15.1. O Lord das Trevas.
Hungria, janeiro de 1891.
Na vizinhança de Braşov, no condado de mesmo nome, uma fortaleza ergue-se imponente no sopé dos Montes Cárpatos, à beira da estrada 73, na fronteira entre Transilvânia e Valáquia. O castelo, sombrio e majestoso, aterroriza e fascina quem passa e pode observar suas torres de pedra esculpidas contra um céu cinzento. Oficialmente, o local abriga ciganos, mas os moradores da região sussurram que quem entra sem convite não retorna para contar histórias. Alguns afirmam que os ciganos servem como escravos de um ser sombrio através de um pacto selado com o abominável Lorde das Trevas.
Dentro da fortaleza, o interior combina beleza e terror. Uma parte do castelo repousa à margem de um rio assombroso, suas águas refletem as muralhas como um espelho sombrio. À janela, com a cortina aberta, um senhor idoso senta-se em uma cadeira de madeira, a pele enrugada e os dentes frágeis denunciam os séculos de existência. Ele balança a cadeira em silêncio, o olhar perdido no horizonte.
Três jovens observam a cena, vestidas com longos vestidos rodados. Uma donzela ruiva veste branco, outra de cabelos negros usa preto, e uma loira ostenta vermelho. Suas peles pálidas destacam uma intensidade quase sobrenatural, os rostos marcados por uma palidez que reflete sua condição. O único som no recinto vem do ranger da cadeira até que a jovem, de vestido preto, abre a boca e fala:
— Eu não gosto de ver o Lorde assim! Isso não é correto!
A loira de vestido vermelho acrescenta, seus olhos brilham com emoção. — Verdade! Um homem tão poderoso, deixando-se atrofiar e destruir. Isso me causa uma dor no coração.
Diante disso, a moça de vestido preto avança em direção ao velho, que gira a cadeira e estende a mão enrugada. Ela se curva, ajoelhando-se com o rosto tocando o chão, e diz: — Perdão, Lorde! Mil perdões, mas algo me atormenta.
O homem inclina a cabeça e, com a voz rouca, indaga: — O que te atormenta, Louise?
— Sua escrava serve um poderoso senhor. Sua escrava recebe tratamento de Lady e tem todas as necessidades saciadas. Nada me falta, mas algo não me agrada. — Responde ela, com a voz trêmula.
— O que te incomoda? — Insiste ele.
Louise ergue o tom, com a determinação crescendo. — Meu senhor é poderoso! Meu senhor tem condições de dominar esta região, mas infelizmente, ele se nega a se alimentar e rejuvenescer. O senhor precisa de amor, de aventuras, de vida. É certo que o meu senhor vive para sempre, mas me irrita vê-lo gastando sua eternidade apenas degustando sua dor.
O silêncio toma o recinto. Louise mantém a cabeça baixa, temerosa, até que a moça de vestido vermelho entra, com passos leves ecoando no chão de pedra. — Perdão, Lorde, mas o que Louise quer dizer é que sua tristeza nos contamina. Autorize-nos a caçar pessoas para o senhor se alimentar e escravizar. Autorize-nos a distraí-lo, a fazer toda a região, o país, o mundo temer o poderoso Vlad Tepes III, o incrível Drácula.
O velho levanta-se com os olhos faiscando de ira enquanto caminha até a moça e indaga: — Como ousa pronunciar meu nome, Greta?
Louise intervém, erguendo-se parcialmente: — Não faça mal a ela, meu senhor, o que ela quis dizer…
A ruiva de vestido branco interrompe, seus lábios curvam-se em um sorriso sutil: — Ela só quis dizer que o senhor precisa se divertir e pode começar castigando-a por tamanha ousadia, meu Lorde!
O homem para, seus ombros relaxam. Greta, com medo, ajoelha-se com o rosto em terra e fala: — Gostaria de servi-lo com outros prazeres, mas se minha dor o alegrar, não hesitarei em servi-lo assim, Lorde.
O velho recua, retornando à cadeira. Ele gira o assento para encarar as três e diz, suavizando: — Greta, Louise, Morgana, vocês são boas servas. Jamais estimulo a dor em vocês. — Ele pausa, seus olhos se perdem por um instante antes de abrir o coração. — Vocês sabem, nada omiti de minha história. Refugiei-me aqui para garantir um bom reinado à minha filha. Meu coração jamais pertencerá a outra mulher, exceto Elizabeth, minha única amada. O verdadeiro amor só existe uma única vez.
Louise ergue o rosto com voz a cativante: — Lorde, ninguém exige amor do senhor. Apenas diversão.
Greta concorda, seus olhos brilham com ousadia: — Exato. Damos prazer a tantos homens inúteis. Será que nunca seremos dignas de servir nosso senhor?
— Quieta, Greta! — Repreende Louise. Ela se vira para Drácula e continua com voz mais firme: — Perdão, Lorde, usar nosso corpo para lhe dar prazer seria uma honra, mas o senhor pode brincar com mulheres, fazê-las se apaixonar, mostrar sua virilidade e poder. Depois, quando enjoar, pode dominá-las ou eliminá-las. O senhor precisa ter prazer de novo.
Morgana sorri, seus dentes reluzem na penumbra. — Antes de eliminá-las, o senhor pode nos entregá-las. Certamente, não hesitarei em causar dor e terror aos seus brinquedos após eles o servirem, meu senhor.
Louise assente, sua expressão suaviza: — Meu Lorde, os lobos, as lobas, seus escravos vampiros e nós recebemos bom tratamento. Mas entenda, não ficarei bem enquanto não vejo meu Lorde sorrindo novamente.
Greta acrescenta, com o tom carregado de convicção: — O senhor se isolou aqui há séculos devido à sua filha, mas ela se isolou em algum lugar da terra. Abandonaram o trono da Valáquia e Transilvânia. Hoje, a Hungria domina esta terra com outra dinastia. O senhor já se puniu demais sem razão.
Louise sorri, lançando um olhar cúmplice: — Finalmente, você disse algo inteligente.
Greta ri, jogando os cabelos loiros para trás:
— Sim, sou inteligente, mas acho mais bonitinho ser linda.
Apesar da insistência, Drácula balança a cabeça, com a voz carregada de melancolia: — Elizabeth não vive mais! Meus descendentes não me amam. Não há motivos para deixar este castelo. Não há motivos para sorrir, nem para fazer nada senão lamentar pela eternidade.
O silêncio retorna, pesado como as muralhas do castelo, enquanto as três jovens trocam olhares, determinadas a mudar o destino de seu senhor.
15.2. O sequestro.
Valáquia, Século XV.
Três séculos e meio antes do pedido das servas de Drácula, no coração do século XV, a Valáquia, era um principado encravado nas montanhas do sudeste da Europa, treme sob o peso de disputas incessantes no ano católico de 1442.
Neste tempo, o Império Otomano, liderado pelo jovem sultão Mehmed II, lança suas hordas sobre as terras cristãs, exigindo tributos e submissão.
Vlad II, Dracul, voivoda da Valáquia e cavaleiro da sagrada Ordem do Dragão, resiste com a ferocidade de um leão, mas suas forças, exauridas por anos de conflitos, sucumbem ao avanço otomano.
Em um ato cruel de diplomacia, os turcos sequestram seus três filhos: Mircea, o herdeiro de olhos firmes; Vlad, um menino de dez anos com um coração ardente de paixão pelo cristianismo católico; e Radu, o mais jovem, de beleza frágil e alma inquieta; e os levam como reféns para garantir a lealdade do pai.
A caravana otomana serpenteia pelas estradas lamacentas do leste europeu, sob um céu cinzento que parece chorar pela Valáquia. O ar pesa com o fedor de suor, cavalos e medo. Amarrados com cordas ásperas que cortam seus pulsos, os irmãos seguem em silêncio, cercados por soldados otomanos cujas armaduras tilintam como um presságio de morte.
Vlad sente o coração disparar enquanto seus olhos varrem o horizonte, buscando um vislumbre da terra natal que se desvanece. Em sua mente, as palavras do pai ecoam como um juramento sagrado: “Seja fiel à cruz, meu filho, e à Ordem do Dragão. Que a Virgem Maria te guarde.” Ele aperta contra o peito um pequeno crucifixo de madeira, escondido sob a túnica rasgada, um último elo com sua religião, que o sustenta.
— Irmão, o que farão conosco? — Pergunta ele, com voz trêmula, mas carregada de uma curiosidade infantil, enquanto puxa a manga de Mircea, que marcha à sua frente.
— Não sei, irmão. — Responde Mircea, com tom seco, mas os olhos cheios de uma angústia que ele tenta esconder.
Como primogênito e futuro voivoda, Mircea carrega o peso de proteger os irmãos. Em sua mente, as lições do pai se misturam com o medo do desconhecido: “Um homem da Ordem do Dragão nunca se curva, mas um líder sabe quando esperar.” Ele quer acreditar que escaparão, mas a visão dos soldados otomanos, com seus turbantes escuros e cimitarras reluzentes, sufoca qualquer esperança.
Constantinopla
A caravana chega a Constantinopla, a grandiosa capital do Império Otomano, onde minaretes perfuram o céu e o chamado à oração ressoa pelas ruas de pedra. Os irmãos são separados sem cerimônia, arrastados por corredores úmidos de uma fortaleza que exsuda o cheiro de mofo e desespero. Vlad grita, sua voz infantil corta o ar como uma lâmina:
— Mircea! Radu! Meus irmãos! Mircea! Radu!
Os soldados o ignoram, suas botas ecoam no chão de pedra enquanto o conduzem a uma cela isolada. O corredor é um túmulo vivo, com paredes cobertas de musgo e sombras que parecem sussurrar segredos de sofrimento. Sozinho, Vlad é jogado em uma cela estreita, onde a única luz vem de uma fresta alta, quase inalcançável. Ele sobe na cama de palha, o cheiro de podridão invadindo suas narinas, e estica o corpo magro para alcançar a janela.
Do lado de fora, o pátio da fortaleza é uma cena de horror: prisioneiros, alguns cristãos como ele, são chicoteados sob o sol implacável. O som do couro corta a carne — chicli-plat! chicli-plat! — mistura-se aos gritos de dor e às ordens dos carrascos em uma língua estranha, mas Vlad reconhece uma frase, gritada com fervor:
— Em nome de Alá!
Seus olhos se enchem de lágrimas, não apenas pelo medo, mas pela empatia com aqueles estranhos que sofrem. Suas pernas cedem e ele desaba no chão frio, o corpo tremendo. Ao se arrastar para trás da cama, algo cai de seu bolso: uma pequena imagem da Virgem Maria, com seu olhar sereno, e o crucifixo de madeira, agora lascado.
Ele os aperta contra o peito, como se fossem amuletos contra a escuridão que o engole. “Por que, meu Deus? Por que nos abandonas?” Pensa, enquanto se ajoelha e reza em voz alta, as palavras do Pai-Nosso ecoando na cela como um desafio à opressão.
O som de sua oração atrai um soldado otomano, cuja silhueta imponente bloqueia a pouca luz da cela. Ele abre a porta com um rangido e arranca o crucifixo das mãos de Vlad, seus olhos faiscando de desprezo.
— Idolatria! Idolatria! Garoto abominável! — Ruge o soldado, com voz carregada de um fanatismo que Vlad não compreende.
Sem dar chance para protestos, o homem agarra o braço de Vlad e o arrasta para o pátio. O menino, com apenas dez anos, sente o coração disparar ao ver os outros prisioneiros, amarrados a postes de madeira, suas costas marcadas por vergões vermelhos. Vlad é amarrado a um desses postes, a corda corta sua pele. O carrasco, um homem de rosto coberto por uma barba espessa, levanta o chicote e proclama:
— O Profeta diz: não praticarás idolatria, sob pena de morte, cristianismo abominável!
A primeira chibatada corta o ar e atinge as costas de Vlad, arrancando um grito que ele tenta sufocar. Vinte golpes se seguem, cada um uma explosão de dor que parece rasgar sua alma. Sua túnica, agora em farrapos, está encharcada de sangue. Ele chora, não apenas pela dor física, mas pela humilhação e pela traição de tudo que conhece. Em seus dez anos de vida, protegido no castelo de seu pai, ele nunca imaginou tamanha crueldade. Arrastado de volta à cela, Vlad desaba no chão, o corpo ardendo, a mente nublada por perguntas sem resposta. “Por que, Virgem Maria? Por que permites isso?”
Dias depois, Vlad desperta com o toque amigável de um homem desconhecido, um otomano de olhar severo, mas com uma calma que contrasta com a brutalidade dos soldados. Ele aplica um unguento nas feridas do menino, o cheiro acre do remédio mistura-se ao mofo da cela.
— Como estás, filho? — Pergunta o homem, com voz quase paternal.
— Dolorido. — Murmura Vlad, com voz fraca e os olhos fixos no vazio onde outrora estavam seu crucifixo e a imagem da Virgem.
— Sabe que Deus revelou ao Profeta que a idolatria não deve ser praticada? — Indaga o homem, com uma mistura de curiosidade e firmeza.
— Não sei o que é idolatria. — Responde Vlad, sincero, mas com um brilho de desafio nos olhos. Ele não entende as palavras do homem, mas sente que sua religião, o único refúgio que lhe resta, está sob ataque.
— A culpa não é tua. — Diz o homem, inclinando-se para mais perto. — Te visitarei diariamente para te ensinar o Alcorão. Terá a chance de te livrar do inferno. Pois Deus abomina a idolatria, e essas imagens não têm poder.
Vlad não responde. Em seu coração, as palavras do pai e as orações da infância lutam contra o medo e a dor. Ele aperta os punhos, prometendo a si mesmo que, não importa o que os otomanos façam, jamais renunciará à cruz que carrega na alma. Mas, na escuridão da cela, uma semente de dúvida germina: “E se Deus realmente me abandonar?”
15.3. A promessa de Faustão.
Fazenda de Thomaz Muller, sexta-feira, 29 de março de 1963, no calendário católico, final do 4º dia do 1º mês no calendário da Bíblia.
A noite cai suavemente sobre a Fazenda de Thomaz Muller, o céu é tingido de roxo e laranja enquanto as primeiras estrelas começam a surgir. O som de grilos enche o ar, misturado ao forte ranger de uma caminhonete que deixa a fazenda.
Faustão vê a cena e murmura, lamentando:
— Ele saiu sem falar com a Kilba?
Aparício cruza os braços e rebate, com voz seca:
— Não foi você que acabou de repreender o Duck, dizendo que o chefe não tem que dar satisfação para nenhum de nós?
Calado e visivelmente indignado, Faustão cerra os punhos antes de se dirigir ao interior da casa.
No canto de um dos cômodos, Kilba trabalha sozinha, dobrando roupas sobre uma mesa antiga.
— Ele não falou com você? — Indaga Faustão, com voz preocupada.
— Não! Mas tenha certeza de que eu não vou tirar esse filho, no máximo procurar um novo emprego. — Responde ela, com voz firme e olhos brilhantes em expressão de determinação.
Faustão sente compaixão, com seu rosto suavizando enquanto se aproxima dela.
— Fique tranquila, Kilba, se ele te demitir, tenha certeza de que eu me demito. — Diz ele, com voz emocionada.
Kilba, preocupada, abaixa a cabeça e lamenta:
— Você não precisa tomar as minhas dores, eu sei o que fiz, e eu sei o que eu vou fazer. Só comentei que, por você ser evangélico, sabe que eu posso ser adúltera, mas não sou assassina.
Faustão, indignado, bate o punho na mesa e reafirma:
— Eu não me batizei e me consagrei pastor para aceitar tudo que me convém. Não se trata de tomar suas dores, se trata de defender o que é justo!
O silêncio paira na sala, interrompido apenas pelo crepitar da lâmpada, enquanto os dois se encaram, carregados de emoção.
15.4. A Laila Shabat.
Residência de William.
Nesse ínterim, na residência de William, Madm e seus amigos cantam e louvam o Deus Criador junto com William e sua família. Aos poucos, vizinhos e amigos chegam à residência deles e também celebram. Em meio à chegada de muitos, Menslike se mostra apreensivo e repetidas vezes pergunta sobre Let:
— Por que ela ainda não chegou? — Pergunta ele a Ângela, com voz ansiosa.
— Ela não está acostumada a guardar o Yom Shabat, tinha aula longe. Já deve estar chegando. — Responde Ângela, com voz calma.
Alguns minutos depois, ele se dirige a William:
— Será que não ocorreu algo com sua irmã? Algum acidente ou algo assim? — Pergunta com voz preocupada.
— Eu sou capitão de polícia, ela está com meu carro, se algo ocorrer, certamente meus amigos na Polícia Rodoviária me avisarão. Fique tranquilo. Ela já deve estar chegando. — Tranquiliza William, com voz firme.
Blue Mary percebe a preocupação de Menslike com respeito a Let e comenta com Ângela:
— Que fofa preocupação dele com sua cunhada, acho que ele quer pertencer a sua família.
Ângela ouve, olha para a moça, silencia por um momento e depois, provoca, com tom ameno, para apenas ela ouvir.
— Provavelmente sim, mas o seu tom mostra que se minha irmã continuar dando mole terá concorrência.
Blue Mary fecha sua expressão e rebate:
— Está pensando o que de mim?
O grupo segue entoando diversas músicas, o local lota de amigos e vizinhos do capitão de polícia. Em meio a estes, Faustão também se aproxima do portão, pede licença e diz:
— Senhor William, eu soube que o senhor foi abençoado por estes anjos de Deus que estiveram na fazenda onde eu trabalho, antes de virem para cá. Queria saber se posso participar deste culto de gratidão com vocês. — Diz ele, com voz respeitosa.
— Claro! Todos são bem-vindos. — Diz William, com voz acolhedora, ignorando o fato de Faustão trabalhar com Thomaz Muller, alguém que ele claramente não aprova.
Após entoarem cerca de vinte músicas, William pede para todos se assentarem em mesas e, na ausência de mesas, em tecidos, postos ao chão, onde recebem alguns pães e frutas para degustarem e, quando todos se assentam, ele diz:
— Durante esta semana, Deus me abençoou tremendamente. Ele trouxe a cura à Ângela e a um grupo de amigos muito abençoado que, durante os últimos quatro dias, me ensinou mais sobre a Bíblia do que aprendi em minha vida inteira. Então, eu os chamei hoje para ouvir o que eles têm a dizer sobre a shabat, algo que aprendi nas escrituras.
William ainda está falando quando o som de uma caminhonete ecoa do lado de fora. Let chega, tentando ser discreta, mas sem muito êxito, a poeira do caminho adere às rodas do veículo.
Menslike se levanta e se apressa em direção a ela, oferecendo o braço para ajudá-la a se sentar, um gesto simpático que reflete sua afeição.
— Let, que bom que você chegou, estávamos todos preocupados. — Diz ele, com voz aliviada.
Alguns se entreolham, de forma discreta, com sorrisos irônicos.
Let sorri com timidez e um pouco de vergonha, tenta justificar seu atraso:
— Me perdoem, eu tinha aula em Amambai, devido à noite, vim devagar, mas tenham certeza de que parei antes do sol se pôr. — Diz ela, com voz hesitante.
Todos se calam, ela se assenta ao lado de Menslike.
Pedro, o amigo católico de William, sussurra para outro, com voz baixa:
— Será que a cura da Ângela foi mesmo obra divina, ou só um truque desses forasteiros?
O outro homem dá de ombros, intrigado.
Healer, ao lado de duas jovens morenas muito parecidas, uma delas com mechas louras no cabelo, comenta sozinho:
— Quase não está apaixonado, o garoto!?
As duas moças sorriem e se entreolham, e a garota sem as mechas louras pergunta:
— Perdão, mas é verdade que vocês podem curar as pessoas? — Indaga ela, com voz curiosa.
— Não! Só Deus pode curar alguém. — Responde Healer, com voz séria.
A garota com as mechas diz, irritada, lançando um olhar de desaprovação em direção a Madm:
— Eu te avisei que era perda de tempo vir aqui. Era muito melhor fazermos uma novena com o Padre Lucius, Joaquina. — Diz ela, com voz cortante.
A garota sem as mechas abaixa a cabeça e deixa Healer curioso:
— Por que a pergunta de vocês? — Indaga ele, com voz intrigada.
— Um amigo nosso, Bunnym, está com problemas de estômago, está muito magro. A gente ouviu falar que vocês poderiam curar pessoas e achou que talvez pudessem ir à casa dele e curá-lo. — Explica Maria Joaquina, com voz suave.
Enquanto isso, Madm se levanta e diz:
— Amigos, é uma honra poder falar sobre as escrituras sagradas. Quando o Eterno criou a vida na Terra, ele fez isto em seis dias. Isto está em Bereshit, livro que conhecemos na Bíblia como Gênesis, no primeiro capítulo do livro. Logo em seguida, no capítulo 2, Deus ordena que todo homem separe o sétimo dia para repousar.
Um dos convidados de William sussurra para seu amigo:
— Eu sei disso desde que fiz catequese, que horas ele vai falar a novidade?
Madm ouve, para o que estava falando, se dirige ao homem e diz:
— Exatamente aí, se formos um pouco mais adiante, no próximo livro das escrituras, o livro de Shemot, Êxodo, capítulo 20, temos registrado um trecho escrito primeiramente pelo próprio Deus em tábuas de pedra. Este trecho ficou conhecido como os dez mandamentos. O senhor conhece os dez mandamentos?
O homem sorri e diz:
— Sou católico desde criança, é claro que conheço! Amar a Deus sobre todas as coisas, não usar o nome de Deus em vão, guardar domingos e festas católicas… — O homem tenta prosseguir, mas Madm o interrompe:
— Estes são os mandamentos que o senhor aprendeu na Igreja?
— Sim! Claro! Decorei-os, assim como decorei todo o terço. Sou fiel a Deus, um católico praticante! — Afirma o homem, entusiasmado.
Madm pega uma Bíblia Católica versão Ave Maria e coloca nas pernas do homem, abre a escritura no livro de Êxodo, capítulo 20, e pede para o homem ler. O homem começa a leitura:
“Então, Deus pronunciou estas palavras: 2.‘Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão. 3. Não terás outros deuses diante de minha face. 4. Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra. 5. Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto. Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zeloso, que vingo a iniquidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam, 6. Mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos. 7. Não pronunciarás o nome do Senhor, teu Deus, em prova de falsidade, porque o Senhor não deixa impune aquele que pronuncia o seu nome em favor do erro. 8. Lembra-te de santificar o dia de sábado. 9. Trabalharás durante seis dias e farás toda a tua obra. 10. Mas no sétimo dia, que é um repouso em honra do Senhor, teu Deus, não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem o estrangeiro que está dentro de teus muros. 11. Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo que neles há, e repousou no sétimo dia; e, por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o consagrou.’”
Quando o homem lê o versículo 11, Madm o interrompe:
— Conseguiu perceber alguma diferença entre a sua citação dos mandamentos e o que você leu?
— Espantado, o homem gagueja ao responder:
— É!… Hã… tudo!
— Exatamente! Nesta noite, eu quero convidar vocês a começarem a estudar as escrituras. A Bíblia é a palavra de Deus? Se sim, vamos aprender o que nela tem escrito. Aqui, neste texto, nenhum domingo é citado. O sábado, nome latino para descrever o original Yom Shabat, é citado como dia de repouso. O Yom Shabat é o verdadeiro sétimo dia… — Madm prossegue seu discurso, deixando os convidados em silêncio, bastante atentos, todos mantêm os olhos fixos nele, surpresos com suas palavras. — Os profetas, como Yeshayahu, conhecido popularmente como Isaías, e Yirmiahu, conhecido como Jeremias, guardaram o Yom Shabat como sinal de aliança com Deus, prometendo bênçãos a quem o observa, conforme Isaías 56:2. Yeshua, o Messias, também o guardou, ensinando em sinagogas no Shabat, como em Lucas 4:16. Seus apóstolos, como Paulo, continuaram essa prática, conforme Atos 13:42-44. Porém, com a desjudaização política do cristianismo, influenciada por imperadores como Constantino no século IV, o domingo foi adotado, ignorando o mandamento original para alinhar-se a tradições romanas. Hoje, convidamos vocês a retornar à raiz das escrituras.
Enquanto Madm fala, as duas garotas ao lado de Healer se irritam:
— Ele fala, fala sobre a guarda de um dia, mas eu quero saber se ele vai poder curar o Bunnym ou não. — Lamenta Maria Joaquina, com voz frustrada.
— Eu acho que ele só quer doutrinar a gente, Jô, vamos embora. — Sugere a garota com mechas douradas, com voz impaciente.
Healer percebe a inquietação das moças e diz:
— Acalmem-se… — Sem saber o nome da moça, ele espera que ela complete.
A moça com a mecha loura se identifica:
— Sasha Grey, e esta é minha irmã Maria Joaquina. — Diz ela, com voz firme.
Healer sorri para as duas e promete:
— Após o discurso de meu irmão, eu vou falar com ele. Quem sabe ele visite o amigo de vocês.
Let, assentada ao lado de Menslike, se impressiona com a oratória e conhecimento de Madm:
— Como ele sabe tanto sobre as escrituras? — Indaga ela, com voz admirada.
— Hey, você esqueceu que estivemos na presença do próprio Deus? — Pontua Menslike, com voz brincalhona.
Madm encerra seu discurso, e William convida a todos para continuarem apreciando o jantar, que Madm chama de kiddush, que agora ganha arroz e manjares para serem servidos em pratos. Ao lado de Amada, Ângela também se mostra impressionada com as palavras de Madm.
15.5. A trama dos Shedim.
Jardim do Éden, 14º dia do 8º ano após a criação da vida na Terra.
Quase seis milênios antes da reunião de Madm na casa de William, após o gênio ter sido preso novamente por Helel, alguns shedim movem-se como se estivessem esperando mais punições por parte de Helel. Este, por sua vez, se contenta em declarar:
— Eu o libertei! Foi rebelde; eu o prendo de novo. Quero ver quem será o homem que o libertará!
Em seguida, ele desafia os shedim:
— Alguém mais quer ir embora?
Neste ínterim, uma figura que destoa das sombras. Vestida com vestes que lembram toga e escudos antigos, sua presença tem a serenidade austera de quem reclama direito e ordem. Não se pronuncia como quem se pronuncia pela primeira vez; ele curva-se, porém, com uma reverência que não é de medo, e fala com voz firme:
— Juntos nos rebelamos no céu, meu senhor. Juntos vamos lutar por nossa vida e pela justiça eternamente, contra a tirania do governador do universo.
Helel sorri, absorvendo a devoção como se fosse óleo para sua chama.
— Isso mesmo, — disse — você é um bom servo! Tenha certeza, Santo, ainda te adorarão como um deus! E, dentro do possível, prometo: será símbolo de divindade, poder, justiça e fidelidade em todo o mundo!
Santo sorri enquanto um ser de aparência grotesca e magnífica aproxima-se: corpo de homem, pele de madeira escamada a exemplo das árvores, cabeça de corvo, três olhos alinhados que brilham como pequenas luas. Ele move as asas curtas, e a sua voz sai com o tom de quem traduz segredos.
— Eu ainda estava no céu quando vi a maioria de nós queimando — diz ele. — Eu posso ver o futuro. Vi homens lutando a nossa luta, com muitos contra uma grande cidade. Vi também Mikh’El destruindo muitos de nós. Dito isto, o homem deve ser nosso aliado; não podemos destruí-lo.
Um murmúrio percorre a assembleia: vozes que vêm de bocas com dentes disformes e olhos famintos. Mephisto interrompe com desprezo, sua forma tem contornos de fogo e carne que se retorcem em sorriso.
— Ele fala besteira. — Resmunga ele. — Melhor calá-lo.
Helel bate a mão no chão como quem impõe lei.
— Silêncio! O Corvo de Três Olhos fala. Ouçam-no!
O Corvo ergue a cabeça e prossegue:
— Eu sou o Sr. do Conhecimento, o problema não é o homem. O problema é a ira do Altíssimo que recai sobre nós. Se os homens forem nossos aliados, talvez possamos desviar essa ira.
R’llor, que observa tudo com o coração dividido, sente em si a chama da dúvida.
“Eu preciso salvá-los”, pensa. “Foram enganados por Helel; enquanto Helel for líder, não haverá salvação.”
E, olhando para o céu, procura um presságio.
Ele ainda está olhando quando um rugido suave corta o ar: um dragão atravessa o horizonte, asas abertas como folhas de noite. Dois shedim em forma de dragão apontam para o animal que passava.
— Vejam a injustiça. — Fala um deles, a voz reverberando em escamas. — Um belo dragão, feito à nossa imagem, ilustre, voador, obrigado a sujeitar-se ao homem. Absurdo.
— Isso mostra a injustiça do Altíssimo, Dragon Lord, — completa Asmodeus — que escolhe os fracos para governar os fortes.
Lilith, com traços que já não eram mais apenas belos — pele marcada por sombras, rosto com traços de coruja que destoam da formosura ancestral — escuta e murmura com amargura:
— Não é só o Altíssimo. Vejam como me amaldiçoaram só porque sou fêmea.
Algumas shedim fêmeas riem, outras lançam olhares, e um dos shedim em forma de dragão que está ao lado do Dragon Lord inclina a cabeça.
— E se tudo estiver certo e o que precisamos for unir essas ideias numa só?
Helel pergunta:
— O que sugere, Shenlong?
Shenlong começa a flutuar, ascendendo. Nuvens se modelam ao seu redor; o céu relampeja, não com trovões, mas com reflexos de uma vontade que molda o clima. Quando a luz baixa, Shenlong fala devagar, como quem compõe um xadrez:
— Vejo que o Corvo e o Dark Lord têm razão: precisamos do homem como aliado. Vejo também que Lilith pode ser chave — as mulheres persuadem. E, se Samael tem razão quanto à violência ser uma via, então que a violência seja instrumento onde for necessária. Mas não apenas isso: enviemos um de nós a Nachash, o belo dragão que cruzou este céu há pouco. Convençamo-lo a nos unir. Mostremos-lhe que somos mais astutos, mais sábios. Que ele convença a mulher a se rebelar contra o Altíssimo — e, por extensão, faça o homem seguir.
O Corvo cerra o bico.
— Meu nome é o Sr. do Conhecimento! Quando vão me respeitar?
Samael ergue-se: olhos frios, sombra que lembra lâmina. Ele observa Shenlong, medindo o risco. Mephisto rosna, impaciente.
Helel, no entanto, sorri e diz:
— Está decidido! Enviaremos mensageiros. Nachash ouvirá. Veremos se o orgulho de um dragão é maior que sua submissão. Mas não enviaremos qualquer um, você irá, Dragon Lord, afinal, você tem forma de dragão e quem Nachash ouvirá, senão um deus que tem sua própria forma?
Enquanto a assembleia analisa a proposta de Helel, Lilith olha para ele com olhos onde brilha algo que podia ser raiva ou promessa; Shenlong sobe aos céus e desaparece como fumaça que segue o vento, seu veneno fora lançado, agora era só observar a sequência dos acontecimentos.
Dragon Lord se indigna e, em seus pensamentos, debate:
“Por que eu? Certamente haverá uma grande punição a quem incitar rebelião contra o Altíssimo?”
No entanto, ele olha para Lilith, em sua forma de coruja, uma shedim que fora a mais bela, agora amaldiçoada por não ser fiel à ordem de Helel, o que lhe prova que ele precisa obedecer e ignorar o seu real querer.
15.6. O temor de George Anderson.
Residência dos Anderson, pôr do sol de sexta-feira, 29 de março de 1963, no calendário católico, final do 4º dia do 1º mês no calendário da Bíblia.
Enquanto isso, na residência dos Anderson, George medita sobre os últimos acontecimentos de forma solitária, sentado em uma poltrona gasta, seu rosto é iluminado pela luz fraca de uma lâmpada a óleo. Sua esposa percebe sua apreensão, se assenta ao seu lado e diz:
— Eu não tenho tido notícias de crimes graves nos últimos dias, e os problemas do Nate, normalmente não te abalam, então, o que poderia estar deixando meu amado tão tenso?
George sorri, abraça sua esposa e diz:
— O medo de tempos sombrios retornarem, Cleide.
Cleide tenta acalmá-lo, dizendo:
— Tempos sombrios para você, só quando a lua cheia chega, mas você tem sido tão prudente que nem isso tem lhe afetado.
— Pois é, mas assim como existem lobisomens, existem outros seres com perversidade semelhante e eu percebo que eles estão se aproximando de nós. — Insiste o homem.
Cleide se levanta, contagiada pela apreensão de seu marido, e adverte:
— A última vez que você andava assim, terminou mordido por um lobisomem. Por que não aproveita e vai até a Residência de William, festejar com ele a cura de sua esposa?
George Anderson se levanta, abraça sua esposa e confessa:
— Porque eu acredito que lá está o mal que nos atingirá. Aqueles que parecem fazer o bem para William podem estar iludindo os tolos, mas a mim, não iludem.
15.7. O sussurro de Sally.
Aldeia de Kerala, Índia, 1943.
A noite avança, Dhalsim ouve o ronco de seu estômago e observa Sally dormindo, sem ter se alimentado, mas como uma companheira fiel, sem ter reclamado ou murmurado. Dhalsim se posiciona para iniciar sua sessão de Yoga, uma técnica que tem o auxiliado a controlar seu corpo, seus desejos e ainda orientar todos os moradores de sua aldeia a tentarem fazer o mesmo.
Dhalsim começa a se alongar e, quando ouve pela terceira vez um barulho em seu estômago, a porta de sua casa é preenchida por desesperadas batidas que quebram o silêncio.
— Dhalsim… pelo amor dos deuses… — a voz feminina clama e falha do lado de fora.
Ele se levanta de imediato e abre a porta.
A mulher entra tropeçando, seus pés estão cobertos de poeira, seu rosto cavado pela fome e pelo pânico. Seus olhos não pedem explicação — pedem socorro.
— É meu filho… — ela diz, quase sem ar. — Ele não come há dias. Ele não chora mais como antes…
Dhalsim não responde. Apenas a segue.
Sally acorda, se arruma rapidamente, desprezando qualquer vaidade feminina, e o acompanha.
A casa da mulher é menor. Mais escura. O cheiro do local é de terra seca e a sensação é de desespero contido. No chão, sobre um pano gasto, uma criança respira com dificuldade. Seu peito sobe e desce devagar demais. Seus braços são finos como galhos.
Dhalsim se ajoelha.
Toca a testa da criança. Quente.
Toca o pulso. Fraco.
Ele fecha os olhos por um instante — não em oração, mas em frustração.
— Não há o que eu possa fazer, — diz, por fim, com vergonha.
A mãe não grita.
Ela apenas se senta no chão.
— Então ele vai morrer? — Indaga, como quem aceita algo que já sabia.
O silêncio pesa mais que qualquer choro.
Sally observa Dhalsim — o homem que fala de disciplina, de purificação, de força espiritual — ajoelhado diante da própria impotência.
Quando eles se afastam, já fora da casa, ela se aproxima do ouvido dele e sussurra:
— Vá à caverna.
Ele se vira, tenso.
— Liberte o Jinn.
Ele aperta os punhos.
— Você terá três pedidos, — ela continua. — E pode salvar nossa aldeia.
Dhalsim olha para a escuridão além das casas.
Desta vez, ele não responde, mas o desespero e possível morte de um puro menino de poucos anos o assombram e exigem dele, uma atitude imedita, não racional, que supere o domínio dos movimentos comporais ou o poder da mente.
15.8. O pedido de Sasha e Joaquina.
Residência de William, sexta-feira, 29 de março de 1963, no calendário católico, início do 5º dia do 1º mês no calendário da Bíblia.
Nesse ínterim, todos se alimentam e confraternizam na casa de William, enquanto as irmãs Sasha e Maria Joaquina procuram Healer, que está ao lado de Luk, seu irmão. Sasha diz:
— E aí? Vocês vão curar meu amigo ou não?
Luk olha Healer com espanto e indaga:
— Curar? Como assim?
Healer responde, com temeridade:
— O Bruninho, amigo delas, está doente e elas querem que o Madm o cure.
— Não é Bruninho, é Bunnym! — Rebate Sasha.
Joaquina observa as palavras de Healer e diz:
— Então é o Madm quem cura, não é? Eu vou falar com ele!
Maria Joaquina se movimenta para falar com Madm, mas é segurada por Luk, que adverte:
— Não! Deixe que eu fale!
Luk se dirige a Madm, Sasha e Joaquina o seguem a certa distância. Bebeto se aproxima de Healer e o provoca:
— Hã, tio, então você está de rolo com as duas ali.
— Não. Não diga besteira. — Corrige Healer.
— Então, você pode apresentá-las para mim? — Segue provocando Bebeto.
— Você tem 12 anos, elas têm 18, jamais teria chances com elas. — Responde Healer, indignado.
— O senhor tem 100, também é muito velho para elas. — Rebate Bebeto.
— É por isso que não terá nada entre nós! — Diz Healer, indignado, caminhando em direção a Madm.
Enquanto isso, Luk explica a situação para Madm, que hesita:
— Não! Nós combinamos que não divulgaríamos o poder que Deus nos deu. Isso só atrairá ilusão para nós.
— Mas Madm, o amigo delas, está doente. Não foi para isso que Deus nos enviou? — Rebate Luk.
Amada e Nokram percebem que eles conversam baixinho sobre algo e se aproximam. Amada, com seu jeito meigo e discreto, sussurra no ouvido de Madm:
— O que está ocorrendo?
— O Luk quer que a gente visite e cure um amigo das amigas de Healer. — Responde Madm, em tom bem baixo.
— E por que não fazemos isso? — Questiona Amada.
— Porque todos perceberão o dom que Deus nos deu e, como elas, todos nos procurarão, e isso poderá desviar o foco de nossa mensagem e missão. — Justifica Madm.
Nokram, no entanto, se irrita com as palavras de seu pai e diz:
— Hey! Na hora de acertar os números da loteria para o William, o senhor não hesitou. Na hora de curar a Ângela para nos livrar de problemas com a justiça, o senhor agiu rápido. Na hora de buscar um local para ficarmos, o senhor se abriu com Thomaz Muller, mas agora se nega a atender o pedido de duas garotas em favor de seu amigo.
— Não é isso… — Tenta justificar Madm, mas é interrompido de novo por seu filho, que afirma:
— Se o senhor não atender o pedido delas, vou achar que só está usando o poder que Deus lhe deu para proveito próprio, e isso nos faz indignos do reino de Deus.
Amada percebe a tensão nas palavras de Nokram e adverte:
— Calma, filho, seu pai atenderá o pedido das moças, mas irá à casa do rapaz depois que todos saírem, não é, meu amor? — Diz ela, em direção a Madm, que se cala, mas acena positivamente com a cabeça.
Healer, se aproximando da roda deles, sorri e diz:
— Ótimo, vou avisá-las!
A cena é observada por um homem que acompanhou toda a reunião, coça a cabeça, mas não diz nada.
15.9. A ousadia de Selyna.
Mansão de Falcone.
Enquanto em Ponta Porã, Sasha e Joaquina buscam cura para seu amigo, Bunnym, em Gotham, Selina Kyle aparece em frente à mansão onde Carmine Falcone reside, tocando a campainha do portão insistentemente no meio da noite. Após tocar várias vezes, uma voz de mulher responde:
— Pois não?
— Eu preciso falar com o Senhor Falcone. — Responde ela.
— Quem é a senhorita? — Pergunta a mulher, pelo interfone.
— Sou Selina Kyle, ele sabe quem sou. — Responde, a jovem.
Após alguns segundos de silêncio, a mesma mulher indaga:
— A senhorita tinha horário agendado com ele?
— Não. — Responde Selina.
— Então, Dom Falcone não está. — Justifica a mulher.
— Onde eu o encontro? — Pergunta Selina.
A pergunta de Selina irrita a mulher, que responde rispidamente:
— Moça, Dom Falcone é um homem sempre ocupado e sem agenda pública. Se a senhora é amiga dele, combine um horário direto com ele.
Selina fecha sua expressão e se resume a agradecer:
— Ok, obrigada!
Iceberg Lounge, Gotham, algumas horas depois.
Mais tarde, na Iceberg Lounge, Selina dança com outras garotas, vestindo um vestido justo de cetim preto, típico de uma dançarina sensual dos anos 60, com detalhes de renda nas mangas e um decote ousado que realça sua silhueta. Não demora até visualizar Falcone, assentado em um camarote. Ela se aproxima e sussurra no ouvido dele:
— Por que será que o maior mafioso de Gotham não quis me receber há poucas horas, quando o procurei?
Falcone balança a cabeça negativamente, e Selina o puxa pela gravata, aproximando sua boca da dele. Ele a repreende:
— Ou você está muito endividada, ou gosta de fazer o que faz! Porque a mala que te dei ontem não tem como ter sido torrada em apenas um dia.
Dançando, Selina sussurra em seu ouvido:
— Eu paguei para estar aqui. Paguei o dobro da diária para uma moça, só para olhar em seu rosto e tentar compreender o que você fez.
— Eu ajudei uma garota mimada e perdida, mas já me arrependi. — Responde Falcone.
— O que você fez com a Anikka? — Pergunta Selina.
— Do que você está falando? — Rebate Falcone.
— Eu sei que você me dispensou para ficar com ela, mas pagou algo pra ela me deixar sozinha? Qual seu rolo com minha família? E por que Annika não retornou? Se ela não voltar, a casa se torna minha, ok?
Falcone se irrita e brada:
— Chega de disparate! — Ele empurra Selina, que cai em cima de uma mesa cheia de bebidas caras. Em seguida, ele diz: — Tirem essa prostituta daqui!
Após arrumar sua gravata, ele deixa o local. Os seguranças pegam Selina e a retiram do local. Enquanto é segura, ela grita:
— Me soltem, eu só quero saber da minha amiga. Eu só quero saber onde está Annika.
15.10. A cura de Bunnym.
Ponta Porã.
Em Ponta Porã, após a maioria dos presentes deixar a casa de William, ele se dirige à sua caminhonete. Madm o acompanha na cabine, enquanto Sasha, Joaquina e Healer sobem na carroceria do veículo.
Ao subir, Joaquina reclama:
— Achei que esse horário nunca ia chegar?
— O importante é que o Bunnym fique bem. — Atenua Sasha.
Após alguns minutos, o veículo estaciona em frente a uma humilde residência. Joaquina é a primeira a descer e bater palmas. Healer caminha a seu lado, Madm, William e Sasha atrás.
Um homem de meia-idade, bem-vestido com uma camisa social bem ajustada e calça social refinada, sai para atendê-los. Joaquina é direta:
— Perdão pela demora, Sr. Silvester, mas estes são os homens que curaram a esposa do Capitão William. Eu os trouxe para fazerem o mesmo com Bunnym.
Healer a corrige imediatamente:
— Não, o Criador, o Eterno, é quem realiza toda cura.
As palavras de Healer deixam o homem irritado:
— Vocês vão curar meu filho, ou não? — Pergunta ele.
Dois jovens muito parecidos se colocam à porta da casa, aparentemente com a mesma idade, porém um bem magro e outro bastante gordo.
Madm se aproxima de Silvester, no portão, e diz:
— Boa noite, Sr. Silvester, nós viemos conhecer seu filho e pedir para que o Criador, o verdadeiro Deus, o Deus de Israel, tenha piedade e o cure.
— Muitas curandeiras e benzedeiras já vieram aqui em casa, ninguém exibiu resultados. Por mim, eu já teria dormido, mas ele está aguardando vocês. — Diz o homem.
O grupo adentra a casa simples, uma residência de classe média para uma família com três filhos, com sala de estar modesta decorada com uma estante de madeira e retratos emoldurados, e um corredor estreito que leva aos quartos. Eles entram no quarto de Bunnym, um garoto mais magro que o jovem à porta.
Bunnym olha com esperança para Joaquina e diz:
— Minha amiga, você realmente os trouxe a mim?
Maria Joaquina acena com a cabeça, Madm se assenta ao lado de Bunnym e pergunta:
— O que você tem, meu amigo?
— Há alguns meses eu comecei a sentir dores estomacais, tenho constantes diarreias, estou muito magro e sinto muita dor. Não temos recursos para fazer tratamento, meus pais não têm tempo para ir a outra cidade. Não sei se viverei muito. — Diz ele, com voz cheia de tristeza.
O tom de voz de Bunnym enche Madm de compaixão, então ele diz para o garoto:
— Nenhum homem ou criatura pode realmente curar, toda cura e milagre pertencem ao Criador, o verdadeiro Deus, aquele que é rei, reina e virá reinar por meio de seu escolhido, conosco.
Bunnym olha para Madm com muita atenção e diz:
— Mas este Deus não delegou pessoas para realizar suas curas pela Terra?
Madm acena com a cabeça, toca a mão de Bunnym, que imediatamente para de sentir dor, enquanto Healer diz:
— E Madm foi escolhido por Deus para fazer seus milagres nesta realidade.
A expressão de Bunnym muda e ele diz:
— As dores passaram.
— Sim, Deus o curou. — Responde Madm.
— Assim, tão simples? Sem nenhum ritual? Você não vai mandar ele mergulhar no lago sete vezes? — Pergunta Sasha.
— Não. O Criador tem poder para fazer seu desejo como achar adequado e hoje ele curou seu amigo. — Responde Madm.
— Sim, eu fui curado! — Celebra Bunnym, que acrescenta: — E eu estou com fome. Por favor, sirvam-me algo.
Todos se olham, Silvester coça a cabeça sem acreditar. Em meio à incredulidade, Madm sugere:
— Se for possível, vá ao médico se examinar, mas não vá amanhã, pois é a shabat do Criador.
No entanto, Bunnym o surpreende:
— Hey, eu não preciso de médico para dizer o que estou sentindo, eu não sinto mais dor. Estou curado. — Os dois irmãos o observam, seus pais também, então ele insiste: — Mãe, pai, Asfalto, Gabi, o que estão esperando para fazer algo para eu comer, façam também para nossos amigos.
— Não estamos com fome. — Diz Healer.
— Mas comeremos contigo sim. — Rebate Madm.
Todos sorriem, alguns ainda com temeridade, outros com alegria.
15.11. Fumaça calmante.
Mansão Queen, Star City.
Enquanto em Ponta Porã, Madm tenta atenuar a dor daqueles que conhece, em Star City, a dor não encontra repouso. Pelo contrário, infiltra-se pelos corredores amplos e vazios da mansão Queen, ecoa nos quartos fechados à chave e paira nos retratos empoeirados que teimam em preservar o que já se perdeu para sempre.
No quarto principal da Mansão Queen, Moira está sentada à beira da cama king-size, suas costas eretas apesar do cansaço que lhe curvam os ombros. As luzes permanecem apagadas; apenas o luar prateado, filtrado pelas cortinas pesadas de veludo, banha o ambiente com uma claridade fria e impiedosa.
Diante dela, na parede oposta, um grande quadro emoldurado em ouro envelhecido: Robert, com seu sorriso confiante de homem de negócios; Oliver, jovem e radiante, o filho que carregava o futuro da família; Thea, ainda criança, inocente; e ela própria, no centro, tentando unir todos com um braço protetor.
Moira se levanta devagar, seus pés descalços afundam no tapete persa macio.
Ela se aproxima do retrato, seus dedos trêmulos tocam o vidro frio como se pudesse atravessá-lo e voltar no tempo. Sua voz emerge baixa, rouca, um sussurro partido pelo remorso que a consome por dentro:
— Moira… o que você fez?
As lágrimas descem lentas, sem drama, apenas a aceitação tardia de culpas que não podem mais ser desfeitas. O silêncio da casa amplifica o som de sua respiração entrecortada, como se a mansão inteira chorasse com ela.
A campainha toca lá embaixo, um som distante e ignorado por ela.
No andar térreo, Walter, o fiel motorista, age como um mordomo, desperta imediatamente. Mesmo na quietude absoluta da casa, seus instintos o mantêm alerta. Ele caminha pela casa com o terno impecável de quem aparentemente não dormiu, antes esteve atento para qualquer emergência, como um fiel colaborador da família.
Ao abrir a porta, ele vê dois jovens sob a luz amarelada do alpendre. A moça à frente chama atenção de imediato: cabelos negros longos e bem cuidados caindo sobre os ombros, olhos vivos e penetrantes que brilham com uma inteligência afiada. Sua postura é confiante, quase desafiadora — moderna demais para os rígidos padrões de 1963, mesmo que o vestido justo siga o corte elegante da época, marcando curvas generosas com uma ousadia sutil. Há nela uma liberdade inata, um ar de mulher que sabe o poder de seu corpo e de seu olhar, uma sensualidade natural que transborda sem esforço, como se cada movimento fosse uma promessa velada.
Ao seu lado, meio passo atrás, um garoto bem vestido em um terno casual, postura relaxada, quase preguiçosa, o tipo de jovem de elite que conhece todos os atalhos da vida e não hesita em usá-los. Seu sorriso é malicioso, os olhos percorrendo o ambiente com uma safadeza discreta.
— Boa noite. — Diz a garota, com uma suave, mas firme e um tom de naturalidade que não espera que o garoto tome a frente. — Eu sou a Manu. Este é o Fred. — Diz ela, apontando para o menino. — Somos amigos da Thea — Continua a bela jovem com olhar direto encontrando o de Walter sem vacilar. — Viemos ficar com ela esta noite. Ela não deveria passar por isso sozinha.
Walter os observa por um longo instante, avaliando. Não vê ameaça, apenas juventude vibrante e uma intenção genuína, talvez temperada por algo mais selvagem. Ele assente.
— A senhorita Queen realmente precisa de companhia esta noite. — Responde, com voz grave e respeitosa. — O quarto dela fica no segundo andar. Por favor, sigam-me.
Manu suspira diante do homem negro que serve fielmente a família Queen, seus pensamentos e seu olhar para o homem são de uma garota que não segue as tradições as quais uma moça de alta sociedade é ensinada.
Walter ignora o olhar, ele os conduz até o quarto de Thea. Fred observa a mansão imponente repleta colunas de mármore, quadros antigos nas paredes, móveis pesados de mogno que parecem grandes demais para os poucos que restaram ali. O ar cheira a madeira polida e a vazio — uma casa que outrora pulsava com vida, agora reduzida a ecos.
No quarto de Thea, a jovem está sentada no chão, encostada à beira da cama desfeita, as pernas dobradas contra o peito. O olhar perdido fixa uma fotografia antiga emoldurada: ela criança, entre Oliver e o pai, todos rindo em um piquenique de verão. Lágrimas secas marcam seu rosto pálido.
A porta se abre devagar. Thea ergue os olhos — surpresa, alívio e uma dor renovada misturam-se em sua expressão.
— Thea… — Murmura Manu, aproximando-se com passos lentos, deliberados. Seus quadris balançam sutilmente ao caminhar, uma graça felina que preenche o quarto com uma presença magnética. Ela se ajoelha ao lado da amiga, os dedos longos e elegantes tocam o braço de Thea com uma delicadeza que carrega calor.
As duas se abraçam forte, Thea desaba nos braços de Manu como se finalmente pudesse soltar o peso que a sufoca.
Fred se aproxima em seguida, respeitoso mas com um brilho safado nos olhos, observando as duas com um interesse que vai além da mera amizade.
Thea soluça, a voz entrecortada:
— Eu não sei como continuar… O Oliver… ele sempre cuidou de mim, como um irmão mais velho que nada podia abalar. E o meu pai… ele era tão ocupado, mas quando estava comigo, era só meu. Eu amava os dois… e agora só sobrou essa casa vazia, esses ecos.
Ela aperta a foto contra o peito, os dedos brancos de tanto força.
Manu segura o rosto de Thea com as duas mãos, os polegares acarinhando as bochechas úmidas. Seus olhos escuros mergulham nos da amiga, uma proximidade íntima, quase hipnótica, a respiração quente mistura-se.
— Você não está sozinha, Thea. Não esta noite. Nós estamos aqui para você.
Fred observa em silêncio por um momento, então quebra o clima com uma voz baixa, confiante, carregada de malícia:
— Você está muito tensa, Thea. O corpo todo travado, como se o choque ainda estivesse te segurando presa.
Ele tira do bolso interno do paletó um cigarro enrolado à mão, grosso e aromático.
— Isso aqui é um beck. Maconha pura, da boa. Só para acalmar os nervos, soltar o corpo… e a mente. Nada pesado, prometo. Mas vai te ajudar a respirar de novo. Se você quiser, claro.
Seu tom é safado, seu sorriso torto sugere que sabe exatamente o quanto isso é proibido — e o quanto isso pode ser libertador. Ele estende o beck para Thea, seus olhos passeiam brevemente pelo corpo de Manu, como se compartilhasse um segredo com ela.
Thea hesita, o olhar indo da janela aberta para a foto, depois para os amigos. A dor lateja em seu peito como uma ferida aberta.
— Só… para conseguir respirar um pouco. Para a dor não me engolir inteira. — Concorda, ela.
Eles se acomodam próximos à janela aberta, o ar fresco da noite entrando e levando o peso do quarto. Fred acende o beck com um isqueiro prateado, dá uma tragada profunda e passa para Manu primeiro.
Manu aspira devagar, os lábios carnudos envolvem o beck com uma sensualidade natural, os olhos semicerrados enquanto segura a fumaça. Ela solta o ar em um fio lento, o corpo relaxa visivelmente contra a parede, as curvas se acomodando com uma languidez adulta. Passa para Thea.
Thea traga hesitante no início, tossindo levemente, mas logo a maconha começa a fazer efeito: uma onda quente e calmante espalha-se pelo corpo, dissolvendo a tensão nos músculos, suavizando as bordas afiadas da dor. Os pensamentos, antes um turbilhão de perda e vazio, desaceleram; o remorso dá lugar a uma paz preguiçosa, quase eufórica. O silêncio torna-se menos opressivo, mais acolhedor — um espaço onde a dor ainda existe, mas não domina mais.
Manu passa o braço pelos ombros de Thea, puxando-a para mais perto, o corpo quente e macio encostando no dela. Sua voz sai baixa, rouca pelo fumo:
— Amanhã a dor vai voltar, Thea… mas hoje, você não precisa enfrentá-la sozinha. Deixa o beck te levar um pouco para longe disso tudo. Sente como tudo fica mais leve? Mais… vivo.
Fred sorri, safado, dando outra tragada profunda antes de passar adiante, os olhos brilhando com uma cumplicidade maliciosa.
A fumaça dança no ar iluminado pelo luar, o aroma terroso e doce preenchendo o quarto. O choro dá lugar a um silêncio sereno, interrompido apenas por risos baixos e sussurros.
Star City dorme sob o manto escuro de 1963. Mas a dor — ainda não. Ela apenas repousa, por algumas horas, embalada pela fumaça calmante do beck.
15.12. A invsão ao banco.
Centro de Ponta Porã.
A noite de lua nova avança e a escuridão toma conta do centro de Ponta Porã., onde o Sargento Refúgio e Dourado trafegam com sua viatura, um fusca da polícia militar em meio às ruas desertas, iluminadas por postes fracos, o cheiro de erva-mate no ar, e o som distante de algum rádio tocando bolero.
O Sargento Refúgio dirige devagar, alto demais para o carro pequeno, com a cabeça quase batendo no teto. Ao lado, Dourado ajeita os cabelos loiros no retrovisor, usando um pente que tira do bolso e diz:
_ A gente deveria passar pela casa do Capitão William ver se a reunião já terminou por lá. Ouvir um pouco do que aqueles homens estão ensinando.
_ Até parece que você não conhece o Capitão William! Usar o horário de trabalho para aparecer na casa dele é pedir para levar advertência. _ Adverte Refúgio.
O fusca segue trafegando pelas ruas do centro da cidade enquanto os dois seguem conversando aleatóriamente sobre coisas futeis que lhes vem a cabeça.
— Olha só essa tranquilidade, Dourado. Ponta Porã é a cidade mais pacífica do Mato Grosso! Graças à nossa vigilância, é claro. Acho que mereço uma promoção por isso.
Dourado sorri e, com olhar sarcástico, brinca:
— Promoção, sargento? O senhor diz isso desde que entrei na corporação. — Em seguida, ele passa a mão em seu cabelo e brinca: — Esses meus cabelos louros é que merecem medalha, brilham mais à luz da lua do que no sol!
Refúgio rebate:
— Cabelos? Bah! O importante é a inteligência policial. Como a minha.
De repente, ao passar pela rua principal, em frente à agência do Banco do Brasil (um prédio simples, com fachada colonial e cofre antigo no fundo), eles veem algo estranho: um fusca velho estacionado torto na calçada lateral, com as luzes apagadas, e uma fresta de lanterna piscando dentro do banco.
Dourado aponta para o veículo e diz:
— Ô sargento, olha ali! Luz no banco à essa hora? E aquele carro… parece suspeito.
Refúgio infla o peito e dispara:
— Suspeito? Isso é obra de bandidos! Eu sempre disse que um dia ia pegar um assalto em flagrante. Mereço um aumento por essa percepção!
Eles param a viatura devagar, descem com lanternas e revólveres na mão. Refúgio tenta ser discreto, mas tropeça numa pedra da rua irregular.
Dourado então adverte:
— Vou passar rádio para o quartel Sargento, o Major Ringo deve vir em nosso auxílio ou enviar reforço.
Dentro do banco, três homens tentam girar o cofre para abri-lo, o primeiro é magro ao extremo, alto mas não tanto quanto Refúgio, com corpo ossudo e nervoso. Rosto fino, barba por fazer de vários dias (dando ar de malandro descuidado), olhos esbugalhados e expressões de falsa esperteza, cabelos escuros desgrenhados, muitas vezes sob um boné velho ou chapéu surrado.
O segundo é gordo, robusto e baixinho, com barriga proeminente que balança ao andar (o clássico “botijão de gás”). Rosto redondo e simpático, bochechas cheias, olhos pequenos e expressão de guloso preguiçoso. Seus cabelos são curtos e escuros, usa roupas largas e desleixadas, camisa aberta no peito, calça com suspensórios, tudo apertado na barriga. Ele ofega, sua barriga atrapalha seus movimentos enquanto soa.
O terceiro homem, de estatura média, magro mas não ossudo como o primeiro, com um corpo desajeitado, ombros caídos e postura curvada de quem vive “na defensiva”. Rosto marcante e característico, olhos expressivos e arregalados cabelos escuros bagunçados. Em meio a ação, ele demonstra medo. Suado e nervoso, com expressões faciais exageradas, ele coça a cabeça, morde os lábios. Ele gesticula muito e pede preça para seus comparças.
— Precisamos agir rápido, antes que chamemos a atenção! — Diz o terceiro homem.
O primeiro segue girando o cofre sem sucesso. Em meio ao nervosismo dos três, o homem gordo pega um biscoito do bolso e começa a comer, fazendo barulho, o que irrita o primeiro:
— Isto são horas, Botijão? — Lamenta ele, que irritado, taca um cascudo em seu colega e toma o biscoito de sua mão, dizendo: — Olha pela fresta da janela ver se está tudo ok lá fora! Após Botijão sair, ele olha pela fresta e vê a sirene da viatura da polícia com o giroflex ligado e dois policiais cercando o carro deles. Ele vê a imagem e grita sem sentir:
— Chompiras, Tripa Seca, a polícia cercou nosso carro! Ferrou para nós!
O pânico toma conta dos dois colegas que se batem. O mais magro empurra o outro e diz: — Olha o que você faz, Chompiras, seu incompetente!
Chompiras e Tripa Seca correm até a fresta da janela de madeia e observam os policiais. Tripa Seca lamenta:
— Que merda! Ferrou! Fora do banco, Dourado conversa com Refúgio.
— O pessoal já avisou o Major Ringo, certamente eles mandarão reforços.
— Isso é importante, Dourado, estes bandidos devem ser perigosos!






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Uau muito legal esse cap, e eu acho que ele deveriam estar sendo bem mais cuidadosos com os assuntos que discutem KKKK alguém ouviu eles falarem que viram Deus e eles nem sabem, acho que vai dar algo bem ruim ou algo minimamente bom com isso.
KKKK e a aparição dos três trapalhões ali foi uma surpresa boa.
Nem xinguei mais o Muller pq ele não ta merecendo, nem isso mais, mas gostei da atitude do Faustão.
E quem será que é essa Sally?