudo em paz, o Major Ringo é hoje o principal herói da cidade, ele salvou a noite e o dinheiro de todos! 

Carmen sorri de leve, mas seus olhos permanecem atentos à estrada, como se calculassem algo além do que é dito. 

17.11. Na casa de Muller

Residência de Muller. 

Enquanto Kohls encaixa mentalmente as peças soltas do assalto ao banco, a caminhonete de Thomaz Muller cruza a estrada de terra que leva à sua residência. 

A casa se ergue sólida, imponente, cercada por árvores antigas e cercas bem cuidadas. Não é apenas um lar; é um símbolo de estabilidade, tradição e ordem. Pelo menos à primeira vista. 

Muller estaciona com precisão diante da varanda. Desce primeiro, ajustando o chapéu de feltro com um gesto quase automático, como quem veste não apenas um acessório, mas um papel. O sol da tarde projeta sombras longas, e por um instante ele permanece imóvel, avaliando o cenário como um general antes de uma manobra decisiva. 

Só então ele se volta para o banco do passageiro. 

Kilba permanece sentada, as mãos entrelaçadas nas pernas, o olhar fixo em algum ponto indefinido à frente. Seu ventre ainda não denuncia a gravidez, mas o peso da situação já lhe curva os ombros. 

A voz de Muller rompe o silêncio, firme, controlada, sem espaço para negociação: 

— Lembre-se, Kilba, sempre se refira a mim como senhor, seja grata a Jady por lhe acolher, e critique Duck por não assumir seu filho. Um canalha que foge de suas responsabilidades. 

Cada palavra cai como uma instrução final antes de um julgamento. Não há ameaça explícita, nem grito. Apenas a certeza de que aquilo não é um pedido — é um roteiro. 

Kilba assente lentamente, com os olhos baixos. Não discute, não questiona. O gesto é de submissão, mas por dentro algo se contrai. Ela engole seco, como quem aceita um papel que jamais escolheu representar. 

Muller contorna o veículo, abre a porta para ela com um gesto educado, quase cavalheiresco. Para qualquer observador externo, parece cuidado. Proteção. 

A porta da casa se abre antes mesmo de chegarem à varanda. 

Jady surge sorridente, o rosto iluminado por uma alegria sincera, quase aliviada. Aproxima-se com passos rápidos e envolve Kilba num abraço caloroso, sem hesitação, como se quisesse dissipar qualquer constrangimento pelo simples contato humano. 

— O Muller me contou tudo, fique tranquila, aqui você está protegida. Todo mundo erra, eu jamais te julgarei. — diz Jady, com voz doce, segura, carregada de simplicidade e confiança na bondade do marido. 

Kilba permanece rígida por um segundo dentro do abraço. Seus braços demoram a corresponder. O cheiro da casa — café passado, madeira encerada, flores do jardim — contrasta violentamente com o nó que se forma em sua garganta. 

Ela se afasta um pouco, força um pequeno sorriso e murmura um agradecimento quase inaudível. Seus olhos evitam os de Jady. Não por desprezo, mas por incapacidade. Há ali uma ingenuidade que machuca mais do que qualquer acusação. 

Muller observa a cena em silêncio, satisfeito. Seus olhos não demonstram prazer, mas eficiência. Tudo está funcionando como planejado. Cada pessoa ocupa o lugar que ele definiu. 

Kilba cruza o limiar da casa sabendo que entrou não apenas em outra residência, mas em uma mentira habitável, cuidadosamente decorada para parecer virtude. 

E, do lado de fora, o sol começa a perder sua luz, ofuscado por uma nuvem, como se o próprio dia se recusasse a testemunhar o que acabou de ser selado. 

17.12. O temor católico. 

Igreja Católica Matriz de Ponta Porã. 

Enquanto Thomaz Muller mantém a narrativa sobre o caso de Kilba sob seu controle, no interior da Igreja Matriz de Ponta Porã, sustentada por colunas antigas. O silêncio reverente e o odor misto de incenso velho e madeira encerada exalam um ar de tensão e apreensão. 

As imagens dos santos, imóveis, testemunham o som dos passos de José e Pedro, atravessando o corredor central com passos contidos. O som de seus sapatos ecoa de forma quase indevida naquele espaço consagrado. Ambos retiram os chapéus ao se aproximarem do confessionário, mais por hábito do que por devoção. 

De trás da madeira escura, a voz do padre Lucius rompe o silêncio, grave e medida: 

— Costumo receber um por vez, meus filhos… para que Deus possa conceder o perdão com a devida atenção. 

Pedro se adianta um passo. Sua expressão não carrega culpa, mas inquietação. 

— Padre Lucius… não viemos porque pecamos. Viemos porque algo está errado. — Ele engole em seco. — Há um grupo de pessoas estranhas em nossa cidade. Estão ensinando heresias. 

Do interior do confessionário, o padre permanece em silêncio por alguns segundos. O peso da palavra não passa despercebido. 

— Heresias… — repete ele, com cautela. — Que tipo de heresias? 

José cruza as mãos diante do corpo, como quem se prepara para um depoimento. 

— Eles falam em nome de Deus, padre… mas rejeitam a Igreja. Questionam nossos sacramentos. Dizem que a Trindade não é verdadeira. Defendem o sábado como dia santo. — Sua voz treme levemente. — Ensinam que nem todo alimento é permitido, que há animais impuros… como se estivéssemos sob a Lei antiga. 

O padre abre a pequena portinhola do confessionário. Seus olhos, atentos e cansados, observam os dois homens. 

— Não é assunto para ser tratado aqui. — Diz com firmeza. — Venham comigo. 

Lucius sai do confessionário e caminha em direção à sacristia. Seus passos são lentos, ponderados. Ao entrar no pequeno recinto, fecha a porta com cuidado, como quem isola o mundo exterior para tratar de algo delicado. 

A sacristia é simples, organizada. Paramentos dobrados com zelo, livros empilhados com precisão. Um crucifixo domina a parede principal. 

— Falem com clareza. — Pede o padre. — O que exatamente esses homens estão ensinando? 

Pedro inspira fundo. 

— Dizem que a Igreja se desviou. Que Roma corrompeu o ensino original. Que a verdadeira obediência está em retornar às práticas de Moisés… mas afirmam seguir Jesus. 

José completa, com um tom mais aflito: 

— Padre, eles não são violentos. Não gritam, não insultam, mas falam com convicção… e isso confunde as pessoas. Alguns estão indo a seus encontros como se estivessem indo à missa. Outros começaram a questionar o catecismo. Há famílias divididas. 

O padre Lucius passa a mão pelo rosto. Seu semblante não expressa ira, mas um desconforto profundo. 

— Isso é grave. — Diz, por fim. — Não porque questionam costumes… mas porque tocam no coração da fé. 

Ele se aproxima do crucifixo. 

— Negar a Trindade é negar o próprio Deus como Ele se revelou. Defender a guarda do sábado, utilizando inclusive o termo judaico para isso, é negar a liberdade que Cristo nos concedeu. É prender o cristão do que Cristo os libertou. Voltar às distinções alimentares é rejeitar o sacrifício perfeito. — Sua voz se eleva levemente. — Isso é uma heresia muito grave! É um ensino satânico. 

Pedro aperta os lábios. 

— Eles dizem que a Igreja substituiu mandamentos por tradições humanas. 

O padre se volta bruscamente. 

— E ao dizer isso, acusam o Corpo de Cristo de infidelidade. — Seu tom agora é mais duro. — Quando atacam a Igreja, não atacam homens. Afrontam o próprio Deus. 

Um silêncio pesado se instala. 

José fala em tom mais baixo: 

— Padre… alguns dizem que eles são judaizantes. Que rejeitam Jesus, mesmo dizendo segui-lo. 

Lucius respira fundo, retomando o controle. 

— Não posso julgar os corações. — Diz com sinceridade. — Mas posso julgar os ensinos. E ensinos que afastam o povo da Igreja, que semeiam dúvida sobre a natureza de Cristo e relativizam dois mil anos de tradição… são perigosos. 

Ele se senta lentamente. 

— A Igreja sempre enfrentou heresias. Não por ódio aos homens, mas por fidelidade à verdade. — Olha diretamente para os dois. — O erro precisa ser combatido, ainda que o erro venha vestido de piedade. 

Pedro inclina a cabeça. 

— O que o senhor nos orienta? 

Lucius hesita por um instante, como quem mede o peso das palavras. 

— Vigilância. — Responde. — Oração. E firmeza. Não confrontem com violência, mas não deem espaço. Informem aos outros. Protejam os mais simples. A unidade da Igreja não pode ser fragmentada por doutrinas estranhas. 

José concorda, aliviado por ouvir uma direção clara. 

— Nós tememos por nossas famílias, padre. 

O sacerdote suaviza o tom. 

— E fazem bem. O temor, quando nasce do amor a Deus, é zelo, mas lembrem-se: não lutamos contra pessoas. Lutamos contra ideias que desviam. 

Ele faz o sinal da cruz. 

— A Igreja já atravessou impérios, guerras e cismas. Não será um pequeno grupo que a fará ruir. Mas cada heresia ensinada é uma rachadura silenciosa. 

Os dois homens assentem, respeitosos. 

Ao deixarem a sacristia, o sino da igreja soa ao longe. Não chama para a missa. É apenas a marca das horas. 

Mas, naquele instante, parece anunciar algo mais: 

Um conflito que não se dará com espadas, mas com palavras, convicções e fidelidades que não reconhecem umas às outras. 

17.13. Quatro caminhos diante de Deus. 

Casa de William. 

O pôr do sol tinge o céu de laranja e púrpura. A luz atravessa as folhas do quintal, projetando manchas quentes sobre a terra batida. Um vento leve balança as roupas nos varais nas casas da vizinhança de William, onde também se absorve o cheiro distante de lenha queimando em alguma casa vizinha. 

Aos poucos, todos se reúnem sob a grande árvore, formando pequenos círculos de conversa enquanto aguardam o início da reunião do final de shabat. 

Nokram observa o movimento por um instante. Depois caminha decidido até Madm. 

— Eu vi que você convidou o Luk para ministrar hoje de manhã e está buscando fazer os estudos sequenciais. Na primeira reunião, você ligou a cura de Ângela à criação, ontem à noite falou sobre a cessação da criação divina e início da criação terrestre, hoje o Luk falou sobre alimentação. Quero coordenar a sequência hoje. 

Madm o encara com atenção serena. Há alegria contida em seus olhos, mas também discernimento. 

— E sobre o que você quer falar, filho? — Pergunta, Madm. 

— Sobre os quatro tipos de pessoas que se relacionam com Deus, tomando Kayn, Shet, Hevel e Lamech, descendente de Kayn, como referência. — Responde, Nokram. 

Madm reflete por um breve momento, como quem reorganiza mentalmente os fios da noite. 

— Eu ia pedir para Amada falar sobre a importância de uma mulher se casar com um homem de Deus, usando Awan, Azura e Luluwa como exemplos, mas acho que a mensagem dela pode esperar. Fique à vontade, Nokram. 

Nokram assente, sentindo o peso e a honra da responsabilidade. 

O grupo começa a cantar. As vozes se elevam suaves, acompanhadas pelo violão de Menslike e pelo piano de William. É nesse clima que Bunnym surge pelo portão, acompanhado de sua mãe, Sasha e Joaquina. Healer se apressa em recebê-los. 

Bunnym toca o próprio cavanhaque com orgulho infantil. 

— Viu que eu vim? E trouxe companhia. 

Healer sorri, mas ergue a sobrancelha e pergunta. 

— Mas você não ia trazer amigos? 

Bunnym coça a cabeça, um pouco constrangido. 

— Então, eu ia trazer meus amigos, mas o Marquinho não gosta muito de religião, na verdade, a mãe dele não gosta, o Dutra está com os irmãos doentes e meus irmãos, eles são sem futuro. Já meu pai, trabalha hoje! — Lamenta Bunnym. 

A voz dele mistura frustração e esperança teimosa. Ele fez o que pôde. 

Algum tempo antes, na casa dos Silvester 

O ambiente é apertado, o cheiro de remédio e comida simples domina a cozinha. Bunnym encara os irmãos com fervor. 

— Vamos, poxa, é a hora de agradecermos o milagre de Deus em nossas vidas! — Pede ele. 

Asfalto, magro, de olhar sério e cético, cruza os braços. 

— Milagre de Deus em sua vida, na minha não mudou nada. 

Gabi, mais robusto e saliente, recosta-se na cadeira, indiferente. 

— Eu já agradeci, Deus está no céu e me ouve daqui. Eu não preciso ir a nenhum lugar para agradecer. 

Asfalto concorda, reforçando: 

— Verdade, cuidado para não idolatrar esses caras e, além disso, nossos pais que deveriam ir com você. 

Bunnym respira fundo. 

— O papai está trabalhando e a mamãe vai comigo. 

O silêncio que segue diz mais do que qualquer discussão. Nem todos caminham na mesma velocidade. 

Agora, casa de William. 

O céu escurece lentamente. Pequenas lamparinas começam a ser acesas ao redor do quintal. 

Sasha aproxima-se de Healer, ainda carregando em si a memória dos irmãos febris. 

— Será que o Madm pode visitar a casa do Dutra após a reunião? — Pergunta, Sasha. 

— Acho que sim. — Responde Healer. — Mas não é Madm quem cura, é Elohim, o Criador. Madm é apenas um veículo do poder de Yhwh. 

Bunnym, que escuta, acrescenta: 

— O Dutra estava vendo para interná-los amanhã. 

Healer pondera por um instante. 

— Se eles já vão para o hospital, acho que não precisa de nossa visita. 

As palavras não são frias. São práticas. Mas deixam no ar a tensão entre esperança e necessidade. 

A noite desce de vez. Nokram se posiciona à frente do grupo. Sua voz jovem carrega uma firmeza surpreendente para sua idade. 

— Existem quatro tipos de pessoas que se relacionam com Deus. O primeiro, infelizmente o mais comum, é Kayn. Ele se achava o escolhido para tirar o pecado da humanidade, ungido para a redenção, mas se tornou egoísta, cometendo o assassinato de Hevel. 

Let cutuca Menslike com leve provocação. 

— Seu irmão fala bem. Quando vamos ouvir você ministrando as escrituras? 

Menslike sorri, meio sem graça. 

— Já que pediu, na próxima reunião mesmo! 

Nokram prossegue: 

— O segundo tipo é Hevel, humilde e justo, mas perseguido e morto. Um arquétipo de Yeshua e seus discípulos. 

Enquanto ele fala, mais homens chegam pelo portão, atraídos pela curiosidade crescente em torno da casa de William. 

Felicity escuta atentamente. Seus olhos brilham sob a luz das lamparinas. Ela se inclina para Blue Mary. 

— Por que os justos morrem e os perversos têm sucesso? 

Amada, que ouve a pergunta, responde com suavidade firme: 

— O sol nasce para todos! Yhwh é justo, mas sua justiça não é simétrica. Hevel viveu feliz, mesmo que brevemente. 

Nokram continua: 

— O terceiro tipo é Shet, que, notando-se como um pecador, buscou a justiça e a sabedoria, por isso, sua descendência foi poupada no dilúvio… O quarto é Lamech, que se arrependeu, e sua filha Naamah se casou com Noach. 

Felicity insiste, ainda inquieta: 

— Se Deus é bom, por que destruiu tudo? 

Amada se aproxima, baixa a voz, quase maternal. 

— Quando os maus oprimem, Deus age, mas Lamech foi perdoado para preservar a humanidade. 

Nokram então encerra, olhando cada rosto à sua frente: 

— Resumindo, Deus perdoa a todos, menos quem se acha justo. 

O vento atravessa o quintal. As lamparinas tremulam. E cada pessoa ali guarda sua própria resposta em silêncio. 

17.14. A igreja vazia

Igreja Evangélica Pentecostal do Pastor Paulo – Ponta Porã. 

Se entre os católicos a influência dos escolhidos e enviados entre seus fiéis é apenas um temor, na Igreja Evangélica do pastor Paulo, as portas de madeira rangem levemente ao vento noturno. Diferentemente do que ocorre na casa de William, onde um enorme grupo se reúne ao ar livre, o salão simples, iluminado por lâmpadas brancas, permanece quase vazio. Fileiras de cadeiras de plástico azul, organizadas com zelo, aguardam corpos que não vieram. O púlpito, elevado por dois degraus, observa em silêncio o espaço deserto. 

Guerra, Fortaleza, Vanda, sua mãe e Faustão ocupam apenas a primeira fileira. Cinco pessoas em um salão preparado para cinquenta. 

Faustão olha o relógio no pulso. Depois encara o púlpito. 

— Vamos começar, pastor. — Sugere, em tom respeitoso, mas prático. 

O Pastor Paulo permanece de pé ao lado do púlpito, segurando a Bíblia com firmeza. Seus olhos percorrem o salão mais uma vez, como se esperasse que alguém ainda surgisse pela porta. 

— Vamos esperar mais um pouco. — Responde. — Os irmãos costumam chegar atrasados… talvez hoje tenham tido dificuldades. 

Vanda cruza as mãos sobre o colo. 

— Nem a irmã Tainara veio… — diz, em voz baixa. — E mesmo com os dois filhos doentes, ela nunca deixa de estar na casa do Senhor. 

O pastor suspira. Seu tom muda, tornando-se mais pastoral. 

— A família Dutra está tentando vaga no hospital de Dourados. — Explica. — Estão lutando pela vida dos filhos. Vamos orar por eles. Hoje, eles não virão mesmo. 

Um silêncio breve se instala. 

Fortaleza observa as cadeiras vazias e deixa escapar, sem intenção de ferir, mas incapaz de ocultar o fato: 

— Acho que não vem mais ninguém… todos estão na casa de William. 

A frase paira no ar como uma lâmina invisível. 

A mãe das meninas ergue o rosto. Seus olhos não expressam raiva, mas firmeza convicta. 

— Mas nós estamos aqui. — Declara. — Não vamos nos deixar enganar por quem nega os ensinos de Jesus. 

O Pastor Paulo a observa por um instante. Há gratidão em seu olhar, mas também algo mais profundo: alívio misturado à responsabilidade. 

— Verdade, irmã Laodiceia. — Diz. — Obrigado. 

Laodiceia se inclina levemente para a frente e sussurra, quase como quem compartilha uma confidência: 

— De nada, pastor… mas me chame de Lao. 

Ele sobe os degraus do púlpito. Coloca a Bíblia sobre a madeira. Ajusta o microfone, mesmo sem necessidade. Gesto automático de quem foi treinado a pregar para multidões — ainda que hoje fale para cinco. 

— Irmãos… — Começa. — O Senhor disse que nos últimos dias muitos se levantariam falando em Seu nome, mas trazendo outro evangelho. Um evangelho que confunde. Um evangelho que divide. Um evangelho que coloca de volta jugos que Cristo já quebrou. 

Ele abre a Bíblia. 

— Hoje, nossa igreja está pequena em número. Mas não pequena em fidelidade. 

Vanda baixa a cabeça. Guerra fecha os olhos. Faustão permanece atento. 

O pastor continua: 

— Não seguimos homens. Seguimos a Palavra. E a Palavra diz que Jesus é o Filho eterno, um com o Pai e o Espírito. Quem nega isso, não traz luz — traz sombra. Mesmo que fale manso. Mesmo que pareça piedoso. 

A mãe das meninas aperta as mãos com força. 

O Pastor Paulo sorri de leve, sem interromper o fluxo da pregação. Pequeno gesto humano em meio a um combate invisível. 

Ele fecha a Bíblia devagar. 

Seus olhos passeiam pelas cadeiras vazias, parando na terceira fileira à esquerda – o lugar onde Tainara sempre sentava com os filhos. Hoje, silêncio. Ele respira fundo e tenta se concentrar em seu sermão, para que ninguém perceba seu temor. 

Lao aperta a mão de Vanda pensativa: “Temos que fazer algo para que aqueles homens da casa de William não roubem nossas ovelhas, a casa do Senhor não pode ficar vazia”. 

Guerra olha para a porta, como se ainda esperasse alguém entrar e em seguida, seus pensamentos a lembram da afinada voz de Nokram, entoando o cantico pela manhã. Do lado de fora, o vento sacode a placa da igreja. O som metálico ecoa contra a parede. Dentro, cinco pessoas cantam um hino escrito para cem vozes. E, em algum ponto da cidade, a casa de William segue cheia de pessoas sedentas de ouvirem outras palavras, lendo as Escrituras e invocando o nome do Eterno, impressionados com coisas que nunca se atentaram anteriormente. 

O conflito não é de espada. É de narrativas. Católicos e evangélicos começam a perceber que os escolhidos e enviados têm que ser combatidos, ou sua influência será menor onde eles se tornarem conhecidos. 

17.15.  A ingenuidade de Jady. 

Residência de Thomaz Muller

A noite avança em Ponta Porã sob o céu de Ponta Porã. Enquanto católicos e evangélicos temem sob a influência dos escolhidos e enviados sobre seus seguidores, no quarto principal da casa de Muller, a luz amarelada do abajur repousa suave sobre a colcha bem esticada, os móveis de madeira escura, o crucifixo pendurado acima da cabeceira, marcas do tradicionalismo conservador de Thomas Muller. 

Em sua cama, ele repousa de costas com as mãos cruzadas sobre o peito. Seu olhar está aberto, fixo no teto. Não há inquietação visível — apenas cálculo já concluído. 

Jady está ao seu lado, abraçando-o por trás, com o rosto encostado em seu ombro. Seu abraço é quente, confiante, sincero. Ela respira tranquila, como quem finalmente acredita que um problema foi resolvido. 

Depois de alguns segundos de silêncio, sua voz surge doce, quase sussurrada: 

— Fiquei feliz com sua atitude. — Diz ela. 

Muller pisca lentamente. Não responde de imediato. Apenas inspira fundo, como quem confirma internamente que a encenação foi aceita sem rachaduras. 

Jady continua, ainda envolvida nele: 

— O Duck é jovem, Kilba também. Você pode adotar o filho e ela trabalhará tranquila. 

A frase sai simples, prática, sem suspeita. Para ela, é solução. Para ele, é a confirmação de que o plano se encaixou perfeitamente. 

Mas Jady ergue levemente a cabeça, franzindo o cenho, como se um resquício de justiça brotasse em sua consciência: 

— Mas ele deveria assumir a criança. Ser responsável. — Cogita, ela, com firmeza inesperada. 

Por um instante, o quarto parece mais frio. 

Muller fecha os olhos. Não há raiva, nem pressa. Apenas a serenidade de quem já antecipou essa objeção. 

Ele fala em tom baixo, seguro, definitivo: 

— Se ele assumir, ela não nos doará a criança. 

A resposta cai no quarto como uma sentença. Simples. Lógica. Irrefutável dentro da moral que ele mesmo construiu. 

Jady não percebe a perversidade da equação. Apenas volta a descansar a cabeça em seu ombro, satisfeita por acreditar que tudo está sendo feito para o bem de todos. 

Ela o abraça mais forte, como quem sela uma aliança: 

— Verdade, deixa os jovens agirem e a gente ser feliz! 

Muller não responde. Não precisa. Seu rosto permanece imóvel, sereno, enquanto a lâmpada lança sombras longas sobre o crucifixo na parede. 

Do lado de fora, o vento cessa. 
A noite enfim se aquieta. 

E dentro daquela casa, uma mentira completa em sua forma final — tão confortável, tão organizada, que agora pode até dormir em paz. 

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