18.1. A queda de Adam.
Jardim do Éden, 14º dia do 1º mês do 8º ano da vida na Terra.
Em meio ao canto dos pássaros, Adam ajoelha-se ao lado de uma jovem árvore. Seus dedos afastam a terra com cuidado, ajeitando a raiz que desponta. Ele sorri levemente, satisfeito ao ver o broto firme. Ao lado dele, dois cervos observam em silêncio. Um deles se aproxima, roça o focinho em seu ombro. Adam afaga o animal sem dizer palavra.
Tudo está em ordem. Uma luz semelhante à que envolveu os Escolhidos e Enviados quando entraram em contato com os seres celestiais o envolve.
Ele se levanta, limpando as mãos, observa o horizonte verde que se estende até onde a vista alcança. O jardim inteiro responde à sua presença. É seu encargo. Seu lar.
— Cresçam fortes. — Diz à árvore e aos animais, em tom sereno.
Então, ele ouve passos em sua direção, aos quais ele reconhece apenas de ouvir. Chawah caminha em sua direção. Ele franze o cenho.
— Chawah…?
Ela para diante dele. Não há mais o fulgor que antes a envolvia como bruma suave. A pele dela agora se mostra nítida, real, delineada. Adam sente o vento tocar o próprio corpo — e percebe algo que jamais havia percebido.
Ele baixa os olhos.
— Você… — Sua voz falha, seus pensamentos constatam, a luz que outrora a envolvia não está mais sobre ela, mas seu corpo é belo, apaixonante.
Adam a encara. O coração bate diferente. Não há inocência naquele olhar. Há impulso. Curiosidade. Um calor que não existia antes.
— Você está… — ele interrompe a própria frase, confuso — …diferente.
Chawah aproxima-se. Em sua mão, o fruto proibido. Ainda há marcas de diversas mordidas sobre ele.
Ela fala com voz macia:
— Adam… eu comi.
O homem recua um passo.
— Você fez o quê?
— Eu comi do fruto da árvore que está no centro do jardim.
O rosto dele endurece.
— A árvore que Elohim proibiu?
Chawah ergue o fruto.
— Sim.
Adam respira fundo. O vento passa entre as folhas. Ele fecha os olhos — e a memória se ergue como eco.
“No dia em que dele comeres, certamente morrerás.”
A frase do Eterno ressoa dentro dele.
Adam abre os olhos. A voz treme:
— Você comeu… e ainda está viva.
Chawah inclina a cabeça.
— Estou.
O silêncio que se segue os faz ignorar todos os lindos sons que outrora ressoavam. Ele anda alguns passos, inquieto. Suas mãos vão à cabeça.
— Durante toda uma semana inteira… — ele fala consigo mesmo — …quando nomeei cada criatura… nenhuma era como eu. Nenhuma era bela como ela. Nenhuma caminhava ao meu lado.
Ele olha para ela.
— E então você veio. Perfeita para mim. Minha companheira. Minha igual.
Chawah se aproxima mais.
— Eu continuo aqui, Adam.
Ele a encara. A imagem dela o invade. O aroma de sua pele. O brilho de seus olhos. Algo nele deseja tocá-la, possuí-la, nunca deixá-la partir.
— Se você morrer… — ele sussurra — …eu não quero viver sozinho novamente.
Chawah estende o fruto.
— Adam…
Ele levanta a mão, hesita.
— Por que fez isso? — Sua voz sobe. — Por que comeu do fruto que Elohim proibiu?
Chawah respira, agora falando mais rápido, como se pensamentos novos transbordassem.
— Porque não era verdade.
— Como assim? — Ele pergunta.
— A serpente disse que não morreríamos. Disse que Elohim não queria que fôssemos sábios.
— E você acreditou?
Chawah ergue o fruto outra vez.
— Eu comi. Não morri. Então… — Então, Adam… — ela toca o braço dele — …pode comer também. Veja. Não morrerá.
Adam sente o mundo girar.
Ele sabe que é errado.
Sabe que a morte está à porta.
Mas a ideia de perdê-la é insuportável.
— Sem você… — ele diz — …o jardim inteiro seria vazio.
Chawah segura sua mão e promete:
— Você nunca vai ficar sem mim, meu amor.
Adam fecha os olhos. Quando os abre, já tomou sua decisão.
— Se este é o fim… — ele diz — …que seja juntos.
Ele pega o fruto da mão dela.
Chawah observa, sem respirar.
Adam morde.
O silêncio assombra suas mentes, o vento para, a luz que envolvia Adam se apaga como lâmpada subitamente extinta.
Chawah dá um passo para trás.
— Adam… — sua voz treme — …sua luz…
Ele olha para si mesmo. Seu corpo agora é exposto, vulnerável, comum.
— O que fizemos…? — Indaga ele.
O céu escurece.
Um trovão rasga o firmamento.
A terra estremece sob seus pés.
Chawah cobre o próprio corpo com os braços.
— Ele virá… — ela sussurra — …Elohim virá…
Adam olha ao redor. O jardim, antes morada segura, agora parece vasto e ameaçador.
— Precisamos sair daqui.
Ele corre.
Sem olhar para trás.
Chawah o segue, ofegante.
— Adam! Espere!
O homem não responde. Seus olhos agora carregam medo bruto. Não há ternura. Não há união. Apenas instinto de fuga.
Chawah corre atrás dele, insegura, tremendo.
— Se Ele me encontrar… — ela diz entre lágrimas — …Ele me matará…
O som de novos trovões ecoa atrás deles.
E o jardim, pela primeira vez desde sua criação, conhece o som da fuga.
18.2. A queda do Dragão.
Fronteira entre o Império Otomano e Valáquia, 1447.
Cinquenta e cinco séculos após a queda de Adam, o exército otomano avança como uma torrente de aço, botas esmagando a terra lamacenta do leste europeu. O ano católico é 1447, e a Valáquia, coração da resistência cristã, aguarda sob um céu carregado de nuvens negras, como se a terra pressentisse o sangue iminente. O clangor das armaduras, o relinchar dos cavalos e o gemido do vento cortante misturam-se ao cheiro acre de suor e ferro.
No meio das fileiras, Vlad, filho de Vlad II, Dracul, marcha com passos firmes e coração em chamas. Aos quinze anos, ele não é mais o menino assustado de Constantinopla, mas um jovem forjado por cinco anos de cativeiro, seus olhos ardem de determinação e segredos. Ao seu lado, Radu caminha com leveza traiçoeira, sua armadura reluz, capturando a luz fraca. À frente, Mircea lidera com a altivez de um herdeiro, seu vulto destaca-se no horizonte.
O discurso de Mircea ainda ecoa na mente de Vlad como uma lâmina. Ele se inclina para Radu, sussurrando com desprezo:
— Esse idiota se vendeu! Mal sabe que hoje nos vingaremos das dores dos últimos cinco anos!
Radu desvia o olhar, temendo ser ouvido. Ao redor, guerreiros valáquios ex-prisioneiros murmuram apoio:
— Estamos com você na defesa de nossa terra, príncipe.
Vlad aperta a cimitarra, os nós dos dedos embranquecem. “Eles confiam em mim, como eu confio na Virgem Maria,” pensa, erguendo a voz, baixa, mas firme:
— Mantenham-se perto de mim! Nos rebelaremos dentro de nosso território, diante dos guerreiros de meu pai.
Os homens assentem, com faces endurecidas, por esperança e medo. Vlad sente o peso da liderança e a chama da vingança. “Cinco anos de chicotes, humilhações, promessas falsas de Alá”, reflete ele, enquanto o vento emaranha seus cabelos negros. “Hoje, os otomanos pagarão.” Pensa ele, enquanto imagina a capela de Târgoviște e jura voltar livre.
À frente, o sultão Mehmed II chama Mircea. O primogênito se aproxima e o sultão proclama:
— Hoje, você comandará a batalha e vingarás teu pai. Vlad II honrou o acordo, foi morto por Corvinus. Você o vingará e será voivoda pela autoridade otomana!
Mircea inclina a cabeça, seus olhos brilham com orgulho e dor. “Morto? Meu pai, traído por Corvinus?” Pensa, referindo-se a João Hunyadi, o Corvo, líder cristão da Hungria, contra os otomanos.
Vlad, distante, observa a subserviência de Mircea, sua raiva cresce. Dias antes, o castelo de Târgoviște caiu ante Hunyadi, que acusou Vlad II de traição por revelar segredos para salvar os filhos. Vlad II escapou, mas Hunyadi nomeou Ladislau II como voivoda. A notícia inflamou Mircea, que acredita na traição cristã.
O exército avança, as colinas de pinheiros trazem o aroma de resina. Mircea cavalga ao lado do sultão, sonhando vingar o pai. Vlad marcha, planejando a rebelião. “Mataremos os hereges e me curvarei a Deus na capela,” pensa, tocando o espaço vazio do crucifixo. Um trovão ressoa e ele murmura uma oração à Virgem Maria, guiado pela certeza de lutar por sua terra, mesmo contra os irmãos.
18.3. Renfield no castelo do senhor dos ciganos.
Transilvânia, final do século XIX.
Quatro séculos e meio após Vlad Tepes cavalgar em direção a sua terra natal, o inglês Frank Renfield, 59 anos, após descobrir que possui uma doença grave, aconselhado por uma bruxa, decidiu buscar a cura em um isolado castelo localizado na Transilvânia.
Em meio a neve comum no inverno, Renfield se aproxima do sombrio castelo, chegando ao mesmo ao pôr do sol. Sem medo, Renfield bate à porta.
Como em primeiro momento ninguém a abre, ele tenta força-la, sem sucesso.
_Droga, só falta não haver ninguém aqui.
Insistentemente, Renfield bate diversas vezes na porta, mas ninguém o recebe.
Após alguns minutos, ele vira de costa para a porta e se assenta, lamentando em seus pensamentos: “Será que meu destino é a morte? Vim de tão longe para morrer a porta da minha salvação?”
Renfield está prestes a chorar, quando ouve uma doce voz feminina:
_ Está frio, moço, o senhor está sozinho? _ O ouvir da voz da jovem para Renfield é como o ouvir da voz de um anjo. Ele imediatamente se levanta e olha para a moça pálida, de cabelos loiros e fica sem saber o que dizer. _ Sou Greta, o senhor fala minha língua? _ Pergunta a mulher em romeno.
_Sim! Quer dizer, não muito bem, mas estudei o necessário para vir para esta terra. _ Responde ele.
Após um doce sorriso, a jovem estica sua mão e diz:
_ Não recebemos muitas visitas, o senhor quer entrar? Está frio, não está?
_ Claro! Claro! _ Responde o homem, que também sorri.
Renfield adentra o castelo acompanhado pela jovem sorridente que parece viver como uma princesa. Cantarolando em alemão, a moça mostra sua linda voz, o que chama atenção do homem, que, porém, decide ser mais direto:
_ A senhorita mora aqui com seu esposo ou com seu pai?
A pergunta de Renfield muda a expressão da jovem que para de cantarolar, sorri e indaga:
_ Quem é o senhor para saber sobre mim?
Percebendo que sua pergunta não foi bem recebida pela moça, Renfield, se desculpa:
_ Perdão, eu apenas utilizei a mesma como pretexto para perguntar do proprietário do lugar.
_ O senhor é comprador? Se for, aviso que este lugar não está à venda. _ Responde a moça.
Antes que Greta prossiga, uma outra voz feminina é ouvida da escada, esta, não tão dócil e não tão simpática.
_ O senhor Renfield é nosso convidado Greta, ele veio nos procurar por um bom motivo, estou errada? _ Diz Morgana.
As palavras da mulher de voz firme chamam a atenção de Renfield, que se surpreende ao observar que a mulher sabe seu nome.
_ Como a senhora sabe meu nome?
_ Senhora? Você chamou Greta de senhorita. Eu sou tão mais velha do que ela? _ Rebate Morgana.
_ Não! Perdão! Sou um forasteiro com modos inadequados, por favor, me perdoem. _ Diz Renfield.
_ Seu romeno é muito ruim moço, você pode falar em inglês! _ Diz outra jovem, esta, de longos cabelos negros, mas pele não menos pálida e branca que as duas outras.
Ela adentra o recinto, advinda de uma outra parte da casa e falando em inglês, com um leve sotaque em francês.
_ Você fala minha língua? _ Indaga Renfield.
_ Todas entendemos e falamos francês, alemão, romeno, inglês e outras línguas, mas preferimos falar em romeno, que é a língua de nosso Lord. _ Responde Louise.
_ Fico feliz por estar entre sábias mulheres, mas já que a senhorita comentou sobre seu Lord, o senhor dos ciganos, proprietário deste lugar, será que eu consigo falar com ele?
_ Difícil! _ Responde Morgana, de forma sucinta e direta.
_ Mas possível! _ Comenta Greta.
_ O que o senhor gostaria de comentar com o nosso Lord, a quem se refere como o senhor dos ciganos? _ Indaga Louise.
_ Seu sotaque, eu percebi, você é francesa! _ Afirma Renfield.
_ Fui descoberta. _ Confessa Louise.
_ Sobre sua indagação, minha vida depende deste encontro com o seu senhor. Ele está no castelo ou está em viagem? _ Indaga Renfield.
A indagação de Renfield provoca uma imensa gargalhada de Morgana, que afirma:
_ O Lord? O Lord nunca viaja!
_ Que ótimo, será que ele pode me atender? _ Pergunta Renfield.
_ Vamos tentar marcar uma audiência, mas como o sol já se pôs, o senhor não aceita levar suas coisas para um de nossos recintos e repousar um pouco? _ Sugere Louise.
_ Claro, claro, será uma honra! _ Concorda Renfield.
18.4. Os questionamentos de Dhalsim.
Caverna de Varuksha, Índia — 1943
Meio século após a chegada de Renfield no castelo de Brașov, na Valáquia, Dhalsim fica frente a frente com o gênio que libertou. A chama diante dele não se move como fogo comum, ela respira.
Dhalsim sente o calor, mas sua pele não queima — é sua consciência que se aquece, como se cada pensamento fosse exposto diante da entidade. O coração bate lento, disciplinado, mas há algo novo ali: não medo, não fé — responsabilidade. Ele veio até aquele lugar por causa de sua aldeia. Não pode errar.
Os olhos incandescentes do Jinn o observam sem piscar.
A entidade não se impacienta. Espera. Como quem sabe que o tempo sempre pertence a ele.
Dhalsim inclina levemente a cabeça, em respeito — não submissão.
— Você é realmente o Jinn… o gênio preso por Brahma por não se curvar à criação? — pergunta, em voz firme.
O fogo ondula.
A entidade parece sorrir sem mover o rosto.
— Brahma? — A voz vibra, como metal aquecido. — Você acha que Brahma me prendeu?
Dhalsim respira fundo. A calma não é ausência de tensão — é controle sobre ela.
— Pelo que sei, tudo que existe provém do ato de criação. O que não se curva ao ciclo, rompe o Dharma. Se você foi preso, houve causa. — Ele mantém o olhar. — Se não foi Brahma… então quem?
O Jinn não responde de imediato. Em vez disso, inclina-se levemente.
— Você deseja ser sábio, meu senhor. Qual seria sua graça?
Dhalsim entende a intenção.
Ele pensa por um instante.
— Direi meu nome se você disser o seu.
O Jinn solta uma breve expiração quente — quase uma risada contida.
— Não sabe quem sou? Se não sabe quem sou… por que esfregou a lâmpada e me libertou?
Dhalsim não hesita.
— Eu sei quem você é e o que é. Também sei o que deve fazer para recompensar minha ação. Mas terá prejuízo em dizer seu nome? Não foi Brahma quem o prendeu por sua rebeldia contra a humanidade?
A chama se contrai.
Pela primeira vez, o Jinn pondera.
Ele leva uma mão ao queixo, como um homem refletindo.
— Por que quer saber meu nome? — Pergunta. — Acha mesmo que, ao conhecê-lo, ganhará poderes ocultos e sobrehumanos?
Dhalsim responde sem desviar o olhar.
— Quem recusaria ter poderes sobrehumanos, à semelhança dos deuses? Mas minha esposa me falou de um rei antigo… Sulayman. Disse que ele conheceu o nome de um como você… e controlava o ar e até os deuses. Não sei se foi você… ou alguém de sua espécie.
O Jinn se endireita.
O fogo cresce alguns centímetros.
— Não fui eu. Foi meu pai. — Sua voz agora é mais baixa. — E sim… Sulayman foi servido por ele. Foi bondoso conosco. E eu nasci naquele tempo.
Dhalsim franze levemente o cenho.
— Sério? Como assim?
O fogo se expande.
A caverna desaparece.
Reino de Israel — um milênio antes de Cristo
O vento atravessa pátios abertos de um palácio de pedra clara sob o sol.
Um homem de vestes reais segura uma lâmpada semelhante à de Varuksha. Ao seu redor, soldados e escribas mantêm distância — sabem que ali opera algo que não compreendem.
O rei esfrega o metal antigo.
O fogo sobe.
Uma entidade semelhante à que Dhalsim vê surge, mas não é a mesma, este é o ser que foi preso por Helel Ben Shachar no Éden.
O rei observa o ser em silêncio, com autoridade tranquila.
— É você o gênio preso por Yhwh por não se apresentar à humanidade quando Adam nomeava as criaturas da Terra?
A chama pulsa, o gênio contempla o rei e responde sem hesitar:
— Eu o sou, meu mestre! Como posso serví-lo!
18.5. O temor dos Escolhidos.
Sorveteria de Ponta Porã.
Noite de sábado, 30 de março de 1963.
6ª noite dos Escolhidos e Enviados na nova realidade.
Duas décadas após o encontro de Dhalsim com o gênio, Let e Menslike decidem sair para se distraírem em uma sorveteria de Ponta Porã.
Dentro da sorveteria, Menslike observa a porta de vidro que se fecha com um tilintar leve. O ventilador no teto gira devagar, empurrando o ar quente da noite. O balcão iluminado expõe fileiras de sorvetes coloridos. Baunilha, chocolate, coco. O cheiro doce domina o ambiente.
Let escolhe seu sorvete, Menslike a observa, tão bela, cada gesto leve e dócil, devidamente apaixonante. Após servirem seus deliciosos sorvetes, eles se sentam em uma mesa ao canto. O metal da colher encontra o vidro do copo. O som ecoa pequeno, cotidiano, quase tranquilizador.
Let prova o sorvete. Frio na língua. Ela fecha os olhos por um segundo.
— Você sempre fala com tanta firmeza sobre Deus… — diz, abrindo os olhos. — Mas eu quase não sei nada sobre você antes de tudo isso.
Menslike gira a colher sem comer.
— O que quer saber? — Pergunta.
Let apoia os cotovelos na mesa. O tom muda, agora direto, sem retorno.
— E na sua antiga vida… você não tinha filhos? Não se casou?
A colher para.
Menslike não olha para Let. Olha para um ponto vazio no ar. O ventilador continua girando. O rádio distante toca uma música romântica qualquer. Nada muda fora dele — mas dentro, tudo muda.
Ele respira fundo. A memória vem inteira: o abraço apertado, o peso de um corpo pequeno, a sensação de quase ter ficado no céu tempo suficiente para nunca mais voltar.
A voz sai baixa, ferida.
— Tive um filho… — diz. — Mas ele morreu na perseguição contra quem parecia com Israel. A morte dele foi o que me levou a me integrar ao grupo.
Let engole em seco.
— Como assim?
Menslike pousa a colher. As mãos agora estão imóveis.
— Eu sempre temi o Nome do Eterno. Guardava a shabat. Guardava os mandamentos. — Ele faz uma pausa. — Mas me dedicava mais à política, a diversão e às mulheres.
Let franze a testa.
— Você fala como se isso fosse uma queda.
— Porque foi. — Responde ele.
O ventilador range. O sorvete começa a derreter.
— Eu casei jovem. Não tive filhos. Depois enriquecemos. Sustentava mulheres. Sempre tive azar. As que me agradavam não eram fiéis. Eu sofria. Repetia, me divorciava.
Let pisca, surpresa.
— Caramba… mas isso não é pecado?
Menslike concorda.
— Sim. Mas poderia não ser. A Escritura não condena múltiplos relacionamentos quando há consentimento, respeito e provisão.
Let solta a pergunta antes de pensar:
— Então eu posso ter vários relacionamentos?
Menslike sorri de leve.
— Não.
Ele se inclina um pouco à frente.
— O casamento é consequência da queda. Os animais não se casam. Os seres celestiais fiéis não se casam. Amor é livre entre eles. Mas na Terra, a mulher foi colocada sob o jugo de um único homem, porque Chawah induziu o homem ao erro.
Let sente o rosto aquecer. Ela acredita. E justamente por acreditar, sente-se deslocada. Miguel. Menslike. Duas pontes se cruzando onde não deveriam.
Ela muda o rumo antes de se perder.
— E seu filho?
O sorriso de Menslike retorna — mas agora vem com lágrimas contidas.
— Ele era diferente de mim. A mãe queria abortá-lo. Não me amava. Não queria se casar. Eu paguei para ela tê-lo… e depois me entregá-lo.
Let não encontra reação. Apenas escuta.
— Quando segurei aquele menino, mudei. Tornei-me muito mais fiel. Não tive mais mulheres. Fiquei sozinho. E meu filho… Yehoash…
O nome pesa na mesa.
— Quando começou a perseguição contra judeus e quem parecia Israel… ele tinha nome de judeu, guardava a shabat, não comia carne de porco. Foi capturado. Condenado. E porque o nome dele significa “fogo de Yhwh”… decidiram queimá-lo vivo.
Let cobre a boca com a mão.
O ventilador continua girando. A música do rádio muda. O mundo segue indiferente.
— A morte dele nos acordou. Fugimos. Foi uma dor que não cabe em palavra.
Silêncio.
Menslike então pergunta:
— Você se lembra da mensagem de Nokram hoje?
— Sim. — Responde Let, quase sem voz.
— Meu filho foi como Hevel. Eu… eu fui do quarto grupo. Sempre tropeçando. Principalmente na juventude.
Let estende a mão. Toca os dedos dele. Um gesto simples. Necessário.
Menslike aceita o toque. Respira.
Nada mais precisa ser dito.
Residência de William
Enquanto isso, na residência de William, as lamparinas acesas no quintal estão fracas. O chão guarda marcas de passos recentes. O vento leve balança as folhas.
Luk está sentado contra a parede. Olhos fixos. Corpo imóvel.
Madm aproxima-se. Senta ao lado.
— O que te aflige, meu irmão?
Luk não olha para ele.
— Estava lembrando da perseguição. — Diz. — E pensando… se todos souberem o dom que Deus te deu, teremos problemas.
Madm responde sem hesitar:
— Deus nos protegerá.
Luk finalmente o encara.
— Ele sempre protegeu. Mas permitiu mortes. Até o filho do Menslike.
Ambos olham para Bebeto.
Bebeto não fala. Mas sua presença carrega memória suficiente, o garoto ressurreto não chegou a crescer porque morreu enquanto criança.
Madm volta-se para Luk.
— O que você sugere?
— Não contar a verdade a mais ninguém. Nossa origem, nossas experiências… guardadas apenas entre nós. E os milagres que Deus fizer… omitidos.
Madm pensa e concorda.
— Vamos alinhar uma história única. Amigos da Let, da Inglaterra. Documentos perdidos. A verdade fica entre os próximos.
— Foi o que pensei. — Diz Luk.
Madm o abraça.
— Menslike está com Let. Amanhã nos reunimos.
Luk respira mais leve.
A noite continua. A missão é inspiradora, mas os riscos são reais. É preciso sobreviver e vencer!
18.6. A chave do engano.
Delegacia de Polícia de Ponta Porã, popular domingo, 31 de março de 1963, no calendário católico.
O cheiro de madeira antiga e papel amarelado se mistura ao calor preso nas paredes. A sala é simples, mas carregada de autoridade: uma mesa grande ao centro, duas cadeiras, um armário com pastas e um ventilador que gira preguiçoso, empurrando o ar sem aliviar o peso do ambiente. Do lado de fora, o rumor distante da cidade chega abafado, como se a delegacia existisse num mundo próprio, onde o tempo anda mais lento e as decisões custam mais.
De um lado da mesa, o Major Ringo se recosta com a calma de quem já viu casos demais para se apressar. Ele tem a expressão firme e serena; o rosto traz aquele equilíbrio raro entre dureza e simpatia, como se estivesse sempre a um passo de um sorriso que não se oferece de graça. Ele acende o charuto com paciência, a chama do fósforo refletindo nos olhos atentos.
Do outro lado, o investigador Max Kohls permanece sem fumar. Postura reta, mãos controladas, olhar frio. Ele parece estar sempre medindo distância: entre pessoas, entre palavras, entre o que é dito e o que é escondido. A presença dele não pede licença; ocupa.
Ringo traga, solta a fumaça devagar e indaga:
— Devo te parabenizar por solucionar o caso tão rápido, Investigador Kohls?
Kohls sorri, sem calor, e afirma:
— Fiz só o meu trabalho, major.
Ringo traga seu charuto mais uma vez e indaga:
— Me perdoe pela invasão, mas como o senhor solucionou o caso tão rápido?
Kohls mantém o olhar firme por um instante, como se escolhesse por onde começar. E, quando fala, sua voz não tem pressa. É o tipo de voz que encaixa as peças com a tranquilidade de quem já sabe o desenho final.
— Como eu estava te contando, Major, após a visita à casa de Carmen, quando ouvi a fala da irmã de Dourado, eu presumi que Stanley era o culpado, era só somar dois mais dois, porém, antes de solicitar o mandado ao juiz de plantão, eu decidi voltar a interrogar Chompiras mais uma vez:
A fumaça do charuto sobe como um véu e, por um instante, o ambiente parece se dissolver.
Tarde anterior.
A sala de interrogatório é menor, mais abafada, mais cruel. Há uma mesa simples, uma cadeira para o preso e outra para o investigador. A lâmpada no teto faz o rosto parecer mais pálido do que realmente é. O relógio na parede marca as horas com um tique-taque insistente que parece zombar de quem espera misericórdia.
Chompiras está sentado com os ombros caídos. A roupa amassada, as mãos inquietas, o olhar evitando o do investigador. Ele tenta parecer duro, mas o corpo o trai: é um homem encurralado por escolhas ruins e pelo próprio medo.
Kohls se inclina levemente para frente, a voz firme, controlada, como quem dá uma última chance antes de fechar a porta:
— Você já está preso, o Tripa Seca já disse que você é o autor de toda a trama do roubo ao banco, mas se você é inocente, é melhor contar tudo que realmente ocorreu, quem estava por trás de tudo. — Diz Kohls.
Chompiras abaixa a cabeça. A vergonha e a esperança brigam dentro dele, e a esperança quase sempre perde.
— O melhor não é eu confessar e ter pena reduzida por bom comportamento, já que sou réu primário? — Indaga Chompiras.
Kohls percebe a ingenuidade do ladrão como quem observa uma criança tentando negociar com um predador. Ele deixa o silêncio pesar por um segundo e então responde, com calma brutal:
— Com certeza, você vai ficar só uns cinco anos aqui, mas se alguém é o mandante, vai tentar te matar, uma vez que a qualquer momento você pode entrega-lo.
A palavra “mandante” corta o ar. Chompiras sorri, mas é um sorriso que não encontra força no rosto. Ele balança a cabeça negativamente, tentando se convencer do próprio argumento:
— Eu queria ter alguém para culpar, mas não há ninguém. — Afirma Chompiras.
Kohls insiste em desafiá-lo. Ele não se move emocionalmente. Apenas empurra a verdade na direção certa, como quem encosta uma lâmina na madeira para ver onde ela cede.
— Então, você utilizou a senhora Carmen como se fosse uma garota de programa, para ela se envolver com o Stanley Hipkiss, o funcionário do banco e conseguir com ele a chave do banco? — Indaga Kohls.
Chompiras se sobressalta. O choque é imediato. Ele gagueja, os olhos arregalados, como se tivesse sido acusado de um crime pior do que o roubo.
— Não, jamais! Nunca! Jamais faria isso! Ela era amiga do Ipikiss e roubou a chave, mas foi ideia dela. — Chompiras respira um pouco, pensa, percebe que entregou a garota que ama e corrige. — Digo, ela conseguiu a chave por acaso, eu roubei dela…
As palavras saem atropeladas, desesperadas. E quando ele vê Kohls balançando a cabeça negativamente, o pânico estoura. Chompiras suplica, como se o investigador fosse juiz e pai ao mesmo tempo:
— Por favor, não a incrimine, ela é só uma jovem ingênua, a gente ia casar.
Kohls observa. Não há compaixão no rosto dele, apenas cálculo. E então, como quem gira uma chave na fechadura da alma do homem, ele provoca:
— Ingênua? Você sabe que ela tem dormido todas as noites na cama de Ipikiss?
A frase cai como um tiro.
Chompiras empalidece. O mundo parece perder o chão por um segundo.
— Não, você está mentindo…
Ele tenta negar, mas a negação não encontra apoio dentro dele. O pensamento corre, procurando imagens, lembranças, qualquer coisa que o salve.
E as lembranças vêm.
Cinco dias antes
Carmen está sentada num canto de um quarto pequeno, a luz da lamparina desenhando sombras delicadas no rosto. Ela fala baixo, como quem divide um segredo que não pode tocar o mundo. Os olhos brilham, não de lágrimas, mas de urgência.
— Você diz que me ama… então, prove. Eu não nasci para viver embaixo de uma ponte. Eu quero uma casa, eu quero um nome, eu quero ser sua esposa.
Ela toca as mãos dele, devagar, como quem amarra um nó invisível, e prossegue:
— Você seria o marido perfeito… mas sem dinheiro não podem se casar.
A frase não soa como chantagem. Soa como destino.
Chompiras engole seco. Ele tenta sorrir, mas o sorriso falha. A cabeça dele baixa, como se aceitasse uma sentença.
Quatro dias antes.
Num lugar mais afastado, Carmen caminha ao lado de Chompiras numa rua de terra. A cidade parece longe. Ela fala com calma, desenhando o plano como se estivesse contando um sonho.
— Eles guardam tudo num cofre. E os homens do banco… acham que estão seguros. Eles são sempre os mesmos, não têm nenhum guarda à noite. Você entra sem fazer barulho, pega o que precisa e sai. Aí podemos ir embora daqui e ninguém dará falta de nós.
Ela olha para ele, firme, e prossegue:
— Ninguém se machuca. Você não é mau. Você só vai pegar o que é necessário… para nós. É dinheiro de usura, investido no nosso amor.
Chompiras hesita.
— Isso é coisa grande demais…
Ela sorri, e o sorriso dela não é de alegria. É de certeza.
— Grande demais é viver sem futuro.
Três dias antes.
Carmen se inclina sobre uma mesa com um pedaço de papel. Ela marca pontos, horários, portas. Sua voz fica mais baixa, mais íntima, como se o plano fosse um juramento.
— E se eu conseguir a chave para você? Vão perceber o crofe roubado, só os funcionários do banco serão suspeitos. Quando perceberem o que foi roubado, vamos estar longe daqui! Você só precisa ter coragem.
Ela aproxima o rosto dele, quase como um beijo que não acontece e suplica:
— Faz isso por mim. Por nós.
E naquele instante, Chompiras se sente importante. Necessário. Ele confunde manipulação com amor.
Sábado à tarde, durante o interrogatório de Kohls.
Chompiras pisca, sua mente e seus pensamentos voltam à sala de interrogatório como quem acorda de um pesadelo. O peito sobe e desce rápido. Ele olha para Kohls e tenta entender o próprio sofrimento.
— Não acredito…
Ele pensa alto, mais para si do que para o investigador. A voz sai quebrada.
— Você acha que ele a usou para me levar a roubar o banco para eles?
O silêncio que se segue é pesado. Kohls não responde de imediato. Ele deixa a dor trabalhar sozinha, porque sabe que dor é a melhor interrogadora.
Delegacia, popular domingo, de manhã.
A fumaça do charuto volta a existir. A mesa volta a ser mesa. Kohls encara Ringo e a narrativa se encaixa outra vez no presente.
Ringo franze o cenho, digere as informações como quem mastiga uma verdade incômoda. E então pergunta:
— E Chompiras não pode ter razão? Para mim, faz mais sentido que Ipikiss tenha a manipulado para que ela manipulasse os ladrões atrapalhados a fazer o roubo para eles.
Kohls responde sem titubear, como se já tivesse percorrido esse caminho e o tivesse abandonado por necessidade lógica:
— Esse era o caminho lógico e eu saí disposto a pedir um mandado de prisão apenas ao juiz de plantão, direcionado apenas ao Ipikiss, mas decidi visitá-lo, fui surpreendido.
Ringo mantém o charuto entre os dedos, atento. Kohls continua.
Casa de Stanley Ipikiss, tarde do dia anterior.
A casa de Ipikiss tem aspecto organizado, de quem se esforça para manter a vida nos trilhos. A sala é limpa, os móveis bem cuidados. Não há luxo, mas há estabilidade. O ar cheira a café recente, e isso, para Kohls, já significa algo: criminosos sob pressão raramente se preocupam com café.
Stanley Ipikiss abre a porta com tranquilidade. O rosto dele tem aquela vivacidade de quem tenta fazer o mundo parecer menos pesado do que é. Ele sorri de modo educado e, ao mesmo tempo, apreensivo.
Ele convida o investigador a entrar como quem não tem medo de nada — ou como quem não sabe que deveria ter. Após alguns minutos de conversa e café com o investigador, ele confessa com a naturalidade de quem não carrega culpa em sua mente ou espírito.
— Minha namorada ficou apavorada, investigador, principalmente pelo fato da forma violenta como arrombaram a porta, invadiram o local, a troca de tiros. O senhor acredita que ela quis deixar a cidade?
Kohls observa cada microgesto: a respiração, a forma como ele segura a xícara de café, a atenção no rosto do policial. Não há culpa. Há medo de perder algo que ele ama.
Kohls pergunta, mantendo a voz neutra, mas a mente funcionando como lâmina:
— E vocês deixarão a cidade, Sr. Ipikiss?
Enquanto pergunta, Kohls pensa: “Por que um criminoso assumiria que vai fugir? O comportamento dele não é de alguém que está envolvido no roubo frustrado.”
Stanley responde sem hesitar, quase ofendido com a hipótese:
— Eu não! Jamais! Eu tenho um emprego bom, sou bancário, agora temo que ela me abandone, o senhor sabe, a gente se ama, mas namoro à distância não sobrevive.
Kohls decide então fazer uma pergunta-chave. Ele não levanta a voz. Apenas muda o peso das palavras.
— Você sabe que os bandidos não arrombaram nada no banco, não sabe, Sr. Ipikiss?
Ipikiss ironiza, com um gesto espontâneo, quase juvenil:
— Investigador, eu fui ao banco hoje, a porta está arrombada.
Kohls mantém o olhar fixo. Corrija sem suavidade:
— Sim, foi o major Kohls a arrombou, os bandidos entraram pela porta principal com esta chave.
Ele retira a chave do bolso. O metal brilha por um instante, simples demais para carregar tanta desgraça. Kohls a mostra e indaga:
— O senhor reconhece esta chave, Sr. Ipikiss?
Stanley empalidece. Os olhos se arregalam, a mão treme no ar como se quisesse recuar do objeto. Ele reconhece o chaveiro, o choque é genuíno e imediato. E, ainda assim, ele confirma sem medo de culpa, apenas com pavor de realidade:
— É a minha chave!
Delegacia, manhã de domingo católico.
Kohls volta a encarar Ringo, como quem fecha a última porta do labirinto.
— Um criminoso que planejou tudo jamais assumiria isso de forma tão rápida, não concorda, Major? — Indaga Kohls.
Ringo aperta os lábios. Traga o charuto. A fumaça parece mais densa agora.
— E por que não aceitar que Chompiras planejou tudo? — Insiste, Ringo.
Kohls não discute. Ele pega um papel, dobra-o com precisão e o empurra pela mesa. A confissão de Carmen, assinada. A tinta ainda parece recente, como se a culpa tivesse sido escrita à força.
Ringo lê. A expressão dele se fecha lentamente. Não é raiva. É decepção humana. E quando ele fala, a voz carrega lamento:
— Eu não consigo acreditar que um funcionário do banco e um ladrão, por mais que seja um ladrão atrapalhado, tenham sido manipulados por uma jovem solitária e errante, investigador.
Kohls permanece imóvel, o olhar fixo no Major, mas sem tentar confortá-lo. Ele não oferece consolo. Apenas realidade.
A delegacia fica em silêncio por um momento, como se o prédio também precisasse entender que, às vezes, a chave do engano não está na mão de quem parece mais perigoso. Ringo, no entanto, parece não acreditar no que ouve e vê. Como uma moça poderia orquestrar tal crime e manipular homens adultos desta forma? A verdade apresentada por Kohls não era uma verdade aceitável para Ringo.
18.7. A queda de Carmen.
Delegacia de Polícia de Ponta Porã, manhã de domingo católico, 31 de março de 1963.
O Major Ringo permanece em pé diante da janela por alguns segundos antes de se voltar novamente para Kohls. A fumaça do charuto ainda flutua no ar, mas agora parece pesada, quase incômoda.
— Ainda não consigo aceitar que aquela jovem seja a mente por trás de tudo. — Diz ele, sem olhar diretamente para o investigador. — Quero falar com ela.
Kohls inclina levemente a cabeça, como quem concede sem discutir.
— Claro, major. Vou conduzi-la à sala de interrogatório.
Ringo apaga o charuto no cinzeiro, endireita a postura e segue pelo corredor. Kohls observa por um instante, depois caminha atrás, silencioso como sempre.
Alguns minutos depois, na sala de interrogatório.
A sala é a mesma do dia anterior. Pequena, abafada, iluminada por uma lâmpada branca que não perdoa imperfeições. Agora, porém, quem está sentada à mesa é Carmen.
Ela mantém as mãos juntas sobre o colo. O uniforme simples da prisão não consegue esconder sua postura elegante. Quando Ringo entra, ela ergue os olhos devagar, estudando-o.
— Eu o conheço? — Pergunta, com voz suave.
— Não. Sou o Major Ringo, comandante da polícia militar da cidade.
Carmen o observa com atenção. O rosto firme, o porte seguro, o olhar sereno de quem não precisa provar autoridade. Há algo nele que não se parece com Kohls — menos lâmina, mais solidez.
— Mas a polícia militar investiga? — Pergunta, ela. — Achei que só garantissem a ordem.
Ringo se aproxima da mesa, puxa uma cadeira, mas não se senta. Apoia as mãos no encosto, como um homem de fronteira pronto para decidir se cruza ou não a linha.
— Isso mesmo. — Responde. — Fui eu quem impediu que o roubo tivesse êxito.
Carmen abaixa a cabeça. Quando fala novamente, sua voz parece ainda mais delicada.
— Então veio me humilhar e me esnobar?
Ringo a observa. Não vê ali uma criminosa experiente. Vê uma mulher jovem, bela, contida. E sua convicção se firma: ela está envolvida, mas não sozinha.
— Não. Jamais. — Diz ele. — Quero entender por que assinou a confissão. Mesmo se fosse culpada, Chompiras foi preso em flagrante. A chave de Ipikiss o tornava o suspeito perfeito. Ainda assim, você assumiu tudo.
Ele se inclina levemente, olhos nos dela.
— Você nunca cometeu crimes. Me explique.
Carmen ergue o olhar. Agora ela realmente o observa.
O porte firme. A voz grave. A calma.
Ela compara mentalmente:
“Chompiras é fraco e obediente.
Ipikiss é gentil, previsível.
Kohls é frio, violento, perigoso.
Mas este belo homem, ele é sólido… influente… meu possível refúgio.”
Ela mede o terreno.
Inclina-se ligeiramente à frente, reduzindo a distância entre eles.
— O que eu falar vai mudar algo? — Pergunta. — Não é o investigador Kohls o responsável pelo caso? O relatório dele não isentou Ipikiss e colocou Chompiras como vítima da minha manipulação… e eu como a grande vilã?
Ringo não responde. Apenas tira outro charuto do bolso e o acende lentamente.
E enquanto a chama dança, a mente dele retorna a algumas horas antes.
Horas antes — Casa de Ringo.
A casa é espaçosa, masculina, silenciosa. Móveis escuros, garrafas organizadas em um aparador, um cinzeiro já marcado pelo uso. Ringo acorda ao som insistente do telefone.
Ele atende.
Do outro lado da linha, a voz de Dourado fala baixo, mas rápida:
— Major, estou em frente à casa dela. A camioneta do investigador está lá desde ontem à noite. Felicity viu ele entrar. Eu… eu acho que eles dormiram juntos. Mas ele está levando a moça presa agora.
Ringo fecha os olhos por um instante. Não diz nada. Apenas agradece e desliga.
Noite anterior — Casa de Carmen.
A rua está silenciosa. Kohls estaciona diante da casa. Carmen abre a porta.
— Sr. policial, como posso ajudar?
— Seu namorado, Stanley, está preso. Seu amigo, Chompiras, está preso. Quero conversar com você.
— O senhor tem um mandado? — Pergunta ela, sem alterar o tom.
— Tenho. Mas mandados servem durante o dia. Se não quiser me receber, eu entendo.
Carmen pensa rápido.
“Se eu o receber, ele nunca imaginará que sou culpada.”
E sorri.
— Claro. Será uma honra.
Kohls entra. Carmen o conduz até a sala.
— O senhor quer beber champagne ou whisky?
Kohls não bebe. Mas não diz.
— O que você servir, eu aceito.
Ela pensa:
“Se eu me mostrar meiga, inocente, amistosa… ele acreditará que fui usada.”
Ela decide servir whisky para ele. Champagne para si.
Ele leva o copo aos lábios. Não bebe.
— O que o Stanley aprontou? — Pergunta ela.
— Ele foi iludido por uma jovem que o manipulou, roubou sua chave e a entregou a um ladrão.
Carmen analisa. Ele sabe da culpa dela e acredita na inocência de Ipikiss.
Ele está ali… sozinho… tarde da noite…
“Talvez queira algo. Talvez esteja aberto a troca. Meu corpo por minha liberdade. Por que outro motivo estaria aqui essa hora?”
Ela decidi ousar e se sentar ao lado dele.
— Uau… o senhor descobriu isso. — Diz, baixando levemente a voz. — E como posso ajudá-lo?
Carmen não nega.
Não afirma.
Apenas deixa o silêncio dizer.
Kohls percebe.
E, por um instante, não se afasta.
A lâmpada da sala permanece acesa.
A rua segue silenciosa. E Carmen acredita estar prestes a fazer sua próxima vítima.
Delegacia — manhã de domingo católico.
— Se eu contar a verdade, o senhor fará o quê? — Pergunta, Carmen.
Ringo responde sem hesitar:
— O que for necessário para haver justiça.
Carmen se levanta. A roupa simples da detenção acompanha o movimento. Ringo estranha a ação — até que ela expõe a pele marcada.
A vermelhidão.
Os sinais.
A denúncia muda.
— O investigador Kohls me agrediu. — Diz ela. — Disse que, se eu não confessasse, me mataria.
Ringo não fala. Apenas respira fundo.-
Noite anterior:
Carmen está bebendo Champagne com Kohls, que faz diversas perguntas, a maioria sobre Ipkiss e Chompiras, (preciso que crie umas contradições e capriche nos diálogos)
De repente, ela coloca a mão nas partes íntimas dele e pergunta:
— O senhor realmente acha que sou culpada, investigador?
Kohls vira o rosto devagar. Seus olhos não são frios agora – são famintos.
Ele coloca o copo na mesa. A mão dele sobe até o queixo dela, segura firme, força o olhar dela a encontrar o dele.
— Você acha que pode me manipular como manipulou os outros dois? — pergunta, voz baixa, quase um rosnado.
Carmen sente o primeiro arrepio. Não de medo. De excitação.
— Eu… eu não sei do que o senhor está falando.
Kohls aperta mais o queixo dela. Não dói ainda, apenas a excita.
— Você sabe exatamente do que estou falando.
Ele se levanta. Puxa ela pela mão com força. Carmen tropeça, mas segue. Ele a leva até o quarto. Fecha a porta com o pé. A luz da rua entra pela janela entreaberta, desenhando sombras longas na cama.
Kohls a empurra contra a parede. O corpo dele pressiona o dela. Uma mão vai para a garganta dela – não aperta, só segura. A outra desce até o vestido, rasga a alça com um puxão seco.
Carmen ofega. O coração dispara.
— Você vai me contar tudo sem nenhuma mentira. — Diz ele, boca colada no ouvido dela. — Ou vai se arrepender de não me dizer a verdade.
Ele a vira de costas. Puxa os pulsos dela para trás. Tira as algemas do cinto. O metal frio morde a pele. Clique. Clique. Ela está algemada, mãos nas costas, corpo pressionado contra a parede.
Kohls arranca o resto do vestido. Carmen fica nua, tremendo de frio e desejo. Ele a empurra na cama. Ela cai de bruços. Ele monta em cima dela, peso controlado, mas dominante.
A mão dele desce nas nádegas dela – tapa forte, seco, vermelho imediato. Carmen solta um gemido. Dor e prazer misturados.
— Quem planejou o roubo? — Pergunta ele, tapa mais forte.
— Eu… — Ela sussurra.
Outro tapa. Mais forte. A pele queima.
— Mais alto.
— Eu planejei! — Grita ela.
Kohls segura o cabelo dela, puxa a cabeça para trás.
— Por quê?
— Porque eu queria sair dessa vida… queria dinheiro… queria poder…
Ele a vira de frente. Monta sobre ela. Abre as pernas dela com o joelho. Entra nela com força – sem preliminares, sem carinho. Carmen arqueia as costas, geme alto, olhos revirando.
— Chompiras… — Diz ele, investindo mais fundo, ritmo cruel. — Você o ama?
— Não… — ela geme entre os dentes. — Ele é um idiota… incapaz… eu dei a chave e a senha… ele só precisava entrar…
Kohls acelera. A cama range. Carmen se contorce, prazer misturado a dor, algemas cortando os pulsos.
— Ipikiss… — Pergunta ele, mão apertando o pescoço dela (não sufoca, só controla). — Você o ama?
— Não… — ela ri entre gemidos. — Um bancário fracassado… tolo… nem percebeu que eu roubei a chave dele… eu o usei como usei o Chompiras…
Kohls para por um segundo. Olha nos olhos dela.
— E eu? — pergunta, voz rouca. — Você me usaria também?
Carmen olha para ele, olhos vidrados de prazer e rendição.
— Você permitiria que eu te usasse, investigador? – Indaga ela.
Kohls acelera de novo. Mais forte. Mais violento. Carmen grita, corpo tremendo, chegando ao limite e ele responde:
– Não! Porque você é uma vadia insolente! Uam criminosa de quinta! Uma prostituta barata!
Carmen se sente humilhada, seus olhos lacrimejam, dor, prazer e tristeza se misturam. Ela se cala, mas ainda geme.
— Confessa tudo! — Ordena ele.
E ela confessa. Entre gritos, entre orgasmos, entre lágrimas de prazer e dor:
— Eu não sou prostituta! Não sou barata! Eu planejei tudo porque sou incrível, esperta e mereço o sucesso… usei os dois… roubei a chave do Ipikiss… entreguei pro Chompiras… eu queria o dinheiro… queria fugir… queria poder… não sou como as quengas que você come no puteiro. – Rebate ela, indigana com os xingamentos, mas em múltiplos orgasmos de prazer.
Kohls chega ao clímax em silêncio, corpo tenso, sem gemer. Sai dela devagar. Levanta. Ajusta a roupa. Olha para ela – algemada, marcada de vermelho, ofegante, destruída.
— Você vai assinar a confissão! — Ordena ele, com voz fria e um papel na mão. — Ou eu faço isso de novo. E da próxima vez, não vai ter prazer.
Carmen chora baixo, e resiste:
— Você não teria coragem!
Kohls rebate:
— Você não me conhece! – Sem hesitar, ele pega seu cinto da calça que não saiu d seu corpo por inteiro e acerta as nádegas de Carmen com uma cintada, exclamando:
— Eu odeio mulheres vadias! Eu acho que vagabunda tem que morrer.
Em seguida, ele puxa o rosto dela, coloca seu membro em seu rosto, pega sua arma e ordena:
— Seja uma boa moça e peça desculpas a melhor maneira! Assim que você assinar a confissão, eu prometo ser carinhoso.
Carmen está rendida, dominada, o policial parece ser mais cruel do que os criminosos que manipulou para roubar o banco, ela sabe que ele não está brincando a matará, se ela o desafiar.
Delegacia — manhã de domingo católico.
— Por que não o denuncia? — Pergunta Ringo.
Carmen ergue o olhar, agora mais triste… ou mais calculado.
— Ele me bateu com toalha e mão. Não foram socos. Foram tapas. Cintadas. — Pausa. — Sou solteira. Imagine minha fama… se disserem que dormi com um policial abusivo?
— Então prefere assumir culpa que não é sua? — pergunta Ringo.
— Eu participei do roubo. Fui elo entre Ipikiss e Chompiras. E… estive com Kohls. — diz ela. — O senhor parece um homem honesto, major. Mas quem terá piedade de mim?
A expressão dela mistura dor e estratégia. Ringo sente o peso.
— Me diga quem a contratou. — Insiste ele. — Quem a incentivou?
Carmen pensa. Mede o homem à frente.
Um major solteiro. Bonito. Influente. Talvez meu salvador.
Ela ousa.
— Digamos que o senhor tenha razão, Major… — diz suavemente. — Se eu denunciar alguém poderoso… estarei viva amanhã? Se eu sair daqui, estarei segura? Mas se assumir tudo… não serei vista como uma mulher forte e virtuosa?
Ringo permanece em silêncio.
E o silêncio decide que esta história ainda não terminou.
18.8. A missa de domingo.
Casa de William, manhã do domingo católico, 31 de março de 1963.
6º dia dos Escolhidos e Enviados na nova realidade.
A luz da manhã atravessa as cortinas simples da casa de William. O ar ainda carrega o frescor da noite, misturado ao leve aroma de café recém-passado vindo da cozinha. A cidade desperta lentamente do sábado incomum que acabaram de viver.
Enquanto Ringo tenta digerir a versão oficial da tentativa de roubo ao banco, William e Ângela se arrumam em silêncio respeitoso, como sempre fizeram em tantos domingos anteriores. O hábito de ir à missa está entranhado em seus corpos, em sua memória, em sua identidade.
Madm observa do corredor. Seus olhos acompanham o casal.
— A Ângela e eu vamos à missa e também vamos conversar com o Padre Lucius sobre como Deus tem nos abençoado e sobre tudo que encontramos na Bíblia. Eu quero ouvir do padre o que ele tem a dizer sobre tudo isso. — Afirma William.
Sua voz é firme, mas há nela uma nova tensão. Não é dúvida. É confronto interior.
— A Let vai ficar e fará companhia a vocês. — Acrescenta Ângela.
Quando o casal atravessa a porta, o som suave do portão de ferro fechando ecoa no quintal. Let, já acordada, aproxima-se de Madm. Seus cabelos ainda soltos, o olhar esperto, quase divertido, e um sorriso que antecipa uma ousada afirmação.
— Se eu conheço bem meu irmão, esta será a última vez que ele irá à igreja.
Madm a observa.
— Por que diz isso? — Pergunta.
Let sorri, mas não explica. Há uma certeza silenciosa em seus olhos.
— Você verá!
Amada, já arrumada, aproxima-se. Seus passos são leves. Ela envolve Madm em um abraço, repousando a cabeça em seu peito.
— Os meninos já acordaram?
— Ainda não, mas deixe-os dormir. — Pede Madm.
Há algo contido em sua voz. Amada percebe. Seu abraço não se desfaz.
— O que está pegando?
Let, a poucos passos, se recorda da noite anterior. Da sorveteria. Das palavras de Menslike. De sua própria confusão. Um pensamento a atravessa: “Talvez seja por minha causa.” O incômodo a faz se afastar discretamente.
Quando Let sai, Amada insiste, agora encarando Madm diretamente.
— E aí? Eu te conheço. Vai falar ou não?
Madm respira fundo. Seus olhos se perdem por um instante no céu azul-claro além da janela.
— Olha o dia de hoje, 31 de março de 1963, no calendário católico. Temos exatamente um ano católico para agir, ou o Brasil se converterá em uma ditadura, e isso dificultará muito nosso sucesso!
As palavras ficam suspensas entre eles. Amada não pergunta mais nada. Apenas aperta sua mão. Eles compreendem-se sem precisar continuar.
Igreja Católica Matriz de Ponta Porã.
O sino da igreja ecoa pela cidade. Um som familiar, acolhedor para muitos, solene para outros. William e Ângela atravessam o pátio de pedra. As portas altas de madeira rangem suavemente ao se abrirem.
O interior é fresco. Cheira a incenso antigo, madeira encerada e cera derretida. A luz atravessa os vitrais coloridos, pintando o chão com manchas de azul, vermelho e dourado.
William já esteve ali incontáveis vezes. Ali pediu a cura de sua esposa. Ali suplicou misericórdia. Agora retorna não como quem pede, mas como quem quer compartilhar uma grande bênção.
Juntos, eles entram na igreja e olham para o excessivo número de imagens e velas, o que leva William a lembrar do mandamento:
“Não farás para ti imagens de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, embaixo na terra, ou no mar, embaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes prestarás culto!”
O versículo ecoa dentro dele como uma lâmina silenciosa.
Thomaz, ao lado de Jady, o observa, seus olhos exibem o ódio que ele não esquece, mas sua boca se cala. José e Pedro, que o visitaram durante as reuniões dirigidas pelos escolhidos e enviados, também o observam.
William e Ângela seguem até um dos bancos da bela igreja. A mão direita de William é firmemente segurada por Ângela. O toque dela ainda é quente, real, vivo — o milagre ocorrido durante a semana é lembrado a cada segundo.
A igreja inicia o terço. As vozes repetem as palavras antigas, como um rio que nunca muda de curso. William observa Ângela. Ela não repete as orações. Seus lábios permanecem imóveis. Apenas seus olhos fechados e sua respiração serena indicam oração interior.
Alguns segundos de reflexão levam William a imitá-la.
O som coletivo continua ao redor, mas agora ele escuta de fora, como se estivesse em outra margem do rio.
Quando o terço termina, eles se assentam novamente. Ângela inclina sua cabeça no ombro de William. Ele a envolve. Uma lágrima escorre pela parte direita de seu rosto. Não é tristeza. É compreensão. William a limpa com sua mão esquerda. Nenhuma palavra é dita. Tudo já foi entendido.
O padre Lucius aproxima-se do púlpito. Sua batina negra contrasta com a luz colorida dos vitrais. Ele abre as Escrituras com solenidade.
Durante o sermão, o padre pede à congregação:
— Segunda epístola de São Pedro, capítulo 2, versículos 1 a 3.
O capelão lê o primeiro versículo:
— Assim como houve entre o povo falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos doutores, que introduzirão disfarçadamente seitas perniciosas. Eles, renegando assim o Senhor que os resgatou, atrairão sobre si uma ruína repentina.
William sente o peso da frase pousar sobre seus ombros. Não é leitura neutra. É advertência direcionada.
O padre continua:
— No passado, surgiram na Igreja pessoas que renegaram nosso Senhor, negaram sua divindade, disseram que Jesus não é o Deus Filho, negaram a Virgem Santa, Maria, e sua ascensão, negando também que ela seja Mãe de Deus, negaram a Igreja de Deus, a Santa e Madre Igreja Católica Romana.
Ângela aperta levemente a mão de William. Não por medo. Por alerta.
O capelão segue a leitura:
— Muitos os seguirão nas suas desordens e serão desse modo a causa de o caminho da verdade ser caluniado.
O Padre Lucius explica:
— Há uma maneira de identificar os falsos mestres. Os falsos mestres negam a Igreja, ensinam as pessoas a se afastarem da comunidade santa. Ensinam a rebeldia, ensinam seus seguidores a desobedecer ao Santo Padre de Roma e ao concílio dos Bispos.
William permanece imóvel. Sua mente revisita cada reunião na casa. Cada ensino. Cada leitura. Cada versículo aberto sem intermediários.
O capelão lê então o terceiro versículo:
— Movidos por cobiça, eles vos hão de explorar por palavras cheias de astúcia. Há muito tempo, a condenação os ameaça, e a sua ruína não dorme.
O padre fecha a Bíblia lentamente.
— Meus filhos, eu, o santo padre, vos advirto que estes falsos mestres chegaram até nós. Como no passado, praticam magia, deturpam a verdade interpretada pela Santa e Madre Igreja, se acham deuses, dignos de interpretar as Sagradas Escrituras. Meus amados filhos, se vocês querem ser fiéis à Trindade Celestial e à Santa e Madre Igreja, fiquem longe destas pessoas.
A voz ecoa pela nave da igreja.
Alguns fiéis fazem o sinal da cruz. Outros murmuram aprovação. Há cabeças balançando em concordância.
Ângela ouve o discurso do padre e se preocupa.
Ela percebe que o discurso é direcionado para eles.
Seu coração bate firme. Não de culpa. De certeza.
Ela se inclina levemente para William. Seus olhos dizem sem palavras:
O caminho de volta já não existe.
O órgão toca. A missa segue seu curso. Mas dentro daquele banco de madeira, duas pessoas acabaram de atravessar um ponto sem retorno. O conflito agora não é apenas espiritual, ele tornou-se público e inevitável.
18.9. O pedido de Dutra.
Residência de William — manhã de domingo.
Enquanto William e Ângela se confrontam ideologicamente na missa, a casa de William ainda respira o silêncio preguiçoso das primeiras horas da manhã. A luz invade pela fresta das cortinas, desenhando faixas douradas sobre o piso simples. O canto distante de galos mistura-se ao ruído leve de panelas em alguma cozinha vizinha.
No quarto coletivo, Nokram, Menslike, Bebeto, Luk e Healer ainda despertam lentamente. Corpos espalhados em colchões, cobertores amassados, respirações profundas de quem dormiu mais do que deveria.
De repente, palmas assíduas no portão quebram o silêncio.
Let, já desperta, caminha até a porta, ainda ajeitando os cabelos. Ao abrir o portão, encontra Dutra — o soldado estrábico filho de Sião e Tainara, suado, com respiração acelerada e olhos cheios de urgência.
— Hey, o que ocorreu? — Pergunta ela.
Dutra não entra. Permanece do lado de fora, segurando o portão como quem se agarra à última esperança.
— Por favor, chame o Sr. Madm, é urgente!
Sem pressa aparente, mas com curiosidade discreta, Let atravessa a sala onde os garotos começam a se mexer nos colchões.
— Está tudo bem, Let? — Pergunta Bebeto, ainda sentado, coçando os olhos.
— Creio que sim, só o soldado estrábico, filho de um dos amigos do meu irmão, que quer falar com Madm, provavelmente não deve ser nada de mais. — responde ela.
Luk ri, ainda sonolento.
— Todo vesgo tem esse dom, é facilmente identificado!
Nokram se irrita de imediato, voz firme, sem humor.
— Gordos e negros também!
Luk abre um sorriso, aceitando a provocação como brincadeira, e estica os braços, espreguiçando-se.
— Vai lá ver o que está acontecendo, Healer.
Healer cobre o rosto com o travesseiro.
— Eu nem acordei ainda, preciso me lavar primeiro.
As palavras dele irritam Bebeto, que se ergue apoiando as mãos no colchão.
— Se fosse a Sasha ou a Joaquina, você iria, não é mesmo?
Healer se senta, ofendido.
— Verdade, e se fosse uma das três irmãs, você iria, não é?
A tensão cresce por um instante, até Nokram se levantar decidido. Mas antes que chegue à porta, Madm já surge no corredor, o acompanhando, a pedido de Let.
Ao vê-lo, Dutra grita do portão:
— Sr. Madm, venha rápido, por favor.
Madm e Nokram caminham juntos até o portão. O quintal ainda guarda o frescor da madrugada. O vento leve balança as folhas da grande árvore, como se acompanhasse a ansiedade do soldado.
— Ocorreu algo? — Pergunta Nokram.
Dutra respira fundo, tentando organizar as palavras.
— Sim, meus irmãos estão doentes, conseguimos vaga no hospital de Dourados, minha mãe os levou para lá, mas quando acordou hoje, meu irmão disse que sonhou que o senhor os curaria. Eu prometi que o levaria até ele.
A voz dele mistura disciplina militar e desespero de filho.
Algum tempo antes — Casa de Sião Dutra.
A casa é simples. O cheiro de café forte mistura-se ao de remédio e pano úmido. Sião já veste a camisa de trabalho, botas gastas, expressão cansada. Ele se despede rapidamente, pois o serviço não espera.
Tainara permanece na sala, ajeitando os cobertores dos filhos doentes. O cansaço pesa em seus ombros.
— Dirigir até Dourados com os dois assim… — resmunga, irritada, mais com a situação do que com alguém específico.
No quarto, Trovão está sentado na cama. O rosto pálido, os olhos febris, a voz lenta e sem força.
— Eu não quero ir ao hospital… eu sonhei que o homem que curou o Bunnym e a Sra. William nos curava com apenas um toque.
Tainara cruza os braços, dura.
— Deixa de ser besta. Seu irmão se esforçou muito para conseguir as vagas no hospital. Deus vai usar os médicos para te curar.
Trovão abaixa a cabeça. Sua voz sai quase num sussurro.
— Irmão, por favor, vá até a casa do Sr. William e fale com o homem que curou o Bunnym e a Sra. William. Diga que eu sonhei que ele nos curaria e que eu vi seu rosto sem o conhecer.
Dutra, em pé ao lado da porta, sente o peso das palavras. São singelas, mas diretas. Ele assente sem hesitar.
— Eu vou, meu irmão! Pode deixar.
— De jeito nenhum! — Interrompe Tainara. — Eu não vou levar os dois sozinha.
Trovão insiste, respirando com dificuldade.
— Vá ao vizinho, peça para o Roskowo ou a Ariela, para irem comigo.
Dutra olha para a mãe. Por um instante, Tainara luta contra o medo. Mas o rosto febril do filho amolece sua resistência. Ela cede com um gesto silencioso.
De volta à casa de William.
O sol já sobe mais alto. O portão range levemente ao vento. Madm ouve tudo em silêncio, olhos baixos, como quem pesa não apenas palavras, mas consequências.
— Você quer que a gente vá ao hospital de Dourados, onde os médicos já estão cuidando de seus irmãos? — indaga Madm.
— Sim, o senhor curou a Ângela, curou o Bunnym, eu sei que curará eles, não importa o que eles tenham. — insiste Dutra.
Madm abaixa a cabeça, voz triste, quase um lamento.
— Só Deus pode curar, eu posso apenas pedir para ele agir e ainda que eu quisesse ir, não temos carro. O William foi à Igreja, e não temos como ir agora.
A negativa não faz Dutra recuar. Pelo contrário. Seus olhos brilham ainda mais.
— Por favor, não precisa ser agora, pode ser à tarde, ou até mesmo amanhã, mas por favor, vá até eles e mostre que Deus os ama também.
As palavras atravessam Madm. Ele inspira lentamente, como quem recebe uma responsabilidade que não pediu, mas não pode rejeitar.
— Eu vou conversar com o capitão quando ele chegar, passaremos na sua casa e iremos juntos!
Dutra não se contém. Abraça Madm com força, quase militarmente contido, mas emocionalmente inteiro.
— Se o senhor levar a cura devida a eles, eu prometo que vou estudar e aprender tudo que tem na Bíblia e praticar.
Após dizer tais palavras, Dutra se vira e corre de volta pela estrada de terra, poeira subindo atrás de seus passos apressados.
Nokram observa a cena em silêncio. Depois se aproxima do pai.
— Pai, nós não podemos deixar pessoas como ele sem a bênção de Deus!
O vento atravessa o quintal mais uma vez.
E, naquela manhã, uma promessa é feita — não apenas por Dutra, mas também por aqueles que agora carregam o peso de atendê-la.
18.10. Uma visita inesperada.
Star City.
Enquanto Dutra busca a cura para seus irmãos junto a Madm, em Star City, a dor não vislumbra nenhum tipo de cura.
Na casa dos Drake, o quarto de Dina Drake permanece fechado há horas. As cortinas não foram abertas. O ar está pesado, imóvel. O cheiro de perfume antigo mistura-se ao de lágrimas secas. Sobre a mesa de cabeceira, a fotografia de Oliver permanece virada para baixo, como se até a imagem dele fosse insuportável de encarar.
Do lado de fora, Quentin bate à porta. Primeiro, com leveza. Depois, firme. Por fim, desesperado.
— Filha… por favor, me responda. Dina… por favor…
O silêncio prossegue.
A mão dele treme ao se fechar em punho.
— Dina, se você não abrir essa porta, eu juro que vou quebrá-la!
As palavras de Quentin seguem sem resposta até que uma outra voz é ouvida.
Uma voz masculina, grave, segura, sem pressa, sem piedade.
— Deixa, Quentin.
Quentin se vira, surpreso. O homem continua, sem elevar o tom — mas cada palavra cai como pedra:
— Acho que ela passou tempo demais se envolvendo com playboys vagabundos… cantando em pubs… achando que o mundo é palco e esqueceu que rainhas de verdade são forjadas no chão. Princesinhas da Disney morrem cedo no mundo real.
Do outro lado da porta, Dina arregala os olhos. Aquela voz. Aquela cadência. Aquela autoridade que não precisava gritar. Ela sussurra, quase sem acreditar:
— Eu conheço essa voz…
Mesmo baixo, ele ouve.
— Claro que conhece.
— Sou o homem que te ensinou taekwondo, krav magá, karatê e boxe quando você tinha doze anos.
— Mas, pelo visto, você esqueceu tudo que te ensinei.
— Então eu vim te lembrar.
O trinco gira.
A porta se abre.
Dina aparece. Olhos inchados. Cabelos presos de qualquer jeito. Rosto pálido. Mas viva.
E ao ver o homem diante dela — alto, ombros largos, postura de quem nunca se curva —, ela desaba em seus braços.
— Ted… que bom que você veio…
Ele a abraça com firmeza, não com delicadeza. Como quem segura alguém à beira de um precipício.
— Gotham é longe, mas quando um bando de bilionários morre num cruzeiro… a notícia atravessa o país.
Quentin observa em silêncio. Sem interferir, porque reconhece naquele homem algo que ele próprio, naquele momento, não consegue oferecer à filha: direção.
Ted solta Dina o suficiente para olhar em seus olhos.
— Você não vai apodrecer nesse quarto. Não vai morrer junto com fantasmas, vai lembrar quem você é.
Dina não responde, mas respira aliviada pela primeira vez nos últimos dias.
18.11. A despedida.
Igreja Católica Matriz de Ponta Porã.
Enquanto em Star City, Ted Grant tenta aliviar a dor de Dina, na Igreja Matriz de Ponta Porã, o órgão silencia. As últimas notas ainda vibram nos vitrais quando o padre Lucius fecha o missal com solenidade. Alguns fiéis fazem o sinal da cruz. Outros murmuram palavras de despedida. O cheiro de incenso permanece suspenso, como se o ar também tivesse memória.
William se levanta antes que a multidão comece a sair. Ele segura Ângela pelas mãos. O toque é firme, decidido — não é pressa, é direção.
Eles caminham pelo corredor central. O som de seus passos ecoa no mesmo espaço onde, minutos antes, foram chamados de possíveis seguidores de falsos mestres.
José, próximo a uma das colunas, acompanha a saída com os olhos. Seu semblante é sério. Não há ódio ali — apenas a sensação de que algo precioso está sendo arrancado de sua comunidade. Em seu pensamento, ele avalia: “Um casal de pessoas valorosas, caídos por uma cura inexplicada.”
Pedro se aproxima dele em voz baixa:
— Será que eles se converterão após o sermão do Padre Lucius?
José não responde. Apenas baixa o olhar, como quem lamenta uma perda inevitável. Se Pedro tem esperança sobre um retorno de William ao catolicismo, José é mais realista. Ele sabe que o amor de William por sua esposa e sua cura o impedirão de continuar a viver o catolicismo. Em seus pensamentos, ele compara William a Adam, que escolheu o caminho da heresia por amor a uma mulher.
Próximo à porta lateral, Thomaz Muller observa em silêncio. Ao lado dele, Jady percebe o leve tensionar da mandíbula do marido — não é raiva. É cálculo. Ele sorri imaginando que William pode deixar sua zona de influência. Seus pensamentos presumem de forma apressada: “Menos um opositor.”
O padre Lucius, ainda no presbitério, vê William atravessar o pátio pela porta principal. Seus dedos apertam o crucifixo preso à batina. Ele não o chama. Não acena. Apenas observa, como quem assiste uma ovelha atravessar o portão do aprisco por vontade própria. Seus lábios se movem em oração muda e uma citação mental: “Eles enganarão a muitos, e se possível, até aos escolhidos”.
Do lado de fora, o sol da manhã é forte. O pátio de pedra reflete a luz. A cidade segue seu ritmo normal. Mas para dois corações, tudo acaba de mudar.
William solta apenas o suficiente para olhar Ângela nos olhos.
Confusa, ela indaga:
— Você não ia contar o milagre à Igreja e conversar com o padre sobre tudo que descobrimos na Bíblia?
A voz dela é suave. Não há acusação. Há busca.
William respira fundo. O vento leve move uma mecha do cabelo de Ângela. Ele a ajeita atrás da orelha com cuidado.
— Eu pretendia fazer isso… — diz, com calma — …mas você viu o que ocorreu aqui? — Pergunta ele.
Ângela pensa no sermão. Nas palavras “falsos mestres”. Na advertência. Na acusação lançada sem nomes, mas com destino certo.
— Vi… — responde — …não entendi. E não sei o que você pensa a respeito.
William olha novamente para a igreja. As portas de madeira se fecham atrás de outros fiéis. O sino não toca. Apenas o ranger distante de ferro.
Então ele diz, com voz firme, porém sem dureza:
— Foi a última vez que vim a este lugar, Ângela. O padre, o homem que eu sempre vi como um representante de Deus, transformou o milagre da sua cura em obra de magia. Eles, neste lugar, não ensinam as Escrituras, não guardam nem praticam os mandamentos de Deus e chamam de falsos mestres as únicas pessoas que nos levaram a enxergar isto.
Cada palavra sai sem raiva. Apenas convicção.
Ângela sente o peso do momento. Ela não responde. Não questiona. Não argumenta.
Ela apenas o beija.
Um beijo emocionado. Grato. Inteiro.
Em seguida, ela o abraça de forma profunda e apaixonada, como quem confirma sem precisar dizer: eu caminho contigo.
Do outro lado do portão, José observa o gesto à distância. Seus olhos brilham por um instante. Não de inveja. De temor reverente. Ele sabe o que acaba de acontecer.
Pedro faz o sinal da cruz discretamente.
O padre Lucius fecha os olhos por um breve momento, ainda dentro da igreja. Sua voz baixa escapa como sussurro:
— Que Deus os traga de volta.
Mas o vento leva a frase.
E William e Ângela seguem pela rua de pedra, mãos entrelaçadas, sem olhar para trás. O caminho de retorno ficou vazio.
18.12. Entre o vitimismo e a coragem.
Star City.
Enquanto William se despede da Igreja Matriz em Ponta Porã, carregando nos ombros o peso de um conflito ideológico, em Star City outras dores tensionam famílias distintas.
No quarto dos Drake, Dina chora nos braços de Ted, a voz quebrada, como se cada palavra fosse arrancada da carne.
— Então… como eu vou sair desse quarto? Como vou olhar na cara do meu pai? Eu sou a culpada por trazer o Olie para nossa vida… Eu sou culpada pela morte da Sara…
Ted não responde de imediato.
Apenas a envolve com firmeza, ancorando-a no presente.
— Calma, Dini, assumir responsabilidade é digno. Mas se culpar dessa maneira é se vitimizar e você não foi treinada para ser vítima. Encarar o problema é olhar a realidade sem se ajoelhar diante dela.
Dina respira fundo, ainda quebrada, mas não mais afundando.
Na sala abaixo, Quentin bebe um uísque em silêncio.
O olhar perdido dentro do copo, como se ali estivesse tudo que não conseguiu proteger.
A casa inteira parece pequena demais para conter sua impotência.
Não muito longe dali, na residência Merlyn, Tommy permanece sentado em posição de meditação.
O quarto é escuro, iluminado apenas por uma vela.
Pensamentos cruzam sua mente:
Oliver foi seu melhor amigo.
Dina sempre foi sua paixão silenciosa.
Ela agora precisa de alguém.
Mas…
Seria traição ao amigo?
Ou lealdade à mulher ferida?
E afinal…
Oliver morreu como um canalha.
Ainda merece consideração?
Tommy não encontra resposta.
Apenas permanece respirando, suspenso entre honra e desejo.
Ainda em Star City, no quarto iluminado por luar e fumaça, Thea solta seus primeiros sorrisos em dias.
Entre Manu e Fred, o peso da dor se dissolve em névoa doce.
A tragédia não desaparece — mas, por algumas horas, deixa de esmagar, evaporando como os cigarros do “back” que traga.
Muito longe dali… Em uma ilha do Pacífico, Oliver, vivo, tensiona o arco.
A flecha corta o ar. A presa cai. Ele respira ofegante. Sujo. Ferido. Determinado.
Shado observa.
E, pela primeira vez, permite um leve sorriso de aprovação. Oliver não diz nada.
Mas em seus olhos, algo começou a nascer — ainda frágil, ainda bruto — mas real, hoje haverá alimento em sua tenda, na ilha do purgatório.
18.13. Conselho dos enviados.
Ponta Porã, meio-dia.
Enquanto Ted Grant tenta motivar Dina em Star City. Em Ponta Porã, Madm reúne os escolhidos na presença de Let, para debater como agir.
A cidade respira lentamente enquanto o calor do meio-dia se dissolve em um vento morno que atravessa as frestas da casa de William. O cheiro de terra, madeira e café frio paira no ar.
Os Escolhidos e Enviados estão reunidos em torno da mesa da cozinha. Let permanece próxima, enquanto prepara o almoço e ouve o debate atentamente. Seus olhos transitam de rosto em rosto entre os sete humanos que surgiram em sua vida em poucos dias e agora remodelam a vida de sua família.
Madm permanece em pé. Sua postura é serena, mas firme. Ele não fala como quem improvisa. Fala como quem carrega direção.
— Pessoal, precisamos alinhar nossas ações. — Sua voz atravessa a mesa. — Nós chegamos aqui há quase uma semana, estivemos na casa do Muller, depois ficamos aqui, e as pessoas estão nos procurando, como o Dutra, buscando em nós uma espécie de salvadores. Precisamos frear isso e nos mostrar como canais de Deus.
Nokram inclina-se para frente e fala com a maturidade de mais de uma centena de anos vividos, anteriormente.
— Sim, mas quando somos procurados por pessoas como o Dutra, precisamos atendê-los.
O vento faz as folhas da árvore central balançarem, espalhando sombras móveis sobre os rostos.
Madm concorda com um leve aceno.
— Sim, mas contamos a verdade a Muller, ele não acreditou. William acreditou. As pessoas aqui estão curiosas e sedentas pelas coisas de Deus. Precisamos aproximá-las da Lei de Deus e permitir que elas vivenciem seu reino, mas com um discurso alinhado.
Menslike cruza os braços e tenta compreender o que as palavras não dizem.
— Sobre o que exatamente estamos falando? — Pergunta ele, exigindo uma clara exposição do que eles planejam.
Antes que Madm responda, Luk se adianta. Sua voz é calma, mas direta como lâmina.
— Precisamos falar menos de nós e mais de Deus.
Healer concorda com a cabeça, como quem já vive essa convicção no íntimo.
— Eu tenho enfatizado que toda cura não vem de nós, ou de Madm, mas de Deus.
Madm observa cada um. O grupo não é apenas unido por missão. É unido por sobrevivência.
— Isso é importante. — Ele afirma. — Mas a partir de hoje, precisaremos ter a prudência de Avraham quando esteve no Egito. Vamos reiterar a história que Let contou no dia da festa de Ângela: somos seus amigos, a conhecemos na Inglaterra, somos fiéis a Deus, defendemos que a morte de Yeshua retira toda maldição do fiel, de maneira que este pode viver o reino de Deus imediatamente… mas somos irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe.
Por um segundo, o silêncio pesa.
Healer ergue a sobrancelha, um sorriso contido surge no canto da boca.
— E não vai pegar mal o seu incesto com Amada?
Let, que bebia água, cospe o líquido, engasga, leva a mão à boca tentando conter o riso. O grupo inteiro se permite um momento de leveza. Até Madm balança a cabeça negativamente.
Bebeto, sempre literal, entra na conversa com seriedade absoluta:
— Não, a tia Amada… digo… minha cunhada Amada… ela continua sendo esposa de Madm, mas todos nós somos seus irmãos.
Menslike observa a cena, ainda divertido.
— Quase da mesma idade?
Madm responde sem hesitar:
— Eu, um ano mais velho que você e o Nokram, que diremos ser gêmeos. Assim como Luk e Healer, uma vez que estes verdadeiramente o são.
Bebeto pensa por alguns segundos, testa a ideia na mente, então pergunta:
— Então não poderemos falar pra mais ninguém que somos de outra realidade?
Healer pondera:
— Acho que sim… para quem confiamos muito.
Amada, que até então observava em silêncio, intervém. Sua voz é suave, mas firme como solo sólido.
— Isso não inclui, pelo menos neste momento, nem as três irmãs que você estava de olho ontem, Bebeto, nem as amigas de Healer, Sasha e Joaquina.
Bebeto coça a cabeça, ligeiramente constrangido. Healer apenas sorri, aceitando o lembrete sem contestar.
Então, ao longe, o som de um motor corta o debate entre eles.
O barulho dos pneus sobre a estrada de terra se aproxima. O portão range. Poeira sobe lentamente no ar, atravessando a rua traçada anteriormente.
A caminhonete estaciona. O motor se cala. A porta se abre.
William desce.
Quando William e Ângela adentram a cozinha, o grupo se levanta quase ao mesmo tempo. Não por formalidade. Por respeito. Por expectativa. Por saber que algo importante vem junto com aquele veículo.
Sua expressão não é de raiva. Nem de dúvida. É de quem atravessou uma linha e não pretende voltar.
Let caminha até ele primeiro. Sua ousadia habitual não falha.
— E então? O que o padre achou das coisas que a Bíblia ensina e do milagre de Ângela?
William não responde de imediato. Abaixa a cabeça. Respira fundo. Como quem organiza o peso das palavras.
Então Ângela, com voz baixa, mas carregada de firmeza, responde com tristeza:
— Fez como os fariseus quando viam Yeshua realizando uma cura… atribuiu ao milagre a Belzebu.
O vento passa novamente pelo quintal. Ninguém fala por alguns segundos.
Não há choque. Há confirmação.
O conflito, agora, está declarado.
E os Escolhidos e Enviados compreendem, sem precisar dizer, que o caminho à frente será mais estreito, mais perigoso — e irreversível. William sabe que nada mais é como antes.
18.14. A carne e o sangue.
Residência das Três Irmãs.
O quintal dos Haddad é um retângulo de terra batida cercado por estacas tortas. O sol do meio dia pesa sobre o churrasco preparado por Eushedim.
Um varal atravessa o espaço, roupas simples balançando no vento quente. O cheiro de carvão e gordura assada se espalha pelo ar, pesado e apetitoso.
No centro do quintal, Eushedim Haddad gira lentamente um espeto sobre o braseiro. A linguiça estala, liberando gordura que cai sobre as brasas e sobe em pequenas labaredas. Ao lado, pedaços de carne malpassada descansam numa travessa de alumínio riscada pelo tempo, o sangue escoa pelas tábuas. É o popular domingo católico, o dia que Eushedim deixa a fazenda de Muller para passar com sua família.
Ele corta um pedaço, leva à boca, mastiga com satisfação. Depois fala, sem pressa, como quem sabe que sua palavra é lei:
— Para você ver a solidariedade e a bondade do Sr. Thomaz Muller… — diz, limpando a faca no pano. — Eu tenho o melhor patrão do mundo. Quem faria o que ele fez pela empregada? Tirar a moça da fazenda, trazer para trabalhar na cidade, só porque está grávida?
Dentro da casa, Laodiceia organiza pratos na mesa. O rádio antigo permanece desligado; o silêncio doméstico é comandado pela voz do marido. Pela janela, ela concorda, sem hesitar:
— Realmente, o Sr. Muller mostrou muita humanidade nessa atitude.
Na soleira da porta, Guerra observa. Não participa do serviço, não se senta ainda. Apenas escuta, seus braços estão cruzados, seus olhos estão atentos, sempre calculando.
— E quem é o pai dos bebês que vão nascer? — Pergunta ela, em tom neutro demais para ser curiosidade inocente.
Eushedim cospe o osso no chão, sem cerimônia.
— Duck. Capataz que agiu como cachorro com a menina albina. Homem sem temor de Deus.
Laodiceia balança a cabeça, apertando o avental entre os dedos.
— Essas meninas perdidas dos tempos atuais… — murmura. — Tudo isso é culpa dos sem religião, dos sem Jesus.
Eushedim limpa a faca novamente. O gesto é lento, firme. Então muda o assunto como quem muda de direção em uma estrada.
— Falando em sem Jesus… — diz, encarando a casa. — Vocês tiveram notícia dos falsos profetas que apareceram na fazenda?
O ambiente muda.
Laodiceia lança um olhar rápido às filhas. Fortaleza, inquieta por natureza, é a primeira a responder.
— Só se fala neles na cidade. Dizem que podem curar doenças… alguns acreditam que são anjos de Deus… — ela faz uma careta. — Mas ensinam absurdos. Que não pode trabalhar no fim de semana. Que não pode comer comida gostosa.
Laodiceia ergue a mão, como em púlpito invisível:
— São anticristos! O apóstolo Paulo profetizou sobre eles!
Eushedim crava o espeto na terra ao lado do braseiro, como se marcasse território.
— São vigaristas de primeira. E vocês vão ver o estrago que eles vão fazer na vida do Capitão William. — Sua voz é grave, convicta. — Escutem o que eu digo.
A autoridade dele fecha o assunto.
Mas não fecha os pensamentos.
Pouco depois, Guerra e Vanda deixam o quintal. Caminham até o corredor lateral da casa, onde a sombra é mais fresca. O cheiro de carne assada ainda chega até elas, misturado ao som distante do vento nas telhas.
Vanda quebra o silêncio primeiro, em voz baixa:
— Se a gente realmente quiser fisgar eles… vai ter problema com o papai.
Guerra não responde de imediato. Ela olha para o céu e seus olhos queimam, os fecha, mas não se inibe, nem se contém. Depois sorri — não um sorriso doce, mas decidido.
— Eu vou fisgar. Não sei qual… mas um deles será meu!
Vanda arqueia as sobrancelhas, divertida.
— Farsantes ou anjos de Deus?
Guerra inclina levemente a cabeça.
— Tanto faz. Eles são famosos e todos na cidade vão me conhecer como a princesa dos escolhidos e enviados.
Vanda ri, tocando o braço da irmã.
— Escolhidos e enviados? Até nome especial eles têm?
Guerra sorri, segura, já dona de um plano inteiro na mente.
— Enviados para mim. Mas só um será escolhido. — Ela faz uma pausa curta, precisa. — Porque eu não sou gulosa.
Depois acrescenta, quase generosa:
— Você pode ficar com o Bebeto.
Vanda ri novamente e pensa com sua astúcia e malícia: ” Você pode analisar bem cada um deles, mas o melhor vai ser meu, maninha.” Por trás do riso maléfico, o vento quente passa pelo corredor estreito, e algo invisível se instala naquela casa.
Fortaleza, a distância, sente medo, ela teme o ódio e aversão de seu pai, mas achou interessante o garotos que seus pais chamam de falsos profetas.
18.15. Confusão no hospital.
Hospital e Maternidade Porta da Esperança — Dourados, meio da tarde.
O ronco grave do motor corta o silêncio quente da tarde douradense.
Um automóvel de luxo, raro para o interior do Brasil em 1963, avança lentamente pela rua de terra batida até o portão do Hospital e Maternidade Porta da Esperança. A lataria escura reflete o sol forte do Mato Grosso do Sul, contrastando com as paredes claras do prédio, simples, funcional, marcado por uma cruz discreta no alto da fachada.
O carro estaciona com cuidado.
A porta do motorista se abre primeiro.
Um jovem loiro, bem-vestido com camisa clara bem passada, calça social e sapatos engraxados, sai do veículo com agilidade. Seus movimentos são precisos, atentos, como alguém treinado para estar sempre pronto. Ele fecha a porta com firmeza e dá a volta pelo carro.
Do lado direito, Dutra desce apressado. Seu rosto mistura alívio e urgência.
— Obrigado, Roskowo… você nos salvou. Que Deus te abençoe.
Roskowo apenas sorri de canto. Não responde, mas sorri com olhar de gratidão.
Horas antes — Casa de William.
O sol já está alto quando Dutra surge no portão da casa de William. Ele traz o corpo inclinado para frente, como alguém pronto para partir a qualquer momento. A ansiedade o denuncia antes mesmo de falar.
Nokram o observa da varanda. Seu olhar é agudo. Ele entende imediatamente: Madm precisa atender a esse pedido.
Let, ao fundo, cruza o ambiente com o rosto fechado. Há algo nela que rejeita aquela visita. Seu pensamento está em outro lugar: “Preciso ver Miguel hoje.”
Todos já almoçaram. O clima é de pausa curta demais.
Dutra se aproxima de Madm com urgência mal disfarçada.
Madm o escuta, atento, e responde com serenidade calculada:
— Let tem um compromisso. Não temos condução para ir até Dourados agora, amigo. Se seus irmãos não melhorarem, vamos amanhã. Fique tranquilo. Deus protegerá seus irmãos.
A resposta é correta. Prudente. Mas não suficiente.
Dentro da casa, Nokram se inflama.
Ele se coloca diante de Amada, fala alto o bastante para que todos ouçam.
— Mãe, convença o pai. Isso não é sobre logística. É sobre responsabilidade.
Ângela arregala levemente os olhos. William permanece imóvel, apreensivo. Nokram prossegue:
— A quem Deus concede poder, Ele exige uso em favor de quem precisa. Curar o doente não é espetáculo, é obrigação diante do Criador.
William sente o peso daquelas palavras. Ele não discorda — mas teme o que elas podem provocar.
No quintal, Let já está pronta, vestida como uma professora que vai lecionar em pleno domingo católico. Pasta em mãos. Postura firme. Ela adentra a caminhonete sorrindo. Menslike se aproxima e tenta persuadi-la.
— Não há possibilidade de você levá-los até Dourados… e depois seguir para sua aula?
Let suspira. A irritação aparece, mas suas palavras ainda são brandas, dom de quem sabe ser persuasiva e decidida, característica de uma mulher que sabe o que deseja e não se deixa levar a abdicar de suas prioridades.
— Eu entendo, Menslike. Mas sempre haverá alguém precisando de vocês. Eu adiei minha aula ontem. Dourados é para um lado, Amambai para outro. Não dá para estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Ela fala com lógica, mas soa como frieza e egoísmo.
No portão, Dutra abaixa a cabeça. A frustração se transforma em irritação contida.
Ele encara Madm.
— Se eu conseguir condução… você vai?
Madm sustenta o olhar.
— Sim.
Dutra não responde. Apenas se vira e sai a pé, rápido demais para quem carrega esperança pesada. Em seus pensamentos, ele decide: “Ariela já foi com minha mãe, agora é a vez de seu irmão nos conduzir ao hospital.”
Dutra olha para o céu e pede:
— Deus, se o senhor convencer o Roskowo a levar o Sr. Madm para curar meu irmão, eu prometo que vou ser fiel em tudo que fizer e vou dedicar minha vida a fazer a sua vontade.
Enquanto isso, Madm retorna para dentro. Nokram o encara com rejeição.
— Não se trata apenas da condução. — Justifica Madm, firme. — Mas da exibição pública da cura.
O silêncio que se segue é denso.
Dourados — Meio da tarde.
O calor não pesa sobre o grupo que atravessa o pátio do hospital.
Madm, William e Nokram descem do carro. Dutra, sorridente, olha para o céu, crente de que sua oração foi atendida. Roskowo os acompanha.
Logo na entrada, uma jovem de belos cabelos louros, olhos cor de mel, discute com a atendente. A voz dela ecoa pelo saguão simples. Roskowo a identifica: é sua irmã, Ariela.
— Isso é um absurdo! Como podem fazer isso? Esse é um hospital evangélico? Uma missão cristã? E vocês só se importam com dinheiro?
Dutra se aproxima rapidamente. Após alguns segundos de conversa, a jovem cruza os braços e os acompanha até o grupo.
— O Trovão está ali aguardando. A dona Tainara está lá dentro, acompanhando minha irmã, Éfra. Ela está esperando atendimento.
Madm segue com Amada e William até o jovem.
Um rapaz de cerca de dezoito anos, envolto em uma coberta prata e preta. O corpo treme. O suor escorre em excesso.
Nokram se adianta, toca-lhe a testa e recua imediatamente.
— Madm… — chama, evitando qualquer exposição. — Este garoto está com febre altíssima. Deve passar de quarenta e um graus.
A jovem abre os braços, a revolta transborda:
— Então é isso! Eles não quiseram atender porque só havia dinheiro para uma internação!
Roskowo abraça sua irmã.
— Calma, Ariela. O Sr. Madm chegou. Ele vai curar seu amigo.
Madm franze a testa.
— Trovãozinho? Isso é nome de gente?
O garoto reage à voz.
— João José… mas me chamam de Trovão. Dizem que sou espontâneo como o apóstolo João.
Madm sorri levemente. Segura a mão do jovem.
— Você conhece a história de João, Trovão?
O garoto fala sem parar, apesar da fraqueza.
Madm toca sua testa.
O calor desaparece imediatamente.
— Precisamos ver a irmã. — Diz Madm. — Se ele estava assim, imagina ela.
Trovão leva a própria mão à testa. Os olhos se arregalam.
— Eu tô curado! Eu não sinto mais dor! Eu tô curado!
O grito ecoa. Os pacientes que aguardam miram o rosto do garoto e observam o grupo.
— Você pode curar pessoas? — pergunta uma mulher, que se aproxima.
— Ele pode! — responde Dutra, empolgado. — Com um toque!
A mulher toca Madm.
— Pode me curar?
— Só Deus pode curar. — Diz Madm, baixo, tocando-a. — Qual é o seu problema?
Ela não responde. Apenas sente a dor sumir.
— O senhor me curou!
— Eu pedi. O Criador curou.
O grupo é cercado pelos pacientes e familiares. William tenta conter. Uma leve confusão se inicia, e um funcionário do hospital intervém:
— Por favor! Isso é um hospital!
Nokram se inclina e sussurra:
— Pai… não podemos negligenciar essas pessoas.
Madm fecha os olhos por um segundo. Ele se deixa persuadir por seu filho mais uma vez.
— William, organize todos. Há uma árvore lá fora. Vou atender a cada um. Mas antes… vou falar de Deus.
A tentativa de manter os dons de Madm em segredo se torna quase impossível. Persuadido por Nokram, Madm decide colocar a necessidade das pessoas acima de sua estratégia.
18.16. No casebre de Amambai.
MT-386, estrada para Amambai.
Enquanto Madm e seus amigos são pressionados a exibirem o poder de Deus de maneira pública, Let viaja para Amambai ao pôr do sol. Após quase duas horas de viagem na caminhonete de William, ela chega à humilde residência de Miguel, seu namorado vampiro, que visita sob o pretexto de ensiná-lo a falar inglês. O céu está tingido de laranja e púrpura, refletindo-se nas poças d’água da estrada de terra.
Ao descer da caminhonete, Let percebe que Miguel está à espera, em frente ao humilde casebre, com sua expressão fechada. Ela engole a saliva e faz cara de preocupada:
— Perdão, você não tem ideia do que ocorreu. — Diz ela.
Miguel se aproxima dela e, percebendo a irritação de seu namorado, ela o beija após descer. Então, caminha alguns passos à frente, enquanto ele levanta seus cabelos e inclina sua cabeça a 90º para morder sua nuca e se alimentar dela.
Enquanto se alimenta de Let, Miguel tem acesso a todos os pensamentos e memórias recentes dela, exceto seus sentimentos por Menslike e os residentes em sua casa, em virtude de um bloqueio hipnótico realizado por Esme Cullen.
Após alguns segundos, o vampiro tira seus dentes do pescoço da moça e indaga:
— Seu irmão?
— Não! Foi uma escolha minha, eu realmente acredito no que eles ensinam e, como, se eu viesse, pareceria que estaria trabalhando, achei prudente não vir na Shabat. — Responde ela.
Com o gosto do sangue em seu paladar, Miguel pega Let pelas mãos e a puxa para dentro de sua humilde residência. Let percebe que a expressão de reprovação dele sumiu de sua face e sorri. Ao entrarem, Miguel a coloca contra a parede e a enche de beijos, dizendo:
— Eu estava irado e com saudades! Quase fui à casa de vocês hipnotizar todos e te sequestrar.
— Não tente fazer isso, não sabemos que poderes o tal Madm tem, e também, eu quero que eles te conheçam da forma mais positiva. — Adverte, ela.
Miguel sorri e a levanta em seus braços. Let se rende aos desejos de seu amado, crava suas pernas em sua cintura e deixa-se levar para seu quarto. Miguel a joga na cama e diz:
— Você falhou ontem, e será castigada!
— Eu sei, eu mereço. — Concorda ela, com seu olhar safado e apaixonado, direcionado a Miguel, que pula em cima dela na cama e indaga:
— Como você quer ser castigada?
— Quais são minhas opções? — Pergunta a jovem apaixonada.
— Você pode ser castigada com muito prazer, com muito amor, ou com muita dor! — Esclarece Miguel.
— E se eu escolher todas as opções? — Pergunta ela.
— Talvez eu seja bondoso e atenda seu pedido. — Afirma Miguel, aproximando seu corpo por cima do corpo de Let, que sente arrepios ao sentir a fria temperatura de Miguel sobre si.
— Então, eu acho que mereço ser punida com muita dor. — Confessa ela.
— Será? — Questiona ele.
— Mas gostaria de sentir muito prazer. — Continua Let.
— Está querendo muito, não está? — Pergunta Miguel.
— Sim! Estou querendo muito amor! — Responde ela.
Miguel sorri e diz:
— Você tem muita sorte de eu estar apaixonado, então você terá o que deseja e o que eu quero te dar agora… — Antes de ele terminar, ela o interrompe:
— E quanto ao que eu mereço?
— Vou anotar para executar essa parte do castigo em outro momento! — Decide ele.
Let o beija apaixonadamente, levanta seus braços com os olhos fechados, enquanto ele tira sua roupa para a possuir.
18.17. O retorno de Bruce.
Gotham City, fevereiro do ano católico de 1965.
Dois anos após a chegada dos enviados a nova realidade, o inverno ainda insiste em Gotham. O frio não é violento, mas constante — aquele tipo de frio que se infiltra nos ossos e permanece, como uma lembrança que se recusa a partir. As ruas estão úmidas, marcadas por uma garoa recente que deixou o asfalto escuro e reflexivo. Os prédios altos projetam sombras longas, mesmo em plena tarde.
Dentro de um café antigo, de janelas embaçadas e iluminação amarelada, Alfred Pennyworth permanece assentado sozinho. O ambiente é silencioso demais para um horário em que normalmente haveria conversas e xícaras tilintando. O rádio toca baixo, uma música instrumental quase imperceptível.
À sua frente, um copo de whisky permanece intocado há alguns minutos. O líquido âmbar reflete a luz como se fosse uma pequena lâmpada trêmula. Alfred o observa com olhos cansados, marejados. Seus ombros estão levemente curvados — não pelo peso da idade, mas por algo mais denso: a ausência.
Ele respira fundo, engole em seco, e as palavras escapam como uma confissão tardia, dita a ninguém e a todos ao mesmo tempo:
— Já fazem dois anos! Eu deveria tê-lo segurado, eu deveria tê-lo impedido! Eu tenho culpa de sua morte, Patrão Bruce! Eu sou culpado pelo seu triste e inexplicável fim.
A voz falha no final. Alfred fecha os olhos por um instante, como se esperasse que, ao abri-los, tudo tivesse sido apenas um pensamento. Não foi.
Enquanto ele permanece ali, imerso em culpa e memória, um ônibus urbano para na esquina do café. O freio sibila alto, quebrando o silêncio da rua. As portas se abrem com um estalo metálico.
De dentro do veículo desce um homem alto, magro, envolto em um casaco gasto. A barba espessa cobre parte do rosto, os cabelos estão mais longos do que o aceitável para os padrões sociais de Gotham. O corpo carrega marcas de cansaço — não o cansaço de uma noite mal dormida, mas o de anos mal resolvidos. O olhar é atento, desconfiado, como o de alguém que aprendeu a sobreviver observando antes de agir.
Para muitos, seria apenas mais um viajante anônimo.
Quase! Alfred, ao erguer os olhos casualmente em direção à janela, congela. O copo de whisky treme levemente em sua mão. Ele pisca, força a vista, inclina a cabeça, como se estivesse sendo traído pela própria imaginação.
Com a voz baixa, quase num sussurro, ele diz, mais para si do que para o mundo:
— O senhor não acreditaria que eu penso em ti, Patrão Bruce, e vejo um fantasma mais velho de como você poderia estar, se estivesse mal cuidado! — Diz ele, consigo mesmo, tentando enviar uma mensagem para Bruce, imaginando que ele pudesse ouvir.
Do lado de fora, o homem para abruptamente. Seus olhos se fixam na figura conhecida através do vidro embaçado. O tempo parece desacelerar. O barulho da cidade se dissolve em segundo plano.
O coração acelera. O mundo encolhe até aquele instante.
Ele reconhece o porte, a postura, o modo como o homem segura o copo — com dignidade mesmo na dor. Um sorriso contido surge, misto de incredulidade e alívio.
Quase um riso. Quase um choro.
— Eu não acredito! — Diz Bruce, consigo, sorrindo como se visse o rosto de um anjo do céu.
Ele atravessa a rua com passos decididos, mas contidos, como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse desfazer aquela visão. Empurra a porta do café. O sino metálico anuncia sua entrada.
O cheiro de café quente e pão recém-aquecido o envolve. Ele caminha até a mesa, puxa a cadeira e se senta diante de Alfred como se aquilo fosse o gesto mais natural do mundo.
Com simplicidade, quase infantil, ele diz:
— Estou com fome, será que o senhor pode me pagar um milk shake e um sanduíche natural?
Alfred não responde de imediato. Seus olhos percorrem o rosto diante dele, cada linha, cada detalhe. A mão trêmula se estende, toca o dorso da mão do jovem à sua frente, ele precisa sentir, precisa ter certeza. O toque é real. Quente. Vivo. O copo de whisky permanece esquecido.
Com um sorriso incrédulo, carregado de ironia britânica e alívio contido, Alfred diz:
— Eu orava para seu espírito entrar em contato comigo, mas o senhor não acha que, para um espírito de um bilionário, um retorno de ônibus é algo nada ortodoxo?
Após raro gesto de humor, ambos sorriem, um sorriso leve, contido, que exibe a felicidade atribulada que marca a existência dos dois e que possivelmente não mudará a partir de agora.





