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Dream Life in Paris

Questions explained agreeable preferred strangers too him her son. Set put shyness offices his females him distant.

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4. Uma visão do céu

4.1. Para a delegacia

MT – 164.

A manhã avança quente em Ponta Porã.

O sol queima a estrada de terra, o ar vibra seco, e a caminhonete Chevrolet Brasil ronca forte enquanto avança pela poeira suspensa.

Aparício dirige com o peito estufado. Na carroceria, o grupo dos escolhidos e enviados observa o caminho. O vento bate no rosto, levantando poeira.

O local cheira a campo, suor, gado e autoridade de coronéis.

Luk se segura com calma e pergunta:

— Não dá multa a gente andar aqui atrás?

Menslike sorri, meio nostálgico:

— Estamos em outra época, outro mundo. As coisas aqui são diferentes.

Bebeto, alegre, quase salta mediante a trepidação:

— Eu, que vivi pouco, andava em carroceria de carros. Sério que vocês nunca andaram?

Menslike suspira:

— Eu andei, mas eram tempos difíceis.

Healer, sério, referência moral:

— É ilegal!

Dentro da cabine, Amada segura o braço de Madm com suavidade inquieta:

— Não corremos risco de implicarem conosco por não termos documentos e termos esse pessoal atrás?

Aparício ri com arrogância tranquila:

— Esse carro é de Thomaz Muller. Você acha que algum policial militar ousaria desafiá-lo?

Mal ele termina de falar e logo à frente, eles avistam uma barreira policial.

Ao sinal do policial, Aparício estaciona o veículo.

Um policial alto, forte, de cerca de dois metros de altura, se aproxima dizendo:

— Opa, opa… bom dia…

Antes que o policial prossiga, Aparício diz:

— Bom dia, Sargento Refúgio, são convidados do Sr. Muller, serão hospedados em sua casa na cidade.

Reconhecendo Aparício, Refúgio sinaliza para seguirem, dizendo:

— Pode ir, pode ir!

— Viu! — Comemora Aparício, batendo no volante.
Contudo, um apito cortante ecoa e um homem de uniforme impecável, com cabelo negro e feições angulares, se aproxima, com a voz firme:

— Bom dia, Capitão William. Já fomos liberados. — Diz Aparício, tentando manter a calma.
— Eu percebi como vocês foram liberados, mas quem são seus convidados? — Pergunta William, com os olhos estreitando-se.

— São amigos queridos do Sr. Thomaz Muller, o senhor Madm, sua esposa, Amada, e seus familiares. — Responde Aparício, hesitante.

Madm estende a mão em cumprimento, mas William corta:

— Vocês podem me passar sua documentação?

— Ah, é, eles… vocês podem passar a documentação? — Gagueja Aparício, perdido.

Madm e Amada trocam um olhar silencioso. William repete, impaciente:

— Vocês ouviram o que eu disse?

O silêncio pesa e Madm, respirando fundo, confessa:

— Estamos sem documentação.

— Sem documentação? Então, vocês podem descer? — Ordena William.
Madm e Amada saem da cabine, enquanto dois policiais os cercam. Um terceiro, aquele que o parou e liberou no primeiro momento, aproxima-se da janela para falar com Aparício. William contorna o veículo e ordena ao grupo na carroceria:

— Desçam também. Vocês são de onde?

Madm hesita, olhando para Amada, e decide:

— Dessa região mesmo.
— Me passe seu nome completo para eu checar. — Insiste William.

Madm, após um instante, corrige:
— Tony Madm, mas não somos daqui.

William franze a testa:

— Desculpem-me! Eu entendi errado. Achei que tivessem dito que eram dessa região.
Amada abraça Madm, tentando apaziguar:

— Nós que queremos nos desculpar. Somos desta região, mas não somos daqui. Estamos retornando agora e sem documentos.

Madm completa, com cautela:

— Na verdade, somos dessa região, mas não somos daqui. Somos de outro lugar que é semelhante a esta região.

William, irritado, indaga:

— Vocês estão caçoando de mim?

Aparício deixa a cabine, intercedendo:

— Algum problema?

— Todos! Os amigos do seu patrão estão sem documentos e terão que me acompanhar. Vou levá-los à delegacia. — Declara William.

— Eles cometeram algum ilícito? — Pergunta Aparício.

— Eu não sei, mas parece que perderam o documento. Isso tem que ser registrado na DP, correto? — Propõe William.

— Está correto. — Concorda Aparício, relutante.

— Vocês podem me acompanhar. — Diz William, gesticulando.

Madm e Amada pegam suas coisas, enquanto William ordena:
— Anderson, Swan, convidem os outros três companheiros a os acompanharem e me sigam em outra viatura.

Aparício toca o ombro de Madm, sussurrando:
— Vou avisar o Sr. Muller. Fiquem tranquilos, tudo vai terminar bem.

O Capitão William entra na viatura, com Madm e Amada no banco de trás e Menslike à frente. Nokram junta-se aos pais. Luk, Healer e Bebeto seguem em outra viatura com Anderson e Swan.

Na viatura onde William se encontra, ele avisa:
— Vou deixá-los à vontade, mas se tentarem fugir, serão tratados como bandidos. Imagino que não colocarão a reputação de Thomaz Muller em risco.

Enquanto a viatura se afasta, Aparício troca palavras com o Sargento alto, do bigode grosso, dizendo:

— Exatamente como prevíamos, Sargento Refúgio. Muller terá que tirar esse capitãozinho do batalhão urgente, mas, por ora, ele fez exatamente o que precisávamos. Agora vamos descobrir quem são esses de verdade.

— Com todo respeito, existem outras formas do Sr. Muller puxar a capivara dos dois — Pontua, o sargento.

Aparício, subindo na caminhonete, acrescenta:

— Se eles forem inocentes, William se ferra. Se forem culpados, vamos ferrar o William da mesma maneira.

O motor ruge e a picape retorna à fazenda, deixando um rastro de poeira no ar.

4.2. A astúcida de Muller.

Fazenda de Thomaz Muller.

Nesse ínterim, na fazenda Muller, o ar vibra quente e silencioso, interrompido apenas pelo som distante de gado e o canto abafado de cigarras. O mundo parece em pausa, como se soubesse que algo está prestes a se mover.

Na varanda ampla, Kilba varre o chão de madeira com calma. Seus movimentos são leves, quase meditativos, como se a poeira fosse uma oração silenciosa. Há serenidade em seu rosto — aquela paz de quem, mesmo sem entender o sagrado, consegue senti-lo.

A porta se abre com força. Aparício entra, com sua expressão carregada, passos firmes e tensos, como se trouxesse um segredo quente demais nas mãos. Ele nem olha para os lados, vai direto em direção ao escritório.

— O Sr. Muller está? — Pergunta, sem cerimônia.

Kilba para, mão firme no cabo da vassoura.

— Está sim, Aparício. Lá dentro.

Aparício segue e bate duas vezes antes de entrar. A porta range. Thomaz está sentado à escrivaninha, a luz filtrada pela janela ilumina o rosto marcado pelo tempo e pela autoridade. Ele ergue os olhos, sério, estudando o capataz com curiosidade fria.

— E então? — Pergunta com voz controlada, como quem já espera um relatório delicado.

— Estão levando-os eles pra cidade… — Aparício diz, pesaroso, mas com tensão mal disfarçada.

— Hum. — Thomaz tamborila os dedos na mesa, pensativo, os olhos estreitam-se.

Aparício hesita por alguns segundos e então fala:

— O Capitão William, como o senhor previu, mandou levá-los para a delegacia. Thomaz sorri de leve, um sorriso calculado, meio sombra, meio satisfação.

— Fez bem. Agora veremos quem eles são de verdade.

O silêncio que segue é pesado. Não existe vento. Nem cigarra. Nem gado.

 Kilba adentro o escritório, e Thomaz afirma com o tom carregado de irritação:

— Ouvi falar que você estava dando moral para aqueles caras!

Kilba, com os olhos brilhando de convicção, rebate:

— Aqueles moços são anjos, o senhor não viu como seus rostos brilhavam?

Thomaz, batendo a mesa, retruca:

— São mágicos, fizeram algum truque. Você acha que alguém que sirva a Deus fala contra a Igreja como eles falaram?

Kilba se cala, o silêncio pesa no ar. Thomaz se levanta, aproximando-se dela com passos lentos. Ele toca seu ombro, deslizando a mão até o braço, e a puxa suavemente para si. Seus lábios encontram os dela em um beijo, carregado de uma mistura de autoridade e desejo. O beijo é interrompido pelo barulho da camionete de Aparício, retornando à fazenda, com o motor ecoando como um trovão, deixando o local. 

4.3. Surpresa na estrada.

MT-164.

O sol de Ponta Porã arde alto, derramando calor sobre o asfalto e sobre o capô quente da viatura da Polícia Militar dirigida pelo capitão William. A luz vibra contra o vidro, e o ar dentro do carro parece denso, eletrizado. William dirige em silêncio, o olhar duro fixo na estrada. Madm e Amada sentam atrás, com Menslike ao lado do capitão e Nokram próximo, todos em silêncio respeitoso. O motor ronca grave, e a poeira que sobe atrás das rodas parece um véu suspenso, dividindo dois mundos.

William ajusta o retrovisor, encarando-os com desconfiança.

— Me conte mais sobre vocês. Como conheceram o Sr. Muller?

Madm hesita por um breve segundo, olhando para Amada antes de responder, calmo e sincero:

— Se eu te falar a verdade, o senhor vai me achar louco.

William não desvia os olhos da estrada.

— Diz aí. — Ele solta, com ironia contida e um toque de provocação.

Madm mantém o olhar firme, respeitoso — mas irrefutável.

— O senhor me permite pegar algo em minha mochila?

William endurece o semblante. Um pensamento rápido cruza sua mente — quase visível no modo como sua mão se aproxima da arma no coldre:

“Que vacilo o meu… nem revisei a mochila dele.”

Ele sinaliza com o queixo e um gesto firme da mão livre.

— Mostre!

Madm abre a mochila devagar, com cautela reverente. Seus dedos encontram o Cristal do Conhecimento. O objeto esférico é segurado por eleparece respirar luz própria, discreta, mas viva. Ele o segura com delicadeza, como quem segura destino e responsabilidade.

— Nós não conhecemos perfeitamente o Sr. Muller. Não somos daqui — somos de outra realidade. Fomos enviados pelo Mashiach para mudarmos a história deste povo.

A frase desliza pelo ar como aço. William arregala os olhos — e ri, seca e brevemente, tentando dominar o incômodo que passa pelos músculos do rosto.

— Eu quero te ajudar, mas se você continuar sendo sarcástico e irônico comigo, certamente eu vou ser o primeiro a querer ferrar com sua situação ao passar o seu caso para o delegado.

Madm não altera o tom, nem reage com orgulho. Apenas ergue o cristal, oferecendo-o com serenidade.

— Pegue. Faça qualquer pergunta ao cristal, tocando nele. Qualquer coisa sobre mim ou sobre o mundo.

William franze os olhos, cético. Mas a mão dele não hesita totalmente — ela pesa, entre medo e necessidade de controle. Ele ergue o braço e gesticula para a viatura atrás desacelerar. O comboio para. Poeira sobe, lenta, rodopiando no calor.

Na segunda viatura, Bebeto se inquieta, com o rosto colado ao vidro.

— O que ocorreu?

Anderson, ao volante, mantém a calma profissional:

— Fiquem tranquilos, o Capitão solicitou que parássemos. Nada grave.

Swan, com postura militar séria, pergunta:

— Quer que eu desça?

— Vamos aguardar a orientação do Capitão. — Anderson responde, firme, com olhos firmes, observando o que ocorre à frente.

William pega o cristal. Ele sente o frio do objeto, como se estivesse segurando gelo polido. Há um brilho leve, quase imperceptível. Ele fala baixo, mas com ameaça clara:

— Se você estiver de brincadeira, eu não medirei esforços para te ferrar. E tenha certeza de que nada que Thomaz Muller fizer vai aliviar para você.

Madm continua com a mesma paz inabalável.

— Faça apenas o que sugeri.

Nokram completa com voz firme e presença espiritual que pesa mais do que o sol:

— Confie em nós, capitão.

William respira. Seus ombros endurecem. O dedo se fecha mais forte no cristal.

Ele pergunta:

— Quem é este casal que aqui está?

A visão vem como uma onda.

O rosto dele trava. O queixo aperta. Pupilas dilatam. Ele pisca com força — várias vezes.

Na mente dele, o mundo se rasga:

Madm e Amada, idosos, respirando com esforço, fugindo na noite. Autoridades em túnicas escuras. Passos. Vozes. Desespero. Um clarão no céu. Corpos brilhantes. Glória que não pertence à Terra. Julgamento. Terra abrindo, água rugindo. Cantos celestiais. E então — rejuvenescimento. Luz viva. Eternidade tocando a carne.

William larga o cristal como se queimasse.

Ele cai aos pés de Nokram, que geme:

— Ai!

William leva as mãos aos olhos. Vermelhos. Lacrimejando. Cego por um instante que parece eterno.

— Ninguém foge! — Ele grita, com voz que treme entre medo e autoridade — Todos parados, senão eu atiro!

Madm, calmo como água de fonte, inclina-se um pouco. Ele toca os olhos de William com o polegar e o dedo médio. Um gesto simples. Mas a tensão nos ombros do capitão se dissolve. A respiração muda. Ele enxerga.

William engole seco, os olhos ainda marejados, voz baixa, quase infantil:

— O que vocês fizeram?

Madm, sem pressa, pergunta apenas:

— O que viu?

William responde com a alma ainda tremendo:

— Vi vocês fugindo das autoridades… mas vocês eram idosos.

Madm, suave:

— Só isso?

William respira como quem tenta voltar ao próprio corpo.

— Também vi vocês diante de seres iluminados… rejuvenescidos… em outro lugar. Outro… planeta, sei lá. E eu… eu acho que fiquei cego por alguns segundos.

Amada, com serenidade que corta a realidade como ouro puro:

— O que o senhor viu foi a experiência que vivenciamos com o Mashiach, quando o mensageiro deste nos enviou para cá.

Nokram acrescenta, massageando o pé onde o cristal caiu:

— Quando vemos seres celestiais em sua forma cheia de luz, podemos morrer ou perder a visão. Nosso corpo não está apto a ver a glória do Altíssimo, mesmo quando esta toca seres menores como nós.

William tenta recuperar controle:

— Como posso saber se isso é verdade?

Madm pega o cristal de volta. Apenas segura e diz:

— Peça para perguntar qualquer coisa. Algo que só o senhor saiba.

William pensa e exige:

— Pergunte ao cristal os nomes dos meus filhos.

Madm pergunta. Nada.

Ele tenta de novo. Nada.

William sorri cínico — até perceber que o riso é defesa, não certeza.

Amada observa, então diz, certeira:

— Provavelmente é porque ele não tem filhos. O senhor deve perguntar algo que só o senhor saiba, e que ninguém mais saberia responder.

William encara Amada. O respeito nasce junto com o medo.

— Inteligente, a sua esposa.

Ele respira fundo e tenta outra:

— Como eu conheci minha esposa?

Madm segura o cristal. A resposta vem. Ele descreve.

E o rosto de William se abre em choque puro.

— Que diabo de mágicos são vocês?

Amada não treme:

— Não somos mágicos. Estamos dizendo a verdade.

Menslike, inclinado, com voz sem temor:

— Se o senhor não acreditar, nos leve à delegacia e inventaremos várias mentiras. Ao senhor e ao Sr. Thomaz Muller, falamos a verdade. Mas parece que a verdade incomoda.

William aperta os olhos. Respira fundo. Luta com algo dentro dele.

— Eu vou pedir para você encher este amuleto de perguntas. Me diga até os números da loteria.

Madm, com um leve sorriso:

— Tudo que o senhor exigir.

O ar fica pesado. Alguma coisa mudou no mundo, ainda que o motor esteja desligado e o sol continue queimando igual.

4.4. A esposa de William.

Casa de William em Ponta Porã.

Algum tempo depois, a 

viatura da polícia militar guiada por William se aproxima de uma bela casa e estaciona em frente à mesma. O som do motor cessa, mas o calor e a poeira da estrada parecem entrar junto deles. Madm, Amada, Menslike e Nokram descem com William.

A porta da casa se abre e uma mulher sai correndo, com um pano amarrado na cabeça — o lenço cobre não apenas o couro cabeludo frágil, mas uma dignidade segurada com força. Ela abraça o capitão, quase se pendurando nele, e diz:

— Amor! Veio mais cedo, hoje?

— Sim, e trouxe convidados. — Responde William.

Amada percebe imediatamente a simplicidade das roupas, a pele suave e pálida, e a cabeça quase sem cabelos protegida pelo lenço. É como ver uma flor cuidada com amor tentando resistir ao vento do deserto. Ela não segura a pergunta:

— Essa é sua esposa?

Os olhos de William lacrimejam, a voz embarga — só por um momento — e ele responde, com a dor que só quem ama profundamente consegue carregar:

— Sim! Como eu disse, ela tem leucemia, estamos lutando contra esta doença, mas creio que a Ângela vencerá essa doença em breve.

Ele beija a testa dela com devoção.

— Você vencerá, não é mesmo, amor?

Madm se comove com o olhar apaixonado do capitão — aquele tipo raro de amor que não precisa de prova — e sorri de leve:

— Certamente vencerá, capitão.

William prossegue, meio confissão, meio desabafo de homem que carrega o mundo:

— O tratamento adequado não pode ser pago com o salário de policial.

Madm respira fundo, como se já soubesse o peso dessa dor.

— Existem coisas que o dinheiro não pode comprar, porém a misericórdia de Deus, hoje, chegou à sua casa. A partir de hoje, seus sofrimentos diminuirão.

— Como você está se sentindo hoje, meu amor? — Pergunta William.

— Estou com as dores de sempre, mas estou bem. — Responde a mulher de bandana, com a voz doce e cansada.

Madm se aproxima com respeito. Coloca as mãos nos ombros dela. Ela estranha, os músculos endurecem e o olhar dela lança uma dúvida agressiva — até ver o sinal positivo de William. Ela respira. Relaxa.

— Pode ir ao médico consultar-se, nenhum mal te atinge agora! — Diz Madm.

Por um momento, nada acontece.
Então, algo simples — quase indetectável:

Ângela inspira devagar… e o peito dela desce sem dor. A mão que segurava o lenço relaxa. Seus olhos piscam, confusos. A testa enruga. Ela leva discretamente a mão ao abdômen, ao peito, à região das costas — procurando a dor que sumiu.

— Como está se sentindo? — Pergunta Amada.

Ângela fala, ainda surpresa com o próprio corpo obedecendo:

— Então… aparentemente, minhas dores sumiram.

— Você está curada! — Diz Amada, sorrindo como quem já sabia.

Uma jovem morena clara sai da casa. Vê o grupo reunido e pergunta:

— Está tudo bem?

Menslike a vê — e o tempo muda para ele. O coração acelera, quase como um aviso. Ele não entende, só sente — como se o destino soprasse antes de se revelar.

William apresenta:

— Madm, Amada, Nokram, Menslike, esta é minha irmã, Letícia.

A jovem sorri com a segurança simples de quem nasceu com tons femininos apaixonantes.

— Prazer, Let.

Amada e Madm acenam. Menslike, sem nem pensar, inclina-se e beija a mão dela. O gesto é antigo, fora do tempo — e todos sentem o impacto silencioso no ar. Let pisca, surpresa e ruborizada. Há desconforto, sim — mas também curiosidade e graça.

Ângela quebra o momento:

— Perdão, eu não me apresentei ainda, meu nome é Ângela.

— Seu esposo disse tudo sobre você, Ângela. — Comenta Amada, e conclui: — E sobre você também, Let.

Let olha para o irmão:

— Meu irmão? Quem são vocês?

— São enviados de Deus que vieram nos abençoar, Let. — Responde William.

— Meu esposo curou sua cunhada. — diz Amada, feliz.

Let encara Madm, ainda racional:

— Você a curou?

Madm apenas diz:

— Seu irmão irá hoje à tarde ao médico fazer uns exames para obtermos respostas precisas.

A família os convida para entrar. O ambiente é simples, humilde, cheio de amor. Ângela serve pães, leite e chá para o grupo, enquanto Let ajuda a preparar o almoço.

O grupo come com reverência e fome.
Eles contam sua missão.

— Fomos ricos, pobres, vimos o mundo acabar, o Mashiach nos salvar e, por fim, para cá nos enviar. — Diz Madm.

Let ri:

— Até rimou.

— Meu esposo é um poeta! — Diz, Amada, beijando o rosto dele.

— Meu pai é minha inspiração! — Diz Menslike.

William observa. Apreensivo. Mudado. Metade convertido, metade inquieto.

Let pergunta:

— Quais são seus poderes?

Nokram responde firme:

— Não temos poderes. Todo poder pertence ao Altíssimo.

Madm explica com calma eterna:

— Quando nos enviou, Peniel, o mensageiro de Deus, disse que eu poderia curar as pessoas e atenuar ou eliminar os efeitos diretos do pecado…

Amada completa:

— … Morte, envelhecimento, doenças…

Let arregala os olhos.

— Abrir a boca de animais? — Pergunta ela, quase rindo.

Amada confirma, serena.

William fala, vulnerável:

— Hoje eu fiquei cego por alguns segundos… e fui curado.

Let fica muda.

— O almoço está pronto. — Diz ela.

Amada olha para William:

— Não podemos comer sem meus cunhados e meu sobrinho.

William se lembra dos outros.

MT-164, momentos antes.

— Vou levá-los à minha casa — diz William — levem o menino e os outros dois à delegacia até minha chegada.

Agora:

William se levanta.

— Podem almoçar, vou buscar os meninos.

Ele sai.

E o ar, que estava pesado, agora parece esperar o desfecho inevitável que se aproxima.

4.5.Tensão na delegacia.

Delegacia de Polícia de Ponta Porã.

O relógio na parede marca o tempo com um tique seco e constante, fazendo o silêncio parecer ainda mais pesado. O ar tem cheiro de café requentado e tinta velha, misturado ao suor discreto de quem vive tensão diária. Ventiladores rangem no teto, mas pouco ajudam contra o calor abafado.

Luk e Healer dividem o mesmo banco de madeira, os dedos inquietos; unhas sendo devoradas como se isso pudesse diminuir a angústia. Bebeto balança as pernas, tentando parecer forte, mas a mão pequena treme apoiada no joelho.

— Não é melhor fugirmos? Vai saber para onde levaram o tio, Amada e meus primos? — Pergunta, Bebeto, com a voz quase quebrando a coragem que tenta sustentar.

Luk respira fundo, forçando serenidade, o peito subindo devagar, como quem luta contra o medo para dar exemplo.

— Não! Não estamos sendo perseguidos, vamos confiar em Deus e aguardar o Madm.

Healer coça a juba black power, engole seco, seus olhos alternam entre a porta de vidro fosco e os dois policiais mais à frente.

— E se agredirem eles? — Murmura, com o rosto tenso.

— Deus os protegerá. Vamos aguardar! — Insiste, Luk, tentando manter firmeza, embora a voz denuncie o esforço.

Do outro lado do balcão, Anderson e Swan conversam com o delegado Morales. Eles falam baixo, mas o eco da sala carrega cada palavra.

— Pois é, delegado Morales, foi algo estranho. Primeiro, o capitão William pediu para os trazermos para cá, mas depois decidiu levá-los para sua casa, afirmando que sua irmã conhecia os meliantes. — Afirma Swan, cruzando os braços, expondo sua expressão confusa, porém respeitosa.

Anderson concorda, com sua postura ereta como se prestasse continência à própria consciência:

— Independente disto, todos nós confiamos na lisura e honestidade do Capitão William!

Morales, homem de bigode grosso, uma barriga avantajada e olhar cansado de tantas histórias estranhas, tamborila o lápis na mesa. Ele suspira, pesado, como quem carrega o peso da cidade nos ombros.

— Verdade! Ninguém questiona a honestidade dele. Vamos aguardá-lo. — Conclui o delegado.

O silêncio toma conta do ambiente. Não há gritos, não há algemas batendo, nem violência. Só o tipo de espera que amplia a ansiedade no coração de cada presente.

Healer fecha os olhos, em oração suave sem palavras.

Luk força um sorriso que não chega ao olhar.
Bebeto abraça os joelhos, tentando caber em si mesmo.

E assim, naquele pequeno prédio quente, o mundo respira suspenso — como se o tempo segurasse o ar junto com eles, à espera de uma resposta do Alto.

4.6. A cura de Let.

Residência de William.

Após a saída de William, todos começam a almoçar, exceto Amada, que permanece com a postura alerta, temendo o rumo dos acontecimentos no ar.

O som dos talheres é tímido, quase respeitoso. Há uma tensão tranquila no ambiente, como se o ar, ainda quente, carregasse expectativa.

Let não aguenta a curiosidade que a corrói.

— Então, vocês realmente podem evitar a morte?

Madm responde firme, sem hesitar:

— Foi o que Deus nos disse que poderíamos fazer.

Let inclina o rosto, arqueando as sobrancelhas, testando cada palavra.

— Vocês ou você?

Menslike se inclina um pouco à frente, peito expandido, orgulho sincero vibrando:

— Nós somos um time! O que um de nós fizer, todos fazemos juntos!

Mas Nokram fala com a calma profunda de quem contempla o eterno:

— Nós acompanhamos nosso pai, Deus creditou a ele nos liderar e, por isso, ele recebeu todo o poder.

Let o encara de novo, franzindo o cenho, confusa com a dinâmica.

— Seu pai, você é mesmo o pai deles? Pois parece ter a mesma idade!

Nokram sorri com serenidade:

— Fomos rejuvenescidos pelo poder de Deus!

Menslike se anima, quase brilhando de entusiasmo juvenil:

— Viu! O poder de Deus atua em todos nós!

Amada segura a mão de Madm, com olhos de quem crê e celebra:

— Sim! Pois estamos sempre juntos. Deus escolheu dar grande poder ao meu esposo, mas este poder pertence a Deus e favorecerá todos nós!

Let dá um sorrisinho de canto, quase admirando sem admitir:

— Você é uma mulher de sorte!

Amada retribui com um sorriso doce e seguro, mas há firmeza nas palavras, na postura, no recato que equilibra tudo.

Ângela, percebendo o clima, intervém com bondade nervosa:

— William está demorando muito, não?

— Ele acabou de sair! — Let rebate, mexendo o pulso com um gesto impaciente.

O pano que cobre seu pulso chama a atenção de Madm, que observa com calma de profeta e compaixão humana.

— O que foi no seu braço? — Pergunta ele, voz suave, quase um cuidado natural.

Let pausa por meio segundo — o olhar endurece, o peito prende o ar — antes de responder:

— Eu tenho o pulso aberto.

Ela segura o pano instintivamente.
Madm estende a mão e toca o braço dela com reverência, e Let sente um arrepio subir do pulso até o ombro, como se um fio gelado e quente ao mesmo tempo corresse pela pele.

— Retire o pano de seu braço.

Ela recua sutilmente, ombros tensos.

— Eu não posso. Dói!

Amada se inclina levemente, olhos marejados de certeza:

— Você não crê que meu esposo possa te curar?

Let trava. O mundo fica abafado por um segundo.

“Se a mordida do Miguel aparecer, eu terei que dizer que isso foi resultado do toque desse cara… e se o poder dele não puder curar uma mordida sobrenatural? Vou precisar mentir?”

Ela fecha os olhos e relembra do que levou à tal ferida. Um ser com aparência de homem, com poucas vestes, respira próximo a seu pescoço, leva seu cabelo e morde sua nuca.

Let volta a si, mas relembra do mesmo ser, gentilmente se alimentando de seu sangue, curvando-se diante dela, mordendo seu pulso.

Ângela a traz de volta:

— Verdade, cunhada, se ele não te curar, saberemos que ele não tem poder.

Amada vira lentamente o rosto, olhar fixo, protetor:

— Está duvidando de meu marido?

— Não. — Ângela corrige-se, nervosa. — É que, se ele mostrar que curou minha cunhada, certamente ele confirmará que tem poder.

Let respira fundo — o ar entra trêmulo — e decide.

Ela desfaz o pano. Ele cai sobre o colo, leve como um segredo.

O pulso aparece — perfeito. Sem marca. Sem dor. Sem memória física do horror. Ela arregala os olhos. O ar engasga na garganta. A cadeira quase range quando ela se ergue ligeiramente, chocada — viva.

Madm pergunta, sereno como quem já sabe:

— Sente alguma dor?

— Não. O senhor me curou! — Let diz, quase num salto, a voz quebrando entre espanto e alívio.

Nokram, com firmeza de rocha:

— Deus te curou!

Let leva a mão ao peito, tentando segurar o coração que dispara:

— Eu creio no senhor! Eu creio no seu Deus! A dor sumiu!

Ângela observa a cunhada com olhos que começam a brilhar com esperança.
Uma lágrima quase nasce — mas ela só aperta o pano nas mãos e sorri pequeno, frágil e grato. Lá fora, o vento muda de direção suavemente.

4.7. A esperança de Muller.

Fazenda de Thomaz Muller.

O sol já desce, tingindo a fazenda com tons dourados e longas sombras que se estendem pelos campos. O calor do dia ainda repousa no ar, embora uma brisa tímida tente amenizar o peso do clima. A varanda cheira a madeira quente, suor antigo e poder de fazendeiro.

Thomaz Muller está recostado em sua cadeira de couro, olhar duro, como se o horizonte estivesse lhe devendo respostas. Aparício permanece de pé ao seu lado, postura rígida e reverência misturada com devoção cega.

— O William certamente vai descobrir quem são aqueles caras! Felizmente, um dia ele pode ser útil. — Diz Thomaz, sem desviar os olhos do campo, voz grave, cheia de autoridade que acredita ser destino.

Aparício, orgulhoso de estar ao lado do patrão, responde com convicção quase religiosa:

— O senhor fez bem em não confiar neles! Certamente são impostores!

Kilba entra silenciosa, equilibrando uma bandeja com copos suados de tereré. O som do gelo se mexendo quebra o ar estático. Ela serve sem ousar olhar diretamente para Thomaz, mas quando termina, dá meia-volta devagar, e sua cabeça balança, contrariada.

Faustão, sentado mais atrás, observa a cena com serenidade pastoral, mãos cruzadas sobre o joelho. Ele nota o gesto, ergue a cabeça e pergunta com suavidade:

— O que foi, linda?

Kilba respira fundo. Seus olhos parecem segurar um brilho de esperança e temor misturados. Ela segura a vassoura como se fosse um bastão e coragem ao mesmo tempo.

— Eu acho que o Sr. Muller acabou de rejeitar verdadeiros anjos de Deus, os espantando desta casa! — Diz ela, sem medo, voz sincera e ferida.

As palavras ficam suspensas no ar, como se até os insetos parassem de cantar. A brisa engasga na varanda. 

Faustão coça a cabeça devagar, inquieto, e guarda silêncio. Não por covardia, mas por temor. Algo dentro dele sabe que o mundo mudou… e que talvez Deus tenha passado pela fazenda, e eles não reconheceram.

Uma nuvem escura passa diante do sol.
O ar esfria levemente.
E, por um instante, todos sentem — mesmo que não admitam — que a casa Muller ficou mais vazia.

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Lukas Dutra

Writer & Blogger

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2 Comments

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  • Lian Liex

    O guris que não se entendem, não concordam em um plano só KKKKKK slk vai precisar de muito treino pra conseguirem improvisar juntos!

  • Lukas Dutra

    Este episódio de hoje foi interessante, o que será que acontecerá com o grupo pego pelo capitão de polícia William

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